Mostrando postagens com marcador indígenas nas Forças Armadas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador indígenas nas Forças Armadas. Mostrar todas as postagens

17 de agosto de 2012

Indígenas ajudam Exército a defender fronteira do Brasil

Pelotão Especial de Fronteira de São Joaquim é a base militar mais remota da Amazônia brasileira. Foto: Exército Brasileiro/BBC Brasil
Pelotão Especial de Fronteira de São Joaquim é a base militar mais remota da Amazônia brasileira
Foto: Exército Brasileiro/BBC Brasil
LUIS KAWAGUTI (BBC Brasil)

Situado na fronteira do Brasil com a Colômbia, o Pelotão Especial de Fronteira de São Joaquim é a base militar mais remota da Amazônia brasileira. Suas trincheiras e casas vermelhas de madeira ficam separadas de uma aldeia de índios Kuripaco por uma cerca e uma pista de pouso de 1.200 m, raramente usada pela Força Aérea.
Grande parte dos 100 militares que trabalham no pelotão é de origem indígena. Eles são o exemplo de uma tendência adotada pelo Exército brasileiro: contratar índios para defender e patrulhar a floresta amazônica.
Os indígenas atualmente representam cerca de 70% dos 1.400 militares da 2ª Brigada de Infantaria de Selva, que agrupa sete bases avançadas nas fronteiras com a Colômbia e a Venezuela, além de um complexo militar na maior cidade do extremo norte do Amazonas: São Gabriel da Cachoeira, de 38 mil habitantes.
Eles são recrutados entre os cerca de 30 mil índios de 14 etnias que habitam a região do alto rio Negro. São Joaquim, uma dessas sete bases avançadas, está situada a 326 quilômetros de São Gabriel da Cachoeira e a 90 quilômetros do vilarejo colombiano de Mitú, ambos embrenhados na floresta equatorial.
Essas distâncias ficam ainda maiores quando se leva em conta que o deslocamento na região é feito majoritariamente pelos rios, pois não há estradas e não é possível andar longas distâncias pela selva fechada.
A viagem de barco dura em média quatro dias. Ela é realizada em pequenas embarcações equipadas com motores de 40hp conhecidas como "voadeiras" - que precisam ser carregadas nas costas nos sete trechos em que o rio forma cachoeiras maiores.
O pelotão foi instalado em 1988 para defender o rio Içana, que nasce na Colômbia e deságua no rio Negro, no Brasil, funcionando como uma via de ligação fluvial - não muito utilizada - entre os dois países.
Ele não passa de uma pequena vila militar com algumas fortificações e um posto de saúde atendido por um médico, um farmacêutico e um dentista. Não há telefone, apenas estações de rádio.

Dialetos
Apesar da existência de uma pista de pouso na localidade, os voos da Força Aérea que abastecem o pelotão com equipamentos e comida não são frequentes. Por vezes, o aeródromo fica mais de um mês sem receber voos.
Isso significa que quando o clima instável da região não permite o pouso do avião, os militares que moram na base ficam sem comida. Uma solução é fazer o trajeto de barco de quatro dias.
Mas, o mais comum é o recurso a um sistema de trocas de combustível por alimentos com os cerca de 8.000 índios das 46 aldeias Kuripaco e Baniwa situadas ao longo do rio Içana. Na hora de negociações como essa, a presença do militar indígena é fundamental, segundo o Exército.
"Às vezes a comunidade ajuda com o transporte dos materiais. Às vezes trocam coisas com o pelotão, como peixe e farinha (de mandioca) por gasolina para gerador e para as rabetas (motores de popa)", disse o soldado Edgar Alves Cardoso, de 24 anos, militar da etnia Pira-tapuya, que trabalha no pelotão e vive com a mulher, uma índia Kuripaco, na aldeia ao lado da base.
Segundo ele, em toda a região do alto rio Negro, cada aldeia fala um dialeto diferente, de acordo com a etnia de seus habitantes. Contudo, a maioria das populações ribeirinhas fala o "tukano", que funciona como uma espécie de língua comum. Os militares índios atuam então como tradutores e negociadores para seus oficiais.

Habilidades
Mas não é apenas a facilidade com os dialetos que torna os indígenas militares de alto valor para o Exército. "O militar de origem indígena tem muita facilidade para realizar as tarefas relacionadas à vida e ao combate no interior da selva, por estar completamente integrado nesse ambiente", afirmou o general Luiz Sérgio Goulart Duarte, comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva.
"São excelentes exploradores e guias; têm bastante experiência em pilotar embarcações, o que é uma característica essencial para quem navega no alto rio Negro, onde existem muitas corredeiras e bancos de areia", disse o general.
"Os indígenas conhecem os lugares por onde passar a voadeira nas cachoeiras. Sabem onde são as comunidades (indígenas), quantas pessoas moram lá, suas crenças. Têm conhecimento de plantas medicinais e podem dar amparo a qualquer ferimento que aconteça nas missões", disse o soldado Cardoso.
As técnicas indígenas de sobrevivência e combate na selva - herdadas de comunidades nativas da Amazônia e que incluem desde a obtenção de alimento a técnicas de acampamento, natação e localização- não são usadas apenas no dia-a-dia das bases militares de fronteira. Foram incorporadas pelo Exército e hoje são ensinadas nos cursos do CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva).
A unidade, sediada em Manaus, forma militares de elite do Exército e se tornou referência internacional em técnicas de combate em ambiente de floresta.
Terra/montedo.com

Prestígio e dinheiro atraem índios para a carreira militar

LUIS KAWAGUTI (BBC Brasil)
Foto: Ricardo Stuckert
O emprego do índio Edgar Alves Cardoso, de 24 anos, membro da etnia Pira-tapuya, é defender o rio Içana, um afluente do alto rio Negro, no extremo da fronteira de selva do Brasil com a Colômbia.
Ele nasceu em Yauaretê, vila próxima a São Gabriel da Cachoeira, a principal cidade do extremo norte do Estado do Amazonas, com 38 mil habitantes, e se alistou no Exército como soldado em 1º de março de 2008.
Hoje ele vive com a mulher, também indígena, da etnia Kuripaco, na aldeia da família dela em São Joaquim, a 326 quilômetros ao norte de sua terra natal.
Cardoso trabalha em uma base vizinha à aldeia, o Pelotão Especial de Fronteira de São Joaquim - a unidade militar brasileira mais isolada da selva amazônica. A pequena vila militar não tem telefone e fica a quatro dias de barco de São Gabriel da Cachoeira.
Sua história representa uma opção social bastante cobiçada por indígenas das 14 etnias que habitam a região do alto rio Negro, no Amazonas: entrar para o Exército.
O emprego militar não só é uma boa fonte de renda como dá um certo prestígio social ao indígena em sua comunidade. "É muito comum ao indígena, ao final do tempo de serviço militar, retornar como uma liderança natural em sua comunidade", disse o general Luiz Sérgio Goulart Duarte, comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva.
Hoje, dos cerca de 1.400 militares que defendem a fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela, 70% são indígenas, segundo Duarte. Os maiores centros de recrutamento são as cidades de São Gabriel da Cachoeira, Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro.

Técnicas indígenas
No Pelotão Especial de Fronteira, a cultura e as habilidades de sobrevivência dos povos nativos do alto Rio Negro são um diferencial entre os "militares índios" e oficiais e praças nascidos em outras regiões do país.
Cardoso costuma até dar "aulas particulares" para oficiais recém chegados à região. O aluno mais recente foi um tenente interessado em aprender a nadar em rios da Amazônia.
"Nadar no rio é muito diferente de nadar em piscina. Ele nem sabia nadar, era igual a uma pedra. Ele combinava uns horários comigo e a gente treinava as técnicas. Natação, flutuação e nado submerso".
O nado dos indígenas - parecido com o nado de peito, mas sem afundar a cabeça na água - foi uma das técnicas incorporadas pelo Exército para operações de combate na selva.
"O tenente perguntou se podíamos treinar na chuva e a gente treinava na chuva. Ensinei a ele que, quando o rio estava cheio, ele podia se segurar nos galhos das árvores que estavam encostando na água", disse.
Cardoso se diz orgulhoso do "aluno". Após uma temporada em São Joaquim, ele conseguiu passar e se formar no curso do Centro de Instrução de Guerra na Selva - um dos mais duros treinamentos para formar militares de elite no país e também reconhecido internacionalmente.
Contudo, segundo Cardoso, o conhecimento indígena não fica apenas na teoria. Em um episódio recente, ele participava como operador de rádio em uma patrulha de reconhecimento de fronteira no rio Aiari. Seu grupo de militares não conseguiu retornar no prazo de oito dias à base e ficou sem comida.
"O suprimento (de alimentos) acabou e a gente teve que se virar. Veio à minha mente que tinha frutas na mata. Eu e um sargento fomos procurar. Algumas frutas não são comestíveis e eu ajudei o sargento a pegar as comestíveis", afirmou.

Carreira
Contudo, apesar da grande contribuição dos índios ao Exército, a maioria não consegue chegar ao oficialato e permanece em patentes mais baixas. Não há, por exemplo, oficiais generais puramente indígenas - embora alguns descendentes de índios tenham conseguido chegar a essa patente.
Segundo Duarte, a dificuldade de ascensão do índio na hierarquia do Exército está relacionada ao fato dos concursos públicos para oficiais e sargentos não fazerem distinção entre índios e não índios. Como grande parte dos indígenas ainda enfrenta deficiências na formação educacional tradicional, poucos têm acesso às escolas de formação militar.
Terra/montedo.com

Arquivo do blog

Compartilhar no WhatsApp
Real Time Web Analytics