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11 de maio de 2015

Exército celebra Osório na Festa Nacional da Cavalaria

Centenas de militares participam da Festa Nacional da Cavalaria
Cavalos, viaturas e um helicóptero estiveram envolvidos no evento em Tramandaí
Helicóptero participou das ações | Foto: Mauro Schaefer
Tropa encenou carga de Cavalaria (Foto: Mauro Schaefer/CP)
Jézica Bruno
Para garantir que a história do patrono da Arma de Cavalaria Marechal Manoel Luis Osório não seja esquecida, a Festa Nacional da Cavalaria foi realizada no sábado, no parque que ganhou o nome do patrono, em Tramandaí, no Litoral Norte. Mais de 300 militares, 100 cavalos, 25 viaturas e um helicóptero estiveram envolvidos nas homenagens do dia que antecede o nascimento do marechal, 10 de maio, há 207 anos presente na história do Exército Brasileiro.
Aproximadamente três mil pessoas participaram do evento que foi organizado pelo Comando Militar do Sul, por intermédio do 3º Regimento de Cavalaria de Guarda (3ºRCG) - Regimento Osório, de Porto Alegre. Na frente da casa onde o marechal nasceu, na Fazenda Conceição do Arroio, localizada dentro do parque, a história do líder foi encenada com guerreiros vestidos com o uniforme histórico e que carregavam a lança e a coragem do homem que marcou a história da Cavalaria no país.
Aproximadamente três mil pessoas participaram do evento | Foto: Mauro Schaefer
Três mil pessoas assistiram ao evento (Foto: Mauro Schaefer/CP)
No lombo dos cavalos eles reproduziram as batalhas com gestos, cores e também com os sons emitidos pelos canhões de guerra. “O Marechal Osorio foi um líder nato. Lutou ao lado dos soldados e foi bom não só para as tropas como para toda a população, por isso é tão importante que possamos recontar a sua história, parte da cultura do nosso país, e inspirar os jovens com um bom exemplo”, afirmou o comandante do 3ºRCG e presidente da Fundação Parque Histórico Marechal Manoel Luis Osório, o tenente-coronel Marcelo Goñes Sabbá de Alencar.
Cerca de 300 militares estiveram presentes | Foto: Mauro Schaefer
300 militares participaram da demonstração (Foto: Mauro Schaefer/CP)
Além de ser o palco da festa, o parque também foi o local escolhido por um grupo de reservistas que atuaram na Cavalaria e tiveram o exército como casa durante anos compartilhando as suas histórias. Para o reservista Rogério de Souza, que atuou como cabo armeiro e permaneceu no exército por nove anos, o dia serviu também para celebrar as amizades que, assim como a história do marechal, jamais foram deixadas para trás.
CORREIO do POVO/montedo.com

2 de setembro de 2012

Cara de pau: cartola do pentatlo moderno só quer o bônus. O ônus que fique para o Exército!

Entidade quer depender menos do Exército
Sargento Yane Marques, medalha de bronze no Pentatlo Moderno em Londres (Imagem: COB)
Para formar novas Yane Marques, a Confederação Brasileira de Pentatlo Moderno pretende tirar os atletas de dentro do Exército. Mas sem perder as facilidades e o dinheiro dado pelas Forças Armadas.
A intenção do presidente da CBPM, Hélio Meireles, é que o esporte tenha mais atletas civis para acabar com a dependência dos militares de carreira.
"Enquanto estão na academia, é ótimo, podem treinar sempre. Mas a disponibilidade do atleta militar vai diminuindo conforme ele sobe na carreira. Nosso melhor atleta não está competindo nesta temporada porque precisa fazer cursos", diz.
Dos 12 atletas adultos do ranking brasileiro, quatro seguem carreira militar.
Apesar da crítica aos atletas, Meireles admite que a confederação é dependente do Exército.
A CBPM usa estruturas miliares para treinos e competições. Também aluga do Exército, a um preço abaixo do mercado, cavalos para seus torneios.
E é graças a ele que o Brasil tem atletas profissionais. As três primeiras do ranking feminino, inclusive Yane, e o líder masculino ganham bolsas do Exército para disputarem campeonatos militares.
Folha de São Paulo/montedo.com

Comento:
Se entendi bem, o cartola da CBPM só quer mesmo o 'venha à nós'. 'Ao vosso reino', nadica de nada. Que cara de pau!

"Achei que ia morrer", diz major do Exército que cumpriu missão na Sìria

Testemunha de guerra
Natural de Porto Alegre, major do Exército vivenciou conflito na Síria por três meses
Major Leandro Santos da Costa, 42 anos, é um dos poucos brasileiros a integrar o grupo de observadores das Nações Unidas

Rodrigo Lopes
rodrigo.lopes@zerohora.com.br
Natural de Porto Alegre, major do Exército vivenciou conflito na Síria por três meses  Jean Schwarz/Agência RBS
Major tinha a missão de zelar pelo cumprimento do plano de paz traçado pela ONUFoto: Jean Schwarz / Agência RBS
Natural de Porto Alegre, o major do Exército Leandro Santos da Costa viu o que pouquíssimos ocidentais conseguiram testemunhar: durante três meses, ele vivenciou por dentro o conflito na Síria e seu cotidiano de carros-bombas, emboscadas e sequestros.
Palco do mais sangrento conflito da atualidade, a Síria é, mesmo depois de 17 meses de guerra, uma incógnita para o resto do mundo. Ao blindar suas fronteiras, impedindo o acesso de jornalistas internacionais, o regime de Bashar al-Assad transformou o território em área livre para matar. Com o uso de caças e artilharia, sufocou a revolta contra o seu governo nas cidades de Homs e Hama. E, como em qualquer guerra não há mocinhos, de combatentes da liberdade os opositores tornaram-se protagonistas de barbáries e violações aos direitos humanos. Até agora, 23 mil pessoas morreram, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos.
Os poucos relatos que se esvaem pelas frestas da ditadura, graças à internet, revelam um cotidiano de medo, explosões, chacinas, vítimas em hospitais. Esta é uma parte da história. Há uma outra face. Até na guerra existe rotina — as pessoas continuam, mesmo durante bombardeios, acordando, escovando os dentes, indo à escola. É o dia a dia de cidadãos comuns engolfados pela violência. Há ainda o trabalho de formiguinha de quem tentou, até o último minuto, buscar um diálogo que até agora fracassou.
Pelas raras informações no Ocidente sobre o que acontece na Síria é que o relato a seguir, do major Leandro Santos da Costa, 42 anos, torna-se exclusivo. O militar viveu, durante três meses, o conflito sírio por dentro. Viu o que quase ninguém fora do país conseguiu presenciar.
Natural de Porto Alegre, lotado na 6ª Divisão de Exército, Leandro é um dos poucos brasileiros a integrar o grupo de observadores das Nações Unidas, que tinha a missão de zelar pelo cumprimento do plano de paz traçado pelo ex-secretário-geral Kofi Annan. Com 22 anos de Exército, embarcou para a Síria em 9 de maio, dia do nascimento dos gêmeos Fillipe e Eduarda.
— Era a oportunidade de uma vida. Quando o gabinete do comandante do Exército me consultou se eu era voluntário, pedi 15 minutos para conversar com minha mulher. A Adriana entendeu e aceitou. Retornei a ligação e disse: "Tô pronto" — conta o major, que deixou em Porto Alegre, além da mulher e dos bebês, o filho mais velho, Matheus, de nove anos.

Salvos graças aos veículos blindados
Diferentemente das tropas de manutenção da paz — como as que o Brasil conserva no Haiti —, os observadores, como Leandro, não usam armas. São uma espécie de juiz, devem ser neutros, verificar, com isenção, ataques dos dois lados e relatá-los ao comando. O fato de estar desarmado em um país como a Síria é um risco a mais. Certo dia, seu comboio foi surpreendido por uma emboscada no caminho de Al-Jaffa, possivelmente executada por apoiadores do regime. Os observadores só se salvaram graças à blindagem dos carros. Em outra tarde, o grupo foi sequestrado por opositores que queriam obrigar os militares a ver os feridos de um bombardeio em um hospital.
As tropas do governo deveriam garantir a segurança do grupo, mas não controlavam sequer todo o seu território. Ao mesmo tempo, a presença deles ao lado dos capacetes-azuis tirava a qualidade que a ONU mais preza: a independência.
A complexidade do conflito e as sucessivas violações pelos dois lados contribuíram para, no dia 2 de agosto, Kofi Annan, impotente, demitir-se do cargo de enviado da ONU. Sua saída deu origem a uma nova onda de questionamentos sobre o papel das Nações Unidas na resolução de conflitos. Apesar do fracasso da comunidade internacional em conter o banho de sangue, Leandro diz não estar frustrado:
— A minha missão foi muito clara: monitorar o plano de Annan. E eu monitorei. Nenhum dos dois lados estava respeitando-o.

O desembarque em Damasco
"Cheguei lá no dia 10, todos os observadores foram para Damasco e, de lá, seguimos para os respectivos team sites (times locais). Não tínhamos funções específicas: um dia tu poderias ser motorista, no outro, fotógrafo, chefe de patrulha, dependendo da escala. Saíamos sempre em, no mínimo, duas viaturas. No início, a situação estava mais complicada em Homs e Hama. Também houve duas semanas em que Damasco ficou complicada. Quando acontecia um atentado a bomba, alguns tiroteios, havia uma denúncia, e a gente ia investigar. Chegava ao local, colhia dados com a população, às vezes, precisávamos de um especialista em explosivos. Em todas as missões, contávamos com um intérprete — um militar de Egito, Marrocos, Mauritânia — para facilitar o contato com a população. Éramos sempre escoltados pelo governo."

A rotina na capital
"Por ser capital, a presença do governo é muito forte em Damasco. Senti que a população apoia muito o regime. É diferente de outras localidades, como Aleppo (segunda maior cidade). No início, quem estava em Damasco não sentia que o país estava em guerra. A cidade tem shoppings, tudo funciona normalmente. Mas, depois de um tempo, começaram os conflitos bem próximos ao nosso hotel. Escutávamos diariamente o som de explosivos e de tiroteios. A vida do comércio continuou normal. Acho que a população assimilou aquela situação."

O primeiro contato com a violência
"Foi em Al-Jaffa. Havia uma denúncia de bombardeio por parte do governo na cidade. Estávamos tentando chegar lá para verificar. Em uma estrada, a população cortou a frente do nosso comboio, com crianças e mulheres. A retaguarda foi fechada com um caminhão de gás. Quando houve o bloqueio, eu logo senti que teríamos problemas. O líder da patrulha falou: "Volta, volta!" Naquele meio, eram tiros, paus, pedaços de ferro, pedras. Entre a população, não havia como distinguir se eram militares ou não. Só pensávamos em tentar sair dali. Vários carros foram atingidos por balas. Todas as viaturas são blindadas. Eu era o motorista de uma delas, a terceira no comboio. Consegui ir para fora da estrada, todas as viaturas conseguiram romper o cerco. Um dos nossos homens ficou ferido. Cada viatura foi para uma direção diferente. Abortamos aquela missão, acho que não havia interesse em que a ONU chegasse naquele momento a Al-Jaffa. Quem fez esse bloqueio, a oposição ou o governo? Provavelmente o governo... Nós estávamos sendo escoltados pelo governo. E eles não foram atacados."

Independência e liberdade de atuação
"O governo tinha de nos dar segurança. Entendo que segurança é 24 horas. Mas, em algumas localidades, eles não entravam. Então íamos sem segurança. Até Hama, o governo entra. Entre Hama e Aleppo, perto de Idlib, existe uma faixa de uns 20 quilômetros que a oposição havia tomado. Havia pontos de checagem do governo e, depois, da oposição. Homs está nas mãos do governo. Quando a gente colhia o depoimento da população, as pessoas viam que éramos escoltados pelo governo. Isso intimidava. Não é o ideal. Nossa patrulha era acompanhada de duas viaturas civis, com homens do governo à paisana, armados. Isso intimida a população."

O sequestro
"O nosso chefe do estado-maior queria chegar a Aleppo, onde a situação estava bastante complicada. Queríamos ir até lá para verificar. Tentamos ir pelo litoral, por Tartus, mas não conseguimos. Em um dos últimos postos de checagem do governo, os militares disseram que não garantiriam nossa segurança a partir dali, uma área montanhosa. Decidimos seguir sem escolta do governo. Logo, identificamos cabos de aço na estrada para bloquear o acesso de viaturas. Retornamos para Homs, quase 300 quilômetros. De lá, tentamos seguir por outro caminho. De repente, opositores pararam nossas viaturas: estavam com fuzis AK-47 apontados para nós. Eles nos levaram até uma espécie de posto de comando da oposição, deram-nos água e nos conduziram até um hospital. Queriam que víssemos os feridos. Passamos a noite em uma barraca. Não houve ameaça. Mas obrigaram a gente a dormir ali, com tapetes árabes no chão. Não consegui pegar no sono. Foi das 6h da tarde até as 10h da manhã do dia seguinte. Ninguém dormiu. A gente não sabia qual seria a reação deles. Em nenhum momento, garantiram que seríamos liberados. Achei que ia morrer."

Violações aos direitos humanos
"Visitamos muitos hospitais, onde há muitas crianças. É uma guerra interna, tem população civil atingida, mulheres e crianças feridas. Normalmente, o ataque pesado é feito pelo governo. Mas também ocorrem alguns atentados a bomba realizados pela oposição."

Susto na saída
"Nós estávamos nos preparando para vir embora. Estávamos eu e outros brasileiros juntos (um coronel da Força Aérea e um capitão-de-corveta da Marinha) no hall do hotel Dedeman, em Damasco. O comboio sairia às 8h. Estávamos tranquilos, aguardando a saída, quando, de repente, veio a explosão. Foi bem na frente do hotel, do outro lado da rua: um carro-bomba. Cada um de nós correu para um lado. Vidros foram estilhaçados. Algumas pessoas foram atingidas. Fomos para o subsolo do prédio, uma área mais segura. Foi de lá que o comboio acabou saindo rumo à fronteira com o Líbano. Ao passarmos a fronteira, a sensação foi de alívio."

Frustração?
"Não, porque a minha missão foi muito clara: monitorar o plano de Kofi Annan, os seis pontos. A minha missão era essa. E eu monitorei. Não sei se a ONU saiu frustrada ao não obter a paz. A minha missão era verificar que o plano não foi implementado. Nenhum dos dois lados estava respeitando-o. Os lados envolvidos têm de cooperar, já que nós estávamos desarmados. O que está acontecendo lá é um reflexo da Primavera Árabe. Acho que, mais cedo ou mais tarde, vai haver uma mudança de governo."
ZERO HORA/montedo.com

26 de agosto de 2012

'Fomos cercados e recebidos a tiros', diz major do Exército que atuou na Síria

'Fomos cercados e recebidos a tiros', diz militar brasileiro que atuou na Síria
Major que chefiou equipe de monitores da ONU fala ao G1 sobre o conflito.
Militares foram alvo de tiros de fuzil e viram corpos decapitados pelas ruas.

Tahiane Stochero
O major Eduardo Bordeaux Mattos, de 38 anos, oficial do Exército brasileiro, foi convocado em maio desse ano para chefiar uma equipe da Organização das Nações Unidas (ONU) na Síria. A missão era monitorar o conflito nas ruas de Aleppo, cidade mais disputadas entre as forças rebeldes e as tropas fiéis ao governo do presidente Bashar al-Assad.
Fomos cercados e alvo de tiros várias vezes. [...] uma granada foi colocada sobre o vidro e explodiu o carro. Por sorte, conseguimos sair a tempo e ninguém ficou ferido" Eduardo Bordeaux Mattos, oficial do Exército brasileiro
'Fomos cercados e recebidos a tiros', diz militar brasileiro que atuou na Síria (Foto: Eduardo Bordeaux/Arquivo   pessoal)
Major brasileiro chefiou time de monitores da ONU
na Síria (Foto: Eduardo Bordeaux/Arquivo pessoal)
Em meio aos intensos confrontos, Mattos foi alvo de tiros e viu corpos decapitados. O militar voltou ao Brasil, na última sexta-feira (17), depois que o trabalho da ONU foi encerrado pelo Conselho de Segurança, devido ao fracasso em conter a violência na região.
"Fomos cercados e alvo de tiros várias vezes. Durante protestos, milhares de pessoas tentaram virar os veículos blindados da ONU, que pesam mais de cinco toneladas. Em certa ocasião, uma granada foi colocada sobre o vidro e explodiu o carro. Por sorte, conseguimos sair a tempo e ninguém ficou ferido", diz Mattos, em entrevista exclusiva ao G1.
Apesar dos ataques, o oficial brasileiro e os demais monitores da ONU não puderam usar armas para se defender. Não portar armamentos foi uma das exigências do governo sírio e de outros países para o envio da missão de observadores, em maio deste ano, quando os dois lados do conflito concordaram em negociar um fim para a guerra civil no país.
A atuação da imprensa na região é limitada. Apesar de não haver números oficiais, a oposição síria diz que o conflito já deixou mais de 24 mil mortos, a maioria composta de civis. O conflito, iniciado em março de 2011 depois que o governo reprimiu violentamente protestos por mais democracia no país, já chegou à capital Damasco (veja o infográfico no fim da reportagem).
Além do major, outros 10 oficiais das Forças Armadas brasileiras foram enviados à Síria. Todos retornaram ao Brasil na última semana. "A situação é muito complicada. Qualquer um dos lados que decidir entrar com mão pesada para tentar vencer vai matar muita gente. Se o Ocidente der apoio à oposição, os combates irão aumentar e quem vai sofrer é a população. O mesmo ocorrerá do outro lado, se Assad mandar bombardear comunidades habitadas", diz Mattos.
O militar, que está de volta ao trabalho na Brigada de Infantaria de Selva, em Boa Vista (RR), onde atuava antes da convocação, fala que “o povo sírio diz não apoiar nenhum dos lados" do conflito. "Eles afirmam que só querem que tudo volte à normalidade, desejam a paz para o país", relata.
Segundo o major, antes de cada patrulha, o time da ONU fazia contatos com ambos os lados, informando previamente itinerários, para evitar emboscadas. E, em alguns casos, recebeu alerta de que o acesso não seria permitido ou que era "arriscado" entrar em alguma área.
"Nossa missão era relatar abusos dos dois lados. E não interferir no que ocorria. Tínhamos acesso a áreas dos rebeldes e do governo, ouvíamos a população e os combatentes dos dois lados. Se havia abuso, detenções arbitrárias, excessos contra a população, relatávamos. Nossa função não era imparcial, mas neutra", diz. "E, no início (da missão), os dois lados respeitavam isso".
"A oposição é fragmentada e isso dificultava as conversas. Eles afirmavam sempre que não queriam papo, que não queriam negociar, que a única saída que buscam é a saída do Assad", afirma o major, citando conversas com rebeldes.

Sem pânico
O oficial brasileiro relata momentos tensos vividos durante os protestos e diz que é importante manter o controle mesmo nas situações mais difíceis. "A blindagem [do carro da ONU] segura até disparo de fuzil de calibre 7.62 mm. Mas quando você é alvejado, não sabe se o tiro passou, se o pneu furou, se tem condições de seguir. Você não pode entrar em pânico", afirma Mattos.
Ele diz que se perguntava "o que posso fazer para sair daqui o mais rápido possível?" durante os ataques. "Cheguei a ver pessoas, supostamente rebeldes, atirando em nosso comboio durante uma patrulha. Os tiros, tanto na área da oposição quanto na do governo, eram sempre direcionados aos veículos da ONU. Nenhum observador foi alvo quando estava fora do carro", recorda.
[...] encontramos cinco homens degolados, e a oposição disse que eram policiais. Mas não havia como confirmar a informação"Eduardo Bordeaux Mattos, major brasileiro na Síria
Quando vítimas eram encontradas mortas nas ruas, era difícil para a equipe verificar se os corpos eram de inocentes ou de combatentes. "Uma vez, encontramos cinco homens degolados, e a oposição disse que eram policiais. Mas não havia como confirmar a informação", exemplifica.

Ideologia terrorista
'Fomos cercados e recebidos a tiros', diz militar brasileiro que atuou na Síria (Foto: Eduardo Bordeaux/Arquivo pessoal)Mattos conversou com integrantes de grupos rebeldes que formam o Exército Sírio Livre, braço armado da oposição ao regime de Assad, e acredita ter percebido influência de organizações supostamente terroristas no pensamento de alguns integrantes.
As entrevistas eram sempre traduzidas por um militar da missão da ONU que falasse árabe. Em todos os times havia um, pois a contratação de tradutores locais não era autorizada. Já com a população, Mattos falava muitas vezes em inglês ou em francês.
"Pela conversa é possível identificar, entre os combatentes, quem é mais radical. Normalmente, os tomadores das decisões são os mais políticos. Quando precisávamos pedir aos rebeldes para não fazer nada em determinado dia naquela região, pois era necessário enviar ajuda ou fazer o recolhimento do lixo, pedíamos aos líderes que estavam abertos à negociação", lembra.
A identificação de que você estava em um território dominado por rebeldes vinha por meio de gritos de guerra - "Deus é grande", "Fora Assad" ou "Morte a Assad" - e também através de uma bandeira que é símbolo do Exército Sírio Livre.
Segundo o oficial brasileiro, há muitos “combatentes estrangeiros” que integram a oposição, que se diferenciavam da população síria pelo modo de vestir e de falar. Alguns confirmavam sua procedência de países africanos e do Oriente Médio. Generais sírios relataram também a agências internacionais que havia combatentes de outros países apoiando os rebeldes.
"Não sabemos onde estes estrangeiros são recrutados. Alguns países, como Turquia, Qatar e Arábia Saudita, oficialmente declararam apoio os rebeldes. Mas este ponto não estava dentro da nossa missão".
Outro fator que indicaria influência estrangeira são atentados suicidas, que "não fazem parte da cultura síria". "Era muito raro um suicida com bomba. O povo diz que um sírio não mata outro desta forma. Isso não é da história deles. Houve alguns ataques, inclusive um dentro do quartel-general de Assad, que matou o ministro da Defesa e alguns generais do alto comando. Em Aleppo, um atentado suicida em uma praça matou civis. São, para nós, indícios de que haveria extremistas passando ideologias aos rebeldes".
[...] tivemos que pedir aos rebeldes para não fazer nada em determinado dia porque era preciso recolher o lixo. A sujeira se amontoava nas ruas, havia risco de doençasEduardo Bordeaux Mattos

Luz, água, gás e comida racionados
Durante as patrulhas pelo interior do país, atravessando áreas dominadas pelo governo e pelos rebeldes, havia regularmente uma zona neutra. "Passávamos por um posto sob controle das Forças Armadas sírias e, mil metros adiante, por exemplo, havia uma barreira rebelde", diz o major brasileiro.
"Nosso trabalho era verificar se havia aumento da violência. Fazíamos perguntas para saber a impressão das pessoas nos bairros, visitávamos hospitais e questionávamos médicos se havia aumentado o número de feridos, entrávamos em presídios, para verificar a regularidade das detenções. Estávamos ali para ouvir os dois lados", explica o chefe da missão.
A ONU percebeu, ao longo do tempo, que a situação se deteriorava. "Em Damasco [capital da Síria] e nas grandes cidades, não se tem ideia do que ocorre no interior do país. Em áreas dominadas pelo governo, as pessoas tentam manter a vida normal. Mas nas áreas da oposição, começamos a ver o racionamento de comida e gás, cortes de luz e de água, filas enormes nos postos de combustíveis. Em Aleppo, os preços ficaram sete vezes maiores que o normal", recorda.
"Certa vez, tivemos que pedir aos rebeldes para não fazer nada em determinado dia porque era preciso recolher o lixo. A sujeira se amontoava nas ruas, havia risco de doenças, e não havia como fazer este trabalho com segurança".

Bandeira brasileira
O major conta que, nas ruas, crianças identificavam a bandeira brasileira destacada em sua farda. "Eles não conseguem ler a palavra Brasil, mas apontavam para o verde e amarelo estampado no braço. A criançada começa a falar em futebol, que gosta de brasileiro. O nosso jeitinho facilita o diálogo e a confiança com a população".
Ele pondera, no entanto, a influência dos atores internacional no terreno. "A população vê TV, sabe quando um país se manifesta contra e a favor de determinada parte do conflito. Certa vez, recebi uma ameaça velada de um rebelde que apontou para a bandeira no meu braço. Quando o embaixador sírio foi expulso do Marrocos, oficiais marroquinos que trabalhavam para a ONU não puderam sair à rua. A evolução dos fatos globalmente interfere na missão", garante Mattos.
arte síria v6 23 agosto (Foto: Arte/G1)
G1/montedo.com

18 de agosto de 2012

Rica, extensa e vulnerável, Amazônia é preocupação número 1 do Exército

Para generais, ONGs sem controle do Estado representam risco à região.
Acesso difícil deixa militares isolados e sem recurso em bases na fronteira.

Tahiane Stochero
exercito_infografico_versao13agosto_300 (Foto: Editoria de Arte/G1)
Com 11,2 mil quilômetros de fronteiras com sete países e área equivalente a 42% do território nacional, a Amazônia é a maior preocupação do Exército brasileiro. O medo, no entanto, não é de invasão estrangeira ou de guerra na área.

Para a alta cúpula militar, a maior ameaça está em organizações não governamentais (ONGs), que podem fomentar o separatismo, a venda ilegal de terras indígenas, a apropriação indevida de recursos da floresta por estrangeiros, além de impedir o desenvolvimento da região.
O G1 publica, ao longo da semana, uma série de reportagens sobre a situação do Exército brasileiro quatro anos após o lançamento da Estratégia Nacional de Defesa (END), decreto assinado pelo ex-presidente Lula que prevê o reequipamento das Forças Armadas. Foram ouvidos oficiais e praças das mais diversas patentes - da ativa e da reserva -, além de historiadores, professores e especialistas em segurança e defesa. O balanço mostra o que está previsto e o que já foi feito em relação a fronteiras, defesa cibernética, artilharia antiaérea, proteção da Amazônia, defesa de estruturas estratégicas, ações de segurança pública, desenvolvimento de mísseis, atuação em missões de paz, ações antiterrorismo, entre outros pontos considerados fundamentais pelos militares.
“Trabalhamos com riscos. Não necessariamente você precisa invadir a Amazônia para dominá-la. Há outras formas do Estado perder o controle. Consideramos que existem algumas ONGs dentro da Amazônia que são problemáticas; não temos o controle delas”, diz o general Walmir Almada Schneider Filho, do Estado-Maior do Exército.
“Se você precisa desenvolver a região e, de certa forma, alguém impede o seu acesso e a atuação de órgãos públicos nela, você está perdendo o controle. E há ainda a venda de grandes lotes de terras públicas a empresários de outros países. Já enfrentamos essas dificuldades”, exemplifica o general, que é responsável por monitorar situações que possam resultar em crises ou conflitos que atinjam o interesse nacional. Em 2008, cálculos da CPI das ONGs apontaram que mais de 350 grupos atuavam na região.
"Consideramos que existem algumas ONGs dentro da Amazônia que são problemáticas; não temos o controle delas"
General Walmir Almada Schneider Filho
Para o comandante das tropas na Amazônia, general Eduardo Villas-Boas, a ausência do Estado é a principal causa da região representar hoje a preocupação número 1 dos militares.
“Em pleno século 21, o país ainda tem quase metade do seu território não ocupado e não integrado à dinâmica nacional. Essa é uma tarefa histórica que temos ainda por terminar. A Amazônia abriga as respostas e soluções para os grandes problemas da humanidade: água potável, biodiversidade, recursos minerais. Ela não pode ser um grande vazio e nisso está a grande preocupação que temos em relação a ela”, afirma.
A Estratégia Nacional de Defesa (END), promulgada em 2008, colocou como ponto-chave para o país manter a soberania da floresta, relacionando o progresso com a manutenção do controle da Amazônia.
“O Brasil repudiará, pela prática de atos de desenvolvimento e de defesa, qualquer tentativa de tutela sobre as suas decisões a respeito de preservação, de desenvolvimento e de defesa da Amazônia. Não permitirá que organizações ou indivíduos sirvam de instrumentos para interesses estrangeiros - políticos ou econômicos - que queiram enfraquecer a soberania brasileira. Quem cuida da Amazônia brasileira, a serviço da humanidade e de si mesmo, é o Brasil”, diz o texto.
Nos anos 90, vários políticos estrangeiros defenderam que a mata deveria ser “internacionalizada". Em 1989, o então vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, afirmou que, “ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós”.
A mesma linha foi adotada pelos ex-líderes François Mitterrand, da França, e Mikail Gorbachev, da União Soviética, que afirmaram que o Brasil deveria aceitar uma “soberania relativa”.

Efetivo para defesa
O Exército divide o Brasil em sete grandes áreas. Apesar da Amazônia ser a maior em território (7 milhões de quilômetros quadrados), possui, proporcionalmente, o menor efetivo. Em 1950, eram apenas mil soldados. Hoje, são 27 mil homens responsáveis pela vigilância de um quinto das reservas de água doce e um terço das florestas do planeta. A biodiversidade da área vale mais de US$ 34 trilhões (R$ 70 trilhões) e compõe o maior banco genético da Terra, segundo documentos do Exército.
A divisa amazônica ainda é bastante permeável: são 21 pelotões especiais de fronteira (PEF) para defender 11,2 mil quilômetros ao longo de sete países vizinhos. Um grupo, com apenas 35 homens, é responsável por 1.385 quilômetros de divisa seca na tríplice fronteira com o Suriname e a Guiana Francesa. Um projeto pretende elevar o efetivo na região para 48 mil soldados e construir mais 28 bases até 2030.
Os gastos para a ampliação são altos. A construção de cada PEF custa entre R$ 20 milhões e R$ 34 milhões para garantir o principal – uma pista de pouso e algumas habitações para os militares.
Segundo o general Villas-Boas, a construção de novas bases está prevista no Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), um projeto revolucionário que pretende transmitir, em tempo real, tudo o que ocorre nas fronteiras. Para isso, serão usados radares, sensores infravermelhos, raio-x, som e luz, além de câmeras em aviões não tripulados,
O Sisfron ainda está em fase inicial. Em 2012, foi aberto processo licitatório. Os primeiros testes devem começar até o final do ano em Mato Grosso do Sul.
“Nós estamos onde o Estado não está. Onde erguemos um PEF, a população se aproxima, buscando energia, saúde, necessidades básicas”, diz o general Villas-Boas. “E essa capilaridade nos impõe responsabilidades”.
Nas bases afastadas, o Exército constrói um pavilhão que pode ser usado por outras organizações federais e estaduais que atuam com meio-ambiente, indígenas, saúde, policiamento. As construções, no entanto, ficam sempre abandonadas.
A falta de infraestrutura básica para a população faz os militares serem procurados pela população para solucionar quase todos os problemas.

“Eu vim falar com uma ginecologista. Não tem médico que cuida disso na cidade e nunca tive essa oportunidade antes”, diz a aposentada Raimunda Nonato, de 52 anos, enquanto pegava uma senha, em maio, durante uma ação social realizada por médicos do Exército em uma escola de Cleverlândia do Norte, no Oiapoque, fronteira do Amapá com a Guiana Francesa.

"Não permitirá que organizações ou indivíduos sirvam de instrumentos para interesses estrangeiros - políticos ou econômicos - que queiram enfraquecer a soberania brasileira.”
Trecho da Estratégia Nacional de Defesa
“Meu filho está doente, vomita há dias, não consegue comer. Trouxe para darem uma olhada. Se eu fosse para o SUS, teria que esperar dias para a consulta”, afirma a doméstica Ocileni Santos da Silva, de 20 anos, que carregava no colo o filho Ruani, que não parava de chorar.
Ao visitar um Pelotão Especial de Fronteira, em maio, o vice-presidente, Michel Temer, admitiu que a Amazônia é uma “casa abandonada”. “As fronteiras ficaram sem a presença do Estado ao longo do tempo. Vamos fazer reuniões para ocupá-las não só com militares, mas por meio das pessoas que já estão vivendo aqui e trazendo o Estado, com sua infraestrutura. Temos que estar presentes”, afirmou.

Perigos nas fronteiras
Além do vazio de poder e da instabilidade em países vizinhos, questões indígenas, ambientais e tráfico de drogas e armas estão entre as maiores preocupações do Exército. Na fronteira do Amazonas com Colômbia e Venezuela, por exemplo, a atuação de pelo menos três células das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs) é monitorada, em uma região conhecida como Cabeça do Cachorro. Militares ouvidos pelo G1 apontam que esses grupos apresentam entre 13 e 22 combatentes, mas que não representam risco.
O último grande ataque das Farc ao Brasil ocorreu em fevereiro de 1991, quando 40 guerrilheiros invadiram um pelotão baseado às margens do Rio Traíra, no Amazonas, matando três brasileiros, deixando outros 29 feridos e roubando uma grande quantidade de fuzis, metralhadoras e munições. O então presidente Fernando Collor autorizou uma retaliação: na Operação Traíra, militares mataram 21 integrantes das Farc, capturaram outros e recuperam parte das armas. A ação virou lenda entre os soldados que atuam na Amazônia e, desde então, dizem eles, as Farc “não se aventuram mais por aqui”.
Não tem como impedir que guerrilheiros das Farc entrem no Brasil vestidos de civis. [...] Mas ataques nunca mais fizeram. Não querem briga conosco”

Oficial de alta patente
“Não tem como impedir que guerrilheiros das Farc entrem no Brasil vestidos de civis. Eles passam desapercebidos pela fronteira, como pessoas normais, e chegam nas comunidades para comprar alimentos, coisas que precisam. Mas ataques nunca mais fizeram. Não querem briga conosco”, diz um oficial de alta patente, na condição de anonimato.

Garimpos ilegais
Ao norte da região, os garimpos ilegais são motivo de preocupação. “Mais de 30 mil garimpeiros estão do lado de lá da divisa com Suriname e Guiana. Do lado de cá, o número é menor. Estamos sempre monitorando e reprimindo”, explica o general Franklinberg Freitas, chefe de operações do Comando Militar da Amazônia. O Suriname é apontado como porta de saída da droga produzida na Colômbia para a Europa.
A região de Tiriós, na tríplice fronteira com Guiana e Suriname, começou a ser ocupada em 1985, após o início de um movimento de guerrilheiros. Em 2003, foi instalado na área um PEF.
A Força 3, tropa especializada do Exército na Amazônia, descobriu em junho pistas de pouso clandestinas usadas por garimpeiros em terras indígenas no Pará e no Amapá. Os índios relatam que foram amaçados e obrigados a cavar. A Força Aérea bombardeou algumas bases ilegais, mas nem todas puderam ser destruídas.

“Temos feito grandes operações conjuntas para reprimir esses crimes. O Exército dá apoio a agências e todos os órgãos com logística, comunicações, inteligência. Estamos trabalhando em conjunto com o Ibama na fiscalização e apreensão de madeiras. Em áreas violentas, eles precisam de segurança para chegar lá”, afirma o general Villas-Boas.

Outro foco de atenção é o Parque Nacional de Tucumaque, uma unidade de conservação em área montanhosa e de difícil acesso, entre o Amapá e a Guiana Francesa, onde indígenas denunciaram a atuação de ONGs europeias, garimpos clandestinos e tráfico de animais em extinção.

Faltam aeronaves e barcos
amazonia_oracao_placa_300 (Foto: Tahiane Stochero/G1)
O comando militar da Amazônia foi criado em 1948, mas a busca por maior permeabilidade só começou a partir da década de 2000, quando duas brigadas – uma do Rio Grande do Sul e outra do Rio de Janeiro – foram transferidas, inteiras, para a selva.

Entre os novos pelotões especiais de fronteira que serão erguidos, três serão em Rondônia, cinco em Roraima (um deles na reserva Raposa Serra do Sol), quatro no Amapá, três no Acre, seis no Amazonas, dois no Amapá e três no Pará.
O objetivo é usar, na maioria deles, soldados indígenas que conheçam a região e saibam a língua e os costumes da população local.
As guerrilhas utilizam muito os rios da floresta para seus deslocamentos. Uma das tarefas dos novos pelotões, instalados próximos aos cursos, será o monitoramento de embarcações que podem ser utilizadas para o tráfico. Em 2006, a Polícia Federal apreendeu no Rio Negro um barco carregado de remédios e munições, que haviam sido desviados do Brasil e que tinham como destino as Farc. Em 2010, dois investigadores da PF morreram em um tiroteio com homens armados em barcos no Rio Solimões, quando investigavam o tráfico de drogas.
O G1 visitou quatro pelotões de fronteira em Roraima, Pará e Amapá e conversou com os militares sobre as dificuldades enfrentadas, como energia por apenas 9 horas diárias, embarcações antigas e desagastadas, racionamento de alimentos e doenças (veja reportagem sobre fronteiras).
Cada pelotão de fronteira tem entre 40 e 60 homens, comandados por um tenente. A ideia inicial é que, antes de criar novas bases, dois destacamentos isolados no Acre e outro na divisa do estado com o Amazonas, cada um deles com menos de 20 homens, sejam transformados em PEF.
A principal dificuldade é a falta de recursos para levar e manter tropas e equipamentos em regiões distantes. Todos os generais ouvidos pelo G1 afirmam que o problema da Amazônia não é a falta de pessoas, mas de meios. Nas bases não há aeronaves. Os equipamentos de comunicação apresentam falhas. As embarcações e as armas possuem mais de 40 anos.
"Falta tudo para a população: educação, saneamento, saúde. Se não houver um esforço da sociedade para isso, nosso projeto não vai conseguir"
General Walmir Almada Schneider Filho
Os novos PEF que o Exército pretende construir servirão como pequenas “células de vigilância”, com a missão de monitorar e reagir imediatamente a qualquer ameaça. A intenção é que a distância entre cada base seja de, no máximo, 250 quilômetros.
“Não adianta ter só o soldado no PEF. Ele, sozinho, pode fazer sua parte, mas, sem a presença do Estado inteiro lá, não vai resolver o problema. Falta tudo para a população: educação, saneamento, saúde. Se não houver um esforço da sociedade para isso, nosso projeto não vai conseguir", diz o general Schneider.
"Os primeiros homens que desbravaram a Amazônia, como o militar português Pedro Teixeira, em 1600, tiveram uma dificuldade enorme para colonizá-la. Desde então as Forças Armadas se preocuparam com a defesa desse território e, até hoje, a quantidade de soldados é insignificante para cobrir a região. É necessário estarmos atentos em tempos de paz para termos condições efetivas de enfrentar qualquer perigo", defende o historiador militar e professor do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp, Roberto Cavanhari.
exercito_amazonia_base_620 (Foto: Tahiane Stochero/G1)
G1/montedo.com

17 de agosto de 2012

Indígenas ajudam Exército a defender fronteira do Brasil

Pelotão Especial de Fronteira de São Joaquim é a base militar mais remota da Amazônia brasileira. Foto: Exército Brasileiro/BBC Brasil
Pelotão Especial de Fronteira de São Joaquim é a base militar mais remota da Amazônia brasileira
Foto: Exército Brasileiro/BBC Brasil
LUIS KAWAGUTI (BBC Brasil)

Situado na fronteira do Brasil com a Colômbia, o Pelotão Especial de Fronteira de São Joaquim é a base militar mais remota da Amazônia brasileira. Suas trincheiras e casas vermelhas de madeira ficam separadas de uma aldeia de índios Kuripaco por uma cerca e uma pista de pouso de 1.200 m, raramente usada pela Força Aérea.
Grande parte dos 100 militares que trabalham no pelotão é de origem indígena. Eles são o exemplo de uma tendência adotada pelo Exército brasileiro: contratar índios para defender e patrulhar a floresta amazônica.
Os indígenas atualmente representam cerca de 70% dos 1.400 militares da 2ª Brigada de Infantaria de Selva, que agrupa sete bases avançadas nas fronteiras com a Colômbia e a Venezuela, além de um complexo militar na maior cidade do extremo norte do Amazonas: São Gabriel da Cachoeira, de 38 mil habitantes.
Eles são recrutados entre os cerca de 30 mil índios de 14 etnias que habitam a região do alto rio Negro. São Joaquim, uma dessas sete bases avançadas, está situada a 326 quilômetros de São Gabriel da Cachoeira e a 90 quilômetros do vilarejo colombiano de Mitú, ambos embrenhados na floresta equatorial.
Essas distâncias ficam ainda maiores quando se leva em conta que o deslocamento na região é feito majoritariamente pelos rios, pois não há estradas e não é possível andar longas distâncias pela selva fechada.
A viagem de barco dura em média quatro dias. Ela é realizada em pequenas embarcações equipadas com motores de 40hp conhecidas como "voadeiras" - que precisam ser carregadas nas costas nos sete trechos em que o rio forma cachoeiras maiores.
O pelotão foi instalado em 1988 para defender o rio Içana, que nasce na Colômbia e deságua no rio Negro, no Brasil, funcionando como uma via de ligação fluvial - não muito utilizada - entre os dois países.
Ele não passa de uma pequena vila militar com algumas fortificações e um posto de saúde atendido por um médico, um farmacêutico e um dentista. Não há telefone, apenas estações de rádio.

Dialetos
Apesar da existência de uma pista de pouso na localidade, os voos da Força Aérea que abastecem o pelotão com equipamentos e comida não são frequentes. Por vezes, o aeródromo fica mais de um mês sem receber voos.
Isso significa que quando o clima instável da região não permite o pouso do avião, os militares que moram na base ficam sem comida. Uma solução é fazer o trajeto de barco de quatro dias.
Mas, o mais comum é o recurso a um sistema de trocas de combustível por alimentos com os cerca de 8.000 índios das 46 aldeias Kuripaco e Baniwa situadas ao longo do rio Içana. Na hora de negociações como essa, a presença do militar indígena é fundamental, segundo o Exército.
"Às vezes a comunidade ajuda com o transporte dos materiais. Às vezes trocam coisas com o pelotão, como peixe e farinha (de mandioca) por gasolina para gerador e para as rabetas (motores de popa)", disse o soldado Edgar Alves Cardoso, de 24 anos, militar da etnia Pira-tapuya, que trabalha no pelotão e vive com a mulher, uma índia Kuripaco, na aldeia ao lado da base.
Segundo ele, em toda a região do alto rio Negro, cada aldeia fala um dialeto diferente, de acordo com a etnia de seus habitantes. Contudo, a maioria das populações ribeirinhas fala o "tukano", que funciona como uma espécie de língua comum. Os militares índios atuam então como tradutores e negociadores para seus oficiais.

Habilidades
Mas não é apenas a facilidade com os dialetos que torna os indígenas militares de alto valor para o Exército. "O militar de origem indígena tem muita facilidade para realizar as tarefas relacionadas à vida e ao combate no interior da selva, por estar completamente integrado nesse ambiente", afirmou o general Luiz Sérgio Goulart Duarte, comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva.
"São excelentes exploradores e guias; têm bastante experiência em pilotar embarcações, o que é uma característica essencial para quem navega no alto rio Negro, onde existem muitas corredeiras e bancos de areia", disse o general.
"Os indígenas conhecem os lugares por onde passar a voadeira nas cachoeiras. Sabem onde são as comunidades (indígenas), quantas pessoas moram lá, suas crenças. Têm conhecimento de plantas medicinais e podem dar amparo a qualquer ferimento que aconteça nas missões", disse o soldado Cardoso.
As técnicas indígenas de sobrevivência e combate na selva - herdadas de comunidades nativas da Amazônia e que incluem desde a obtenção de alimento a técnicas de acampamento, natação e localização- não são usadas apenas no dia-a-dia das bases militares de fronteira. Foram incorporadas pelo Exército e hoje são ensinadas nos cursos do CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva).
A unidade, sediada em Manaus, forma militares de elite do Exército e se tornou referência internacional em técnicas de combate em ambiente de floresta.
Terra/montedo.com

Prestígio e dinheiro atraem índios para a carreira militar

LUIS KAWAGUTI (BBC Brasil)
Foto: Ricardo Stuckert
O emprego do índio Edgar Alves Cardoso, de 24 anos, membro da etnia Pira-tapuya, é defender o rio Içana, um afluente do alto rio Negro, no extremo da fronteira de selva do Brasil com a Colômbia.
Ele nasceu em Yauaretê, vila próxima a São Gabriel da Cachoeira, a principal cidade do extremo norte do Estado do Amazonas, com 38 mil habitantes, e se alistou no Exército como soldado em 1º de março de 2008.
Hoje ele vive com a mulher, também indígena, da etnia Kuripaco, na aldeia da família dela em São Joaquim, a 326 quilômetros ao norte de sua terra natal.
Cardoso trabalha em uma base vizinha à aldeia, o Pelotão Especial de Fronteira de São Joaquim - a unidade militar brasileira mais isolada da selva amazônica. A pequena vila militar não tem telefone e fica a quatro dias de barco de São Gabriel da Cachoeira.
Sua história representa uma opção social bastante cobiçada por indígenas das 14 etnias que habitam a região do alto rio Negro, no Amazonas: entrar para o Exército.
O emprego militar não só é uma boa fonte de renda como dá um certo prestígio social ao indígena em sua comunidade. "É muito comum ao indígena, ao final do tempo de serviço militar, retornar como uma liderança natural em sua comunidade", disse o general Luiz Sérgio Goulart Duarte, comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva.
Hoje, dos cerca de 1.400 militares que defendem a fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela, 70% são indígenas, segundo Duarte. Os maiores centros de recrutamento são as cidades de São Gabriel da Cachoeira, Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro.

Técnicas indígenas
No Pelotão Especial de Fronteira, a cultura e as habilidades de sobrevivência dos povos nativos do alto Rio Negro são um diferencial entre os "militares índios" e oficiais e praças nascidos em outras regiões do país.
Cardoso costuma até dar "aulas particulares" para oficiais recém chegados à região. O aluno mais recente foi um tenente interessado em aprender a nadar em rios da Amazônia.
"Nadar no rio é muito diferente de nadar em piscina. Ele nem sabia nadar, era igual a uma pedra. Ele combinava uns horários comigo e a gente treinava as técnicas. Natação, flutuação e nado submerso".
O nado dos indígenas - parecido com o nado de peito, mas sem afundar a cabeça na água - foi uma das técnicas incorporadas pelo Exército para operações de combate na selva.
"O tenente perguntou se podíamos treinar na chuva e a gente treinava na chuva. Ensinei a ele que, quando o rio estava cheio, ele podia se segurar nos galhos das árvores que estavam encostando na água", disse.
Cardoso se diz orgulhoso do "aluno". Após uma temporada em São Joaquim, ele conseguiu passar e se formar no curso do Centro de Instrução de Guerra na Selva - um dos mais duros treinamentos para formar militares de elite no país e também reconhecido internacionalmente.
Contudo, segundo Cardoso, o conhecimento indígena não fica apenas na teoria. Em um episódio recente, ele participava como operador de rádio em uma patrulha de reconhecimento de fronteira no rio Aiari. Seu grupo de militares não conseguiu retornar no prazo de oito dias à base e ficou sem comida.
"O suprimento (de alimentos) acabou e a gente teve que se virar. Veio à minha mente que tinha frutas na mata. Eu e um sargento fomos procurar. Algumas frutas não são comestíveis e eu ajudei o sargento a pegar as comestíveis", afirmou.

Carreira
Contudo, apesar da grande contribuição dos índios ao Exército, a maioria não consegue chegar ao oficialato e permanece em patentes mais baixas. Não há, por exemplo, oficiais generais puramente indígenas - embora alguns descendentes de índios tenham conseguido chegar a essa patente.
Segundo Duarte, a dificuldade de ascensão do índio na hierarquia do Exército está relacionada ao fato dos concursos públicos para oficiais e sargentos não fazerem distinção entre índios e não índios. Como grande parte dos indígenas ainda enfrenta deficiências na formação educacional tradicional, poucos têm acesso às escolas de formação militar.
Terra/montedo.com

14 de agosto de 2012

Militar na fronteira vive com comida racionada e luz por apenas 9 horas

Pelotões criam porcos para comer caso mantimentos demorem a chegar.

A vida em um destacamento militar nas fronteiras do país não é fácil: horas de luz são cronometradas, e a comida é racionada quando o avião que leva mantimentos uma vez por mês não pousa no dia marcado. Apesar do adicional de 20% sobre o soldo base, quem aceita trabalhar nessas regiões enfrenta dificuldades de transporte e de comunicação, tendo que suportar a incômoda distância da “civilização” e dos familiares.

exercito_infografico_versao13agosto_300 (Foto: Editoria de Arte/G1)
'Se alguém tentar invadir o Brasil, eu atiro', diz soldado recruta de 18 anos.


Tahiane Stochero

O G1 publica, ao longo da semana, uma série de reportagens sobre a situação do Exército brasileiro quatro anos após o lançamento da Estratégia Nacional de Defesa (END), decreto assinado pelo ex-presidente Lula que prevê o reequipamento das Forças Armadas. Foram ouvidos oficiais e praças das mais diversas patentes - da ativa e da reserva -, além de historiadores, professores e especialistas em segurança e defesa. O balanço mostra o que está previsto e o que já foi feito em relação a fronteiras, defesa cibernética, artilharia antiaérea, proteção da Amazônia, defesa de estruturas estratégicas, ações de segurança pública, desenvolvimento de mísseis, atuação em missões de paz, ações antiterrorismo, entre outros pontos considerados fundamentais pelos militares.
Ao contrário dos soldados que se alistam para uma missão de paz, como no caso do Haiti, onde o Brasil construiu uma base com academia, ar-condicionado e rede de internet sem fio, os pelotões de fronteira são carentes de infraestrutura básica, como redes de esgoto, água e energia. Carros e barcos usados no dia a dia estão defasados. Os militares criam porcos para comer em caso de necessidade.
“A maior dificuldade aqui é termos apenas nove horas de energia. O material que precisamos é trazido uma vez por mês, em avião da FAB. Sabemos quando deve vir porque nos perguntam, uma semana antes, o que precisamos. Daí ficamos esperando. Não tem data prevista. Um vez o avião atrasou dois meses e tivemos que fazer racionamento”, conta o tenente Renzo Silva, de 23 anos, subcomandante do Pelotão Especial de Fronteira (PEF) de Bomfim - na fronteira de Roraima com a Guiana -, que comandou, por um ano, o PEF na unidade indígena de Auaris - na divisa de Roraima com a Venezuela.
A oferta de luz depende da quantidade de combustível disponível para o gerador. Normalmente, são duas horas pela manhã (das 9h30 às 11h30), duas horas e meia à tarde (das 13h30 às 16h) e mais quatro horas e meia à noite (18h30 às 23h).
”Quem tem insônia tem que ficar deitado na cama, esperando o tempo passar”, diz Renzo Silva.
Quando o G1 visitou o PEF de Bomfim, em maio, a mulher do comandante da unidade havia sido picada na noite anterior por um escorpião e teve de ser levada para a capital Boa Vista. O militar teve de deixar o posto para acompanhá-la.
“Aqui tem animal peçonhento, cobra, escorpião. Meu maior medo é que minha filha de 10 meses coloque algo na boca. Não há acesso fácil a uma unidade de emergência”, diz a sargento Aline Marriette, de 29 anos.
Ela e o marido, o sargento paraquedista Pedro Rogério Martins Rosa, viviam em Nova Iguaçu (RJ) e trabalhavam em quarteis da capital fluminense até que decidiram, em janeiro de 2012, pedir transferência para a fronteira.
“Viemos para conhecer uma outra realidade do nosso Brasil. O Exército nos dá a oportunidade de conhecer cada pedacinho do país. A família sente saudades, mas aqui, pelo menos, não tem a violência que tínhamos no Rio. É uma vida mais sossegada”, diz Aline. “A babá que veio comigo do Rio enlouqueceu em um mês. Não quis ficar mais aqui e voltou”, relembra.
"A babá que veio comigo do Rio enlouqueceu em um mês. 

Não quis ficar mais aqui e voltou”
Aline Marriette, sargento
O maior problema para a atuação nas fronteiras é a ausência do Estado. São mais de 17 mil quilômetros de divisas, com 10 países, que são fluxo de criminalidade, com tráfico de drogas, armas, contrabando. Para vigiar as fronteiras, o Exército pretende implantar, até 2024, o Sistema Nacional de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), que promete ver tudo o que ocorre nessas regiões e que começará a ser implantado ainda em 2012, em Mato Grosso do Sul.
Na fronteira da Amazônia, o Exército conta, atualmente, com 21 pelotões - bases avançadas para a vigilância das divisas do país. Segundo o general Eduardo Villas-Boas, comandante militar na região, a construção de cada unidade custa mais de R$ 20 milhões. Há um projeto para inaugurar outras 28 até 2030.
Cada unidade abriga entre 20 e 60 soldados, que seguem uma rotina baseada no triângulo “vida, trabalho e combate” - uma espécie de mantra para o militar não “enlouquecer” na selva.
“O Exército tem poder de polícia numa faixa de 150 quilômetros da fronteira para dentro do país. Se não é a gente aqui, passa contrabando, drogas, armas. Destroem nossas matas, nossa floresta. Nós vivemos e morremos por essa mata”, diz o cabo Samuel Nogueira.
Em Clevelândia do Norte, em um destacamento militar no Oiapoque, fronteira do Amapá com a Guiana Francesa, o soldado Fernando Ferreira, de 18 anos, recruta e com apenas 3 meses de treinamento, é o sentinela. “Tem alguém tentando invadir o Brasil?”, pergunta um oficial. “Não senhor!”, responde ele.
“Se alguma embarcação ou aeronave entrar no nosso território, eu tento o contato para mandar parar. Se não responder, eu posso atirar. Estou defendendo meu país”, afirma Fernando Ferreira. O trânsito no Oipoque é intenso por causa de garimpos no Rio Sequri, em território francês, que atraíram mais de 20 mil brasileiros. Também há relatos de tráfico de mulheres e crianças entre os dois países.
Na região, as operações para reprimir garimpos e desmatamento são intensas. Para levar comida, remédios e utensílios às tropas que passam dias em mata fechada, o soldado Edvin Benaiu, de 22 anos, foi treinado para pilotar as lanchas e barcos diante das piores adversidades. “Para chegar nos postos de Grand Rochele e Salto do Caxiri, onde alguns dos nossos militares ficam, tem que enfrentar o rio Oiapoque com correnteza e encachoeirado. Para não encalhar, tem que tirar tudo do barco, colocar nas costas, transpor as pedras, e seguir rio acima. É uma aventura”, conta.
O barco a motor leva quatro mil quilos de mantimento e demora até seis dias para chegar nas unidades. Por causa das corredeiras ou quando o rio está cheio, em alguns pontos só é possível navegar com "ubás", barcos indígenas que usam um tronco de madeira único. Embarcações de alumínio não resistem ao choque com as pedras e acabam danificadas.
“Na Amazônia, a logística é feita de barco para os pelotões de fronteira ou, em grandes quantidades, de avião, onde não tem como chegar via fluvial”, diz o general Villas-Boas.
O Batalhão de Aviação do Exército, sediado em Manaus, conta com apenas 12 helicópteros para atender as tropas de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá. Os veículos são usados apenas para operações. “Não podemos fazer logística com helicóptero, levar mantimentos. O custo é muito caro. Para isso, usamos embarcações”, afirma o general Villas-Boas.
"A Estratégia Nacional de Defesa pauta-se por dissuadir a concentração de forças hostis nas fronteiras terrestres e desenvolver as capacidades de monitorar e controlar o território"

Trecho da Estratégia Nacional de Defesa
A previsão é de que oito novos helicópteros estejam disponíveis até o fim de 2012. Na Amazônia, a hora de voo de um helicóptero varia entre R$ 11.588,70 (Cougar) e R$ 14.183,65 (Black Hawk). Já a hora de voo de um avião cargueiro como o Hércules, capaz de levar até 18 toneladas de mantimentos para os pelotões de fronteira, custa US$ 7.800 (cerca de R$ 15.800), incluindo manutenção, gasolina e pagamento de pessoal.

Região de disputas
exercito_personagens_fronteiras_300 (Foto: Tahiane Stochero/G1)
Sargento Aline Mariette deixou o Rio com o marido
para trabalhar na divisa da Amazônia; soldado atua
como sentinela em posto da fronteira do Amapá
com Guiana Francesa (Foto: Tahiane Stochero/G1)
Na fronteira do Pará com a Guiana Francesa e o Suriname, em área de difícil acesso disputada por garimpeiros, o PEF de Tiriós é a única base em mais de 1.300 quilômetros.
A região, vista como um ponto cego pelos militares, preocupa o comando da Amazônia que, em maio, mandou que homens especializados desbravassem a região. Foi a primeira vez que o Exército pisou na tríplice fronteira, inexplorada até então pelos órgãos públicos, segundo o general Villas-Boas.
No PEF do Brasil, a 12 km do Suriname, não há como chegar por estradas nem por rio. A base começou a ser usada pelos militares em 2003, mas a pista de pouso, que permite que os militares recebam mantimentos, só foi construída em 2010.
Ao contrário dos outros PEF, onde os militares passam um ano e moram com as famílias, a falta de infraestrutura faz com que o remanejamento dos soldados seja feito a cada 60 dias. “Uma vez tentamos vir pelo rio Paradoeste, a partir de Belém. Levou 42 dias e perdemos várias embarcações. As hélices das voadeiras batem nas pedras e acabam danificadas”, relembra o tenente Helder Reinaldo, de 23 anos, comandante do pelotão.
O efetivo ideal da unidade seria de 40 homens, mas sempre está defasado (chegou a ter apenas 17). A extensão da área significa que, se fossem espalhados, cada um dos 35 militares seria responsável pela cobertura de 39,5 quilômetros quadrados de fronteira.
"Aqui, o papai do céu ajuda muito. 

Sempre dá um jeito”
Iara Simão, tenente médica
Em maio, quando o vice-presidente, Michel Temer, visitou a unidade, o general Carlos Roberto de Sousa Peixoto aproveitou para pedir socorro. “Chega a ter quatro horas de luz por dia aqui e eu não consigo mandar um gerador mais potente, porque não vem avião com peso sobrando”, desabafou.
exercito_barcos_especial_300p (Foto: Tahiane Stochero/G1)
Já a tenente médica Iara Simão teve de aprender a atirar e anda sempre acompanhada de seguranças quando atende militares e indígenas na mata. A jovem de 29 anos morava com o marido, agente da Polícia Federal, no Rio de Janeiro. Eles foram transferidos para o Oiapoque no início de 2012.
“Às vezes os militares tem de ser retirados da selva para a base com doenças graves, como leishmaniose, malária, picadas de animais ou outras complicações. O trajeto de barco até nossa base pode demorar até seis horas. A gente faz de tudo para salvá-los. Aqui, o papai do céu ajuda muito. Sempre dá um jeito”, diz Iara.
“Eu e meu marido decidimos vir para cá buscando uma experiência nova, mas não é fácil abrir mão da família, da nossa casa, de restaurantes bons. Aqui, a gente precisa do básico para sobrevier”, acrescenta a oficial.
G1/montedo.com

13 de agosto de 2012

'Em transformação', Exército planeja estar totalmente equipado em 10 anos

Recuperação da capacidade operacional custará R$ 11 bilhões até 2022.
Exército tem 7 grandes projetos para superar atual quadro de defasagem.

Tahiane Stochero
Do G1, em São Paulo
infografico_exercito_END_versaofinal_620 (Foto: Editoria de Arte/G1)
Diante do atual quadro de defasagem, o Exército brasileiro criou plano para total recuperação e modernização de equipamentos e tecnologias em 10 anos, ao custo de R$ 11 bilhões. "O ano de 2022 é considerado um marco temporal para nós. Pretendemos que o processo de recuperação termine até lá", afirma o general Walmir Almada Schneider Filho, que coordena os estudos no alto comando da Força, em Brasília.
O G1 publica, ao longo da semana, uma série de reportagens sobre a situação do Exército brasileiro quatro anos após o lançamento da Estratégia Nacional de Defesa (END), decreto assinado pelo ex-presidente Lula que prevê o reequipamento das Forças Armadas. Foram ouvidos oficiais e praças das mais diversas patentes - da ativa e da reserva -, além de historiadores, professores e especialistas em segurança e defesa. O balanço mostra o que está previsto e o que já foi feito em relação a fronteiras, defesa cibernética, artilharia antiaérea, proteção da Amazônia, defesa de estruturas estratégicas, ações de segurança pública, desenvolvimento de mísseis, atuação em missões de paz, ações antiterrorismo, entre outros pontos considerados fundamentais pelos militares.
exercito_especial_soldados_300 (Foto: Tahiane Stochero/G1)
Militares em treinamento para situação de confronto
em cidades brasileiras (Foto: Tahiane Stochero/G1)
"E eu não tenho dúvidas que o soldado de 2022 tem que estar muito mais capacitado e estudado para operar toda essa rede de equipamentos e tecnologia avançada que teremos”, projeta o general. Para ele, o Exército está atualmente em um "processo de transformação”.
Para atender aos principais pontos de preocupação elencados pela Estratégia Nacional de Defesa, publicado em 2008, os militares criaram sete grandes projetos: o sistema de monitoramento das fronteiras, a proteção de estruturas estratégicas, a defesa cibernética, a recuperação da capacidade operacional, a defesa antiaérea, o sistema de lançamento de foguetes e mísseis e a substituição dos antigos blindados pelo novo - o Guarani.
"Não tenho dúvidas que o soldado de 2022 tem que estar muito mais capacitado e estudado para operar toda essa rede de equipamentos e tecnologia avançada que teremos"General Walmir Almada Schneider Filho

“Nos países desenvolvidos, são os princípios e a doutrina que ditam a arma e a tecnologia que o combatente precisa. Aqui, teremos um processo inverso. Nessa primeira fase, vamos fazer a modernização, para recuperarmos a capacidade de operar. Esses novos equipamentos irão fazer com que mudemos nosso modo de ação, nossa visão de emprego. Vamos testar novos conceitos, novas capacidades. E isso nos obrigará a rever nossa doutrina”, afirma Schneider Filho.
Outra ideia do Exército é trocar por militares temporários, até 2030, pelo menos 20 mil oficiais e praças que estão no serviço administrativo. Os novos contratados passarão a realizar tarefas de contabilidade, recursos humanos, administração, jornalismo, entre outros. A contratação de trabalhadores temporários tem como objetivo não impactar os custos do balanço previdenciário da Força. Um projeto piloto já está em execução no Rio de Janeiro.
“Para ganharmos pessoal, vamos primeiro racionalizar dentro do próprio Exército. Tirar homens e mulheres do administrativo e trazer para o combate”, diz o general.
"Havendo qualquer problema em qualquer cenário pelo mundo, como terremotos, furacões, incidentes internacionais, temos condições de mandar [ajuda]"General Walmir Almada Schneider Filho
Outra intenção é criar uma "força expedicionária": tropas preparadas permanentemente para atuar em calamidades e emergências humanitárias pelo mundo. "Há uma demanda crescente de militares que estejam prontos para essas situações, que são imprevisíveis", afirma Schneider Filho.
"O que pretendemos é ter tropas adestradas, que ficariam teoricamente hipotecadas. Havendo qualquer problema em qualquer cenário pelo mundo, como terremotos, furacões, incidentes internacionais, temos condições de mandar [ajuda]", diz o general.

Veja abaixo os principais pontos da Estratégia Nacional de Defesa (END) que estão sendo desenvolvidos pelo Exército:
1- Recuperação da capacidade operacional
Propõe que seja comprado um novo fuzil funcional, o IA2, produzido pela empresa brasileira Imbel, que está sendo testado por unidades nas fronteiras. Prevê a modernização de helicópteros e de blindados já existentes, além da aquisição de embarcações, munições, armamentos e equipamentos. Barcos blindados já estão sendo comprados da Colômbia para patrulhar a Amazônia.

2- Defesa cibernética
É competência do Exército desenvolver a proteção cibernética no país, ampliando a capacidade de preservar estruturas estratégicas - como aeroportos e usinas - de ataques. O Centro de Defesa Cibernética (CDCiber), criado em Brasília há dois anos, receberá em 2012 mais de R$ 120 milhões em recursos.
Durante a Rio+20, realizada em junho, o CDCiber não conseguiu impedir as invasões e a queda de sites do governo. Conforme o Livro Branco, texto que descreve os objetivos da defesa brasileira, o CDCiber ainda precisa de sede definitiva, equipamentos e pessoal capacitado, além de adquirir tecnologias e softwares para a defesa cibernética.

3- Proteger
O plano para proteção de infraestruturas estratégicas de serviços, comunicações, transportes e economia deve ser concluído em 2013. Segundo o Exército, 90% das estruturas estratégicas do país estão em terra, sendo responsáveis por 96% do PIB brasileiro. Militares do Paraná receberão novos equipamentos para proteger a Usina de Itaipu. Também serão levadas para a região da usina as primeiras unidades do novo blindado - o Guarani.

4- Sisfron
O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras pretende monitorar e vigiar as divisas do país em tempo real, além de garantir resposta rápida para qualquer risco. Está atualmente em fase de licitação para a instalação de um piloto, em Mato Grosso do Sul, que será baseado na 4ª Brigada de Infantaria Motorizada, em Dourados. O custo total estimado do projeto é de R$ 12 bilhões até 2030.

5- Amazônia
exercito_barcos_especial_300 (Foto: Tahiane Stochero/G1)
Em más condições, abrigo para barcos na fronteira
tem danos na estrutura (Foto: Tahiane Stochero/G1)
Possui hoje 21 unidades de atuação nas fronteiras do país. A intenção é que outros 28 pelotões sejam construídos até 2030 e que as bases já existentes tenham melhorias em infraestrutura, saneamento e rede de energia, para que os militares possam morar com os familiares. Até o fim de 2012, chegam a Manaus oito novos helicópteros.

6- Defesa antiaérea
Projeto que pretende atualizar o sistema de artilharia está em fase de definição de tecnologia para divulgação às empresas interessadas em participar da licitação. As unidades deverão ser equipadas com modernos meios, sensores e mísseis. O custo deve ficar entre R$ 859,4 milhões e R$ 2 bilhões.

7- Sistema de foguetes Astros II
Busca que o Exército tenha apoio de fogo de elevada capacidade, através do desenvolvimento de um míssil com alcance de até 300 km. Está em fase de acerto de contrato com a Avibras Indústria Aeroespacial e tem prazo médio de cinco anos para entrar em operação.

8- Guarani
Plano quer dotar o Exército de uma nova família de blindados, o Guarani, com mais tecnologia e resistência. A previsão é de que, em 20 anos, sejam comprados 2.040 blindados. O primeiro deles foi entregue em junho.

9- Terrorismo
O Exército possui um único destacamento, localizado em Goiânia, treinado para ações contra o terrorismo. A quantidade de equipamentos para detecção e contenção de armas químicas, nucleares, radiológicas e explosivos também é limitada. Segundo o general Walmir Almada Schneider Filho, do Estado-Maior do Exército, estão sendo adquiridos novos materiais para unidades em Goiás e no Rio de Janeiro. "Estamos trabalhando para ter mais gente capacitada para estes casos. Temos de estar preparados para qualquer ameaça. Há uma gama enorme delas", diz.
exercito_especial_livro_branco_prioridades_300 (Foto: Reprodução)
Livro Branco de Defesa Nacional apresenta os sete
projetos prioritários do Exército (Foto: Reprodução)

10- Missões de paz
Um centro de preparação das tropas para missões de paz foi criado no Rio de Janeiro para treinamento conjunto com a Marinha e a Aeronáutica. O Exército possui, atualmente, militares em 11 operações de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), sendo a maior delas no Haiti, onde estão 1.900 soldados. Cinco oficiais fazem parte da missão de observadores do cessar-fogo na Síria.

11- Ações subsidiárias
Os militares brasileiros têm atuado cada vez em ações civis, no apoio em enchentes, em calamidades públicas, no combate à dengue e à febre aftosa. Segundo o Exército, "a demanda dos órgãos da administração pública aumentou", em especial para logística - transporte, alojamento, segurança e comunicações - e para campanhas de vacinação e sanitárias. "O Exército tem a obrigação de executar estas atividades quando houver interesse nacional", disse, em nota, a Força.
Sobre o uso de engenharia militar para construção de aeroportos e estradas, o Exército afirma que não trabalha como "balizador de preços da construção civil" e que as ações servem para instrução e preparação dos soldados.

12- Serviço militar obrigatório
A Estratégia Nacional de Defesa prevê que o serviço militar obrigatório seja realmente "obrigatório" e que, devido ao grande número de jovens dispensados anualmente da prestação, deveria ser criada uma espécie de serviço civil obrigatório. Segundo o Exército, os projetos para mudança ainda estão em tramitação no Ministério da Defesa e não há conclusão sobre o tema.

13 - Valorização profissional
As Forças Armadas apresentaram em março à Presidência uma proposta de reajuste do salário dos militares, que reclamam da defasagem. A última mudança no soldo-base do Exército foi estabelecida pela Lei nº 11.784, de 2008, e previa o reajuste até 1º de julho de 2010. O soldo do soldado recruta, por exemplo, é de R$ 492. Sargento recebe R$ 2.268, e segundo tenente ganha R$ 4.590. A remuneração mensal é formada, além do solto, por outros adicionais, como tempo de serviço, cursos, local de atuação e habilitações.
G1/montedo.com

Sem patrocínio privado, Yane vira militar e dá salto na carreira


Após a disputa da esgrima e da natação, Yane Marques subiu para a 2ª posição do pentatlo moderno. Foto: Reuters
Sargento do Exército Yane Marques, medalha de Bronze no Pentatlo Moderno
Foto: Reuters
CIRILO JUNIOR
Direto de Londres
A carreira da primeira medalhista brasileira na história do pentatlo moderno começou a mudar de patamar há cerca de três anos. Em 2009, Yane foi uma das primeiras atletas brasileiras a serem integradas ao Exército, com o objetivo de se formar uma equipe forte para os Jogos Mundiais Militares do Rio, disputados em 2011. Como sargento da instituição, ela passou a contar com estrutura e apoio financeiro, elementos fundamentais em um esporte caro como o pentatlo, que envolve cinco modalidades, recorda o treinador dela, Alexandre França.
"Hoje ela vive graças ao apoio do Exército e da Bolsa Federal. Isso é o que sustenta ela. Recebemos total apoio do COB para treinamentos, mas é um esporte dispendioso, não é uma coisa barata. Sem esse apoio do Exército, a gente não conseguiria", afirmou França.
Quando se refere ao pentatlo como um esporte caro, o treinador salienta que, além das cinco modalidades praticadas (esgrima, hipismo, natação, tiro e corrida), Yane precisa praticar musculação e ter uma equipe que inclui psicólogo e nutricionista, além dos deslocamentos para treinos.
Yane segue no Exército e mora no Recife. Já França fica em Porto Alegre. Os trabalhos feitos em conjunto acontecem na Escola de Educação Física do Exército, no Rio, onde há todas a estrutura necessária, destaca o treinador. Ele disse esperar que a conquista de Yane em Londres inspire uma melhor estruturação do pentatlo em todo o País. França ressalta que a medalhista olímpica é uma atleta excepcional no cenário brasileiro.
"Ela é um ponto fora da curva. No nível dela, a gente não tem. Há atletas de bom nível, mas não no dela", observa. A rotina de treinamentos de Yane é puxada. Os treinos, de segunda a sábado, variam de 6 a 8 horas por dia. Portanto, não há muito espaço para que ela tenha outra atividade. É exigida dedicação quase que integral.
Outro fator que, segundo França, impulsionou a carreira de Yane foi o programa científico do COB iniciado há dois anos para melhorar a performance dos atletas. Nele, é feito uma espécie de DNA de cada um, e do que é preciso, em termos de treinamento e alimentação, para se obter melhores resultados. Tudo feito com acompanhamento para observar o desenvolvimento dos atletas.
Ao analisar Yane, o técnico vê um salto significativo nos últimos dois anos, que a levaram a um patamar de atleta "mediana". França se apressa a explicar que, no pentatlo, o grande objetivo é ser linear.
"Hoje, pode-se dizer que ela é uma atleta mediana em todos os esportes, com destaque maior para a natação e a equitação. No geral, ela é bem mediana. No pentatlo, o segredo é ser mediano. Não adianta ser o melhor em uma coisa e ser pior na outra. É igual a pato: corre, nada e voa, mas não faz nada direito".
Terra/montedo.com

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