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4 de julho de 2015

Maré: ocupação custou o dobro dos gastos sociais em seis anos

Na Maré, ocupação militar custou o dobro dos gastos sociais nos últimos seis anos
Prefeitura investiu R$ 303,63 milhões na área, enquanto presença das tropas federais, em 15 meses, somou R$ 599,6 milhões
Militares na Maré: investimentos do Ministério da Defesa atingiram R$ 599,6 milhões (Fábio Motta/Estadão)
CARINA BACELAR
Em seis anos, os investimentos em programas sociais da Prefeitura do Rio foram pouco mais da metade dos gastos federais com a ocupação militar do complexo de favelas da Maré (zona norte), que durou 15 meses. Enquanto a atuação da Força de Pacificação – integrada por militares das Forças Armadas – custou R$ 599,6 milhões no período, o município investiu, desde 2009, R$ 303,63 milhões na área, dos quais R$ 69,98 em projetos já implantados.
O próprio Secretário Estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, costuma dizer que a solução policial é a “ponta do iceberg” ou a “seta da flecha” e deve ser precedida por projetos sociais em áreas pobres. “O problema da violência urbana não é um problema único e exclusivo da polícia. Nunca se discute as causas da violência, e a polícia trabalha com a consequência. Se ficarmos com esse olhar estreito, míope, de que a polícia vai resolver tudo, esses problemas vão se prolongar por mais um tempo”, disse Beltrame na terça-feira passada, quando os militares deixaram a Maré.
O complexo é o 19º bairro com menor Índice de Desenvolvimento Social (IDS) entre os 160 do Rio, segundo o Censo de 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A Maré é um dos territórios incluídos no programa Rio Mais Social, parceria da prefeitura com a ONU-Habitat, dedicado a comunidades com Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). A previsão é que o conjunto de favelas receba quatro delas até o fim do primeiro trimestre de 2016. Entre os gastos previstos estão três novas Clínicas da Família e ampliação e construção de unidades educacionais, orçada em R$ 21 milhões. O projeto mais arrojado é o programa Fábrica de Escolas do Amanhã, com investimentos estimados em R$ 236 milhões para a construção de um campus educacional com oito escolas.
Entidades que atuam na região reclamam que a solução que vem sendo dada para a violência na Maré prioriza ações policiais, em detrimento das sociais. Para Eduardo Alves, um dos coordenadores da ONG Observatório de Favelas, “há a hegemonia de uma ação bélica nas soluções” encontradas pelo poder público para o complexo.
“Para a gente, o território de favela é um território de potência. É na favela, nas periferias, que, com pouco investimento, se inventa muita coisa. UPP não deveria ser unidade de polícia, deveria ser unidade de políticas públicas. Você não deveria começar um processo de mudança de um território com uma ação policial, uma ação bélica, uma ação ofensiva”, disse ele.
Para o professor Miguel Borba de Sá, do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e especialista em estratégias militares, desde a década de 80 do século passado “a única solução dos diferentes governos tem sido mais militarização, mais violência, mais recursos (para a Polícia)”. “É o aumento da militarização em uma região já muito militarizada e conflagrada que vai resolver o problema?”, pergunta.
Já a Força de Pacificação, ao encerrar suas atividades no conjunto de favelas, divulgou uma nota afirmando que a ocupação conseguiu reduzir a taxa anual de homicídios na área de 21,29 mortes por 100 mil habitantes para 5,33 mortes por 100 mil. “As ações das tropas federais foram pautadas pelos princípios da proporcionalidade e uso gradual da força (…) buscando evitar danos colaterais à população local”, diz o texto.
ESTADÃO/montedo.com

19 de agosto de 2012

Tráfico não foi o único inimigo durante ocupações do Exército nas favelas

Prestes estes a ser lançado, livro de relações-públicas do Exército conta detalhes da pacificação do complexo, como surtos que abateram soldados

CHRISTINA NASCIMENTO
Foto: Ernesto Carriço / Agência O Dia
Exército entra nos complexos | Foto: Ernesto Carriço / Agência O Dia
Rio - Por pouco a atuação do Exército nos complexos do Alemão e da Penha não sofreu um baque desastroso para uma missão de ‘guerra’ durante os primeiros meses de ocupação.
Dois surtos, um de hepatite A e outro de dengue, deixaram parte da tropa doente e foi preciso repensar a logística de higiene no alojamento e na rotina nas comunidades.
A história faz parte de bastidores que pela primeira vez são contados sobre a ocupação dos militares nos conjuntos de favelas considerados o entreposto do tráfico no Rio.
Por quatro meses, o assessor de imprensa do Comando Militar do Leste (CML), coronel Carlos Alberto de Lima, 62 anos, fez pesquisa, que reuniu relatos, leitura de correspondências trocadas entre governo do Estado e o Ministério da Defesa no momento de crise — quando a cidade vivia o inferno de ataques incendiários de traficantes — , e esmiuçou relatórios da inteligência da corporação.
O resultado é o livro ‘Os 583 dias da pacificação dos Complexos da Penha e do Alemão’, de 164 páginas.A obra reproduz os ofícios que vieram de Brasília e os que tinham os pedidos do governador Sérgio Cabral para a ajuda no Rio.
E traz uma cronologia que mostra que o cerco ao Alemão se fez 12 horas após o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizar a participação do Exército.
As estratégias dos militares, como fazer parceria com lideranças religiosas das comunidades para conseguir persuadir os eventos patrocinados por eles, aparecem no livro como ações que deram certo.
A percepção deles era tão minuciosa que traçaram o perfil dos moradores: enquanto no Alemão, as pessoas eram mais receptivas, dispostas a colaborar; os da Penha permaneciam retraídos, eram ríspidos e, em alguns casos, tinham admiração pelos bandidos.

- Detalhes
Ministro Jobim
No processo de elaboração dos documentos da Força de Pacificação, o então ministro Nelson Jobim sentou várias vezes na frente do computador para fazer, ele mesmo, modificações e sugestões necessárias, em virtude da urgência e pela sua experiência na área jurídica como ex-ministro do Superior Tribunal Militar.

Confusão em visita
Durante a visita do Príncipe Harry, membro da realeza britânica, os bandidos organizaram ações (tiros, garrafadas, pauladas, turbas, etc...) em seis pontos na Vila Cruzeiro. As confusões ocorreram num intervalo de 50 minutos.
Esse tipo de ocorrência no horário em questão não havia sido registrada durante a operação.

Lâmpadas do tráfico
Os ‘olheiros’ do tráfico faziam revezamento de 12 horas. Os militares conseguiram identificar gestos manuais que eles faziam para avisar sobre a presença da tropa em becos e vielas, por exemplo.
A iluminação pública também foi usada para dar o alerta aos marginais. Eles piscavam luzes ou apagavam. Conseguiam fazer isso porque havia ligação clandestina no sistema.

Malhação e religião
Para que a tropa ficasse motivada, foi montada academia de musculação na base, que ficou na antiga fábrica da Coca-Cola, para que pudessem malhar antes e depois do patrulhamento.
Outra estratégia foi oferecer equipe de assistência religiosa (com todos os segmentos) para conforto espiritual. Foi paga indenização para os militares que participaram da ocupação. O valor correspondia a 2% do soldo por dia trabalhado.

Óbito por leptospirose
Em 7 de fevereiro de 2011, soldado, do 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista (8° GAC Pqdt), morreu vítima de leptospirose. A principal suspeita é de que ele tenha sido contaminado nas favelas.

Tráfico e milícia
Levantamento dos militares estimou que haja cerca de 500 traficantes. Com a saída de vários bandidos da região, foram verificados indícios de disputa pelo domínio, por parte de milícias, de regiões antes ocupadas pelo tráfico.
“Aquilo lá era totalmente insalubre”
Carlos Alberto de Lima Assessor de imprensa do CM
Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
Coronel Carlos Alberto de Lima dedicou quatro meses à pesquisa | Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
1. O que mais chamou a atenção do senhor?
Foi o recebimento da ordem de cerco do Complexo do Alemão, no dia 26 de novembro de 2010. A Brigada Paraquedista, com a Força Tarefa, ocupou os entornos dos complexos da Penha e do Alemão em 12 horas, sem reconhecimento e sem preparo específico.

2. Quando começaram os ataques do tráfico, antes da tomada do Alemão, o Exército se precaveu com receio de ações contra a tropa. Como foi?
Dia 20, começaram os ataques, incêndios a carros e ônibus e o CML tinha que tomar precauções. Um: ficar preparado para se fosse chamado. Dois: proteger os nossos quartéis e a tropa.
Como tínhamos preparação para os 5º Jogos Mundiais Militares, e havia muito deslocamento na Av. Brasil, onde estavam acontecendo os ataques, o CML deixou a Brigada Paraquedista e 9ª Brigada de Infantaria de prontidão. Alguns trechos da Av. Brasil foram mobiliados com tropa para proteger as viaturas e os militares.
Quando o governo invadiu a Vila Cruzeiro e viu que a coisa era mais séria do que esperado, aí se pensou: vamos invadir o Complexo do Alemão, o que não estava previsto. Então, pediu ajuda ao Exército.

3.Em que situação, inicialmente, estava a base onde os militares ficaram alojados?
Aquilo lá era totalmente insalubre. O próprio Exército começou a trabalhar com material de engenharia e depois o governo entrou para fazer a base fixa da pacificação.

4. Quer dizer que havia baratas, ratos...?
Pela narrativa da pesquisa tinha de tudo... Muito lixo... O início da operação era um cenário de guerra: não havia instalações fixas nem água no local, a cozinha era totalmente improvisada.

5. O militar que morreu de leptospirose pode ter se contaminado lá?
Muito provável, porque o óbito veio depois que ele estava atuando.
O Dia Online/montedo.com

25 de julho de 2012

Ataques ao Exército no Alemão eram frequentes, mas reativos e não planejados

Hostilidade dos moradores aos militares era maior no Complexo da Penha, não na área do atentado que matou PM, Nova Brasília. 
Força de Pacificação foi alvejada por ao menos 22 tiros de fuzil e 114 de pistola ou revólver só neste ano

Raphael Gomide
Embora em menor intensidade, os ataques do tráfico às forças de pacificação, como o que matou a policial militar Fabiana Aparecida de Souza, não são novidade nos complexos do Alemão e da Penha. As tropas do Exército sofreram muitos atentados a tiros no período em que ficaram na região, entre dezembro de 2010 e o último dia 9.
Reprodução
Fabiana era policial havia um ano e trabalhava na UPP Nova Brasília
Há algumas diferenças táticas, porém, no atentado. Surpreendeu o fato de o ataque ter acontecido na favela Nova Brasília, no Complexo do Alemão, mais controlado e menos hostil que o vizinho, da Penha. Outro elemento novo foi o uso de muitos fuzis no atentado – um disque-denúncia recebido falou em 12 armas longas. Por último, o ataque deliberado e planejado, como o que matou a PM, era menos frequente que os tiros disparados por criminosos flagrados e em fuga.
A única ação planejada claramente identificado ocorreu no dia da visita do príncipe Harry ao local, quando foram alvejados por 40 disparos, simultaneamente, em dois lugares diferentes.

Início de 2012 concentrou maior número de disparos contra tropa
O começo deste ano foi o período em que os militares do Exército mais sofreram ataques. A área mais violenta era a Vila Cruzeiro. À época, o comandante da Força de Pacificação, general-de-brigada Tomás Miguel Miné Paiva, atribuiu o aumento da intensidade a uma reação à presença ostensiva em massa e ao sistema de patrulhamento ostensivo e em becos e vielas adotado.
Agência Estado
Policiais da UPP foram alvejados por traficantes na Nova Brasília
Apenas entre 26 de janeiro e 29 de março, os militares do Exército foram vítimas de ao menos 22 tiros de fuzil, 114 de pistola ou revólver, além de 37 rojões ou bombas e cerca de 70 pedras ou garrafadas. Houve ainda 42 “formações de turba” (protestos). Só em fevereiro, tinham sido 102 “ações hostis” – até então, o maior número havia sido registrado em fevereiro, 34, e a média mensal era de 15 casos.
Como resposta, o Exército disparou 42 tiros de advertências (para o alto) de fuzil, 16 de pistola e 400 de espingarda calibre 12 e 32 granadas de luz e som.
Segundo o general Tomás, ataques à tropa eram frequentes nos complexos da Penha e do Alemão
Marcelo Piu/ Agência O Globo
Segundo o general Tomás, ataques à tropa eram 
frequentes nos complexos da Penha e do Alemão
Para o general Tomás, definiu como de “grande hostilidade” a ação dos moradores dos complexos da Penha e do Alemão em relação à tropa. Subcomandante do Batalhão do Brasil no Haiti, em 2007, o oficial afirmou ao iG que o Alemão é muito “mais violento” e a missão é mais “complexa” que a do Haiti. O general-de-brigada Carlos Sarmento, que o sucedeu, porém, afirmou ao assumir que “o Alemão continua um paraíso”.
Durante os 20 meses de ocupação do Exército, foram apreendidos 12 fuzis (além de réplicas) do total de 38 armas obtidas, segundo balanço oficial da Força. Também foram arrecadados 2879 projéteis (sendo a metade, 1435, de fuzil), 76 quilos de cocaína e 60 quilos de maconha. Os militares prenderam 263 e detiveram 470.
Durante o primeiro momento de operação de tomada dos complexos, no fim de novembro e início de dezembro de 2010, as forças de segurança apreenderam 466 armas, sendo 140 fuzis.
Policiais e militares do Exército, porém, sempre admitiram que devia haver ainda grande quantidade de armas escondida ou que conseguira ter sido levada para fora das comunidades.
iG/montedo.com

12 de julho de 2012

Exército divulga balanço final da ocupação no Alemão e na Penha

Desde dezembro de 2010, foram 38 armas apreendidas, 263 pessoas presas e outras 470 detidas. Setenta quilos de cocaína e outros 60 de maconha foram recolhidos pelas tropas da Força de Pacificação, que encerraram trabalho na última segunda-feira

Mario Hugo Monken iG Rio de Janeiro | 10/07/2012 16:45:41 - Atualizada às 10/07/2012 16:58:28
Fernando Quevedo / Agência O Globo - Militares da Força de Pacificação do Exército no Complexo do Alemão
Um dia após as tropas da Força de Pacificação do Exército encerrarem a ocupação nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, o Comando Militar do Leste (CML) informou ao iG nesta terça-feira (10) o balanço da atuação dos militares nas comunidades desde o início dos trabalhos, em dezembro de 2010.
De acordo com o CML, os militares apreenderam 38 armas, sendo 12 fuzis. O número de munições recolhidas chegou a 2.879, sendo 864 de fuzil 762 mm, 571 de fuzil 556 mm, 902 de pistola nove milímetros e outras 542 de outros calibres.
Em relação à quantidade de drogas, as tropas da Força de Pacificação recolheram 76 kg de cocaína, 60 kg de maconha, 13 kg de crack e 17,5 Kg de haxixe.
O Exército prendeu ao longo da ocupação 263 pessoas e deteve outras 470, segundo informações do CML. Muitas das prisões ou detenções ocorreram em razão de desacatos ou resistência aos militares.
O CML informou tambem que apreendeu nos dois complexos cerca de US$ 30 mil e R$ 101.032,55.
O número de automóveis apreendidos chegou a 302. Já o de motocicletas, foi de 197.
O Exército informou que realizou no período da ocupação, 57.789 patrulhamentos motorizados e outros 68.213 a pé.
No quesito disciplinar, o CML informou que apenas um militar que atuou na Força de Pacificação responde a um processo na Justiça Militar por furto.
O caso envolve o primeiro-tenente do Exército Luiz Octávio de Goes Freitas, de 28 anos. Ele foi acusado de furtar uma chopeira, de R$ 7,5 mil, e dois aparelhos de ar-condicionado, de R$ 1,2 mil e R$ 1,5 mil, da casa de um traficante e de uma família do Complexo do Alemão.
Um fuzil que pertencia à Força de Pacificação foi subtraído no ano passado. O inquérito sobre o caso tramita na 4ª Auditoria do Ministério Público Militar no Rio de Janeiro mas sem indiciados ainda.
As tropas do Exército foram substituídas por policiais militares no Alemão e na Penha. Esses PMs iniciaram uma nova ocupação para a implantação de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). nas comunidades.
iG/montedo.com

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