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11 de maio de 2015

"O brasileiro aprendeu a guerrear na guerra", diz ex integrante da FEB

Julio do Valle, 93, integrou o batalhão de saúde da FEB na Segunda Guerra. 
O ex-combatente recorda o sofrimento de soldados feridos e a fome desoladora que afetou a população italiana.

"Deus salvou a nossa vida." Foi a essa conclusão a que chegaram Julio do Valle e outros três soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) depois de terem escapado de uma explosão na cidade de Montese, no norte da Itália.
Integrantes do batalhão de saúde, os quatro jovens procuravam um posto médico em meio ao bombardeio de tropas alemãs na cidade. Eles não encontraram o local e decidiram se sentar em frente a uma casa abandonada.
"Passou alguém que disse para entrarmos, porque ali era muito perigoso. Mal passamos a porta e caiu uma granada bem onde a gente estava", lembra o ex-combatente de 93 anos. "Foi uma tristeza ali dentro, aquela fumaça, cheiro de bomba, muita poeira. Nós saímos, e as padiolas [espécie de maca] que deixamos na frente da casa estavam estraçalhadas."
Eles se reuniram depois para tentar saber quem foi a pessoa que os alertou sobre o perigo. "Não vimos chegar e não vimos indo embora, não lembramos da fisionomia. Ninguém sabia responder. Então, chegamos a uma conclusão: foi Deus", conta, chorando.
Solidariedade
Julio do Valle servia o Exército brasileiro como enfermeiro no hospital militar em São Paulo quando foi convocado para lutar com os aliados na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Em um ano, ele viu e vivenciou as dores do conflito.
"O brasileiro aprendeu a guerrear na guerra. Nunca tivemos instruções sobre como deveríamos colocar um ferido na padiola, por exemplo", relata.
A batalha de Montese, em abril de 1945, foi um dos conflitos mais violentos enfrentados pelos pracinhas brasileiros contra os alemães. Valle conta que, numa noite fria e escura, a única luz era das granadas que caíam.
"Com o clarão, nós conseguíamos procurar os feridos", conta. "Todo o tempo em que estive na guerra, eu nunca escutei um brasileiro dizer 'não'. Nós nunca deixamos um ferido para trás, onde quer que ele estivesse."
A fome castigava os civis italianos, principalmente nas cidades. Valle dividiu todas as refeições. "As pessoas estavam morrendo de fome. A única coisa que fazíamos era dividir um pouco a comida com os italianos. Dava muita pena. Na hora da refeição do Exército brasileiro, formavam-se duas filas: uma de soldados e outra de civis. Eles iam lá pegar o restinho que sobrava."
Lembranças
Mesmo em meio a mortes e ao sofrimento dos soldados brasileiros, Valle teve momentos de alegria. Ele e um colega estavam em Pisa e toparam com duas italianas. Eles subiram na torre e ficaram cantando músicas italianas.
"Elas fumaram todo o cigarro que nós tínhamos", ri. "E foi apenas uma amizade mesmo, ficamos curtindo aquele momento raro de alegria. Aquilo me dá uma saudade...", diz o pracinha.
Quando terminou a Segunda Guerra, em 8 de abril de 1945, ele estava na província de Alexandria, em Piemonte, onde ficavam os prisioneiros alemães. De lá, fez a viagem de regresso para o Brasil. "Quando anunciaram o fim da guerra, foi uma bebedeira só. Acabamos com o vinho da cidade."
DW/montedo.com

9 de maio de 2015

Quase mil soldados soviéticos são enterrados 70 anos após fim da guerra

Voluntários já encontraram restos de 15 mil perto de São Petesburgo.
Membro de um grupo de buscas coloca capacetes nos caixões com restos mortais de soldados do Exército Vermelho mortos na II Guerra Mundial, em São Petesburgo, na quinta-feira (7) (Foto: AFP Photo/Olga Maltseva)
Membro de um grupo de buscas coloca capacetes nos caixões com restos mortais de soldados do Exército Vermelho mortos na II Guerra Mundial, em São Petesburgo, na quinta-feira (7) (Foto: AFP Photo/Olga Maltseva)
Da France Presse
Os restos mortais de 964 soldados falecidos em uma das maiores batalhas contra as tropas da Alemanha nazista da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) em território soviético foram enterrados nesta quinta-feira (7), quase 70 anos após o fim do conflito.
Esta cerimônia ocorreu dois dias antes de a Rússia celebrar, com uma magnitude inédita, o 70º aniversário da vitória contra os nazistas. A celebração ocorrerá na presença de mais de 16 mil soldados, e contará com blindados, aviões e uma parada militar na Praça Vermelha.
Nesta quinta-feira, 200 pessoas, incluindo autoridades locais, voluntários que encontraram os corpos e familiares dos soldados, homenagearam os militares falecidos durante a ofensiva soviética do verão (no hemisfério norte) de 1942 para tentar romper o bloqueio de Leningrado (hoje São Petersburgo), cercada pelas tropas da Alemanha de Adolf Hitler por um ano.
Os voluntários encontraram estes restos em Siniavino, perto de São Petersburgo, onde foram registrados intensos combates, nos quais dezenas de milhares de soldados soviéticos morreram. As duras condições no front nem sempre permitiam enterrar os corpos dos militares falecidos, que costumavam ser abandonados nas trincheiras ou em valas comuns.
Assim, todos os anos, voluntários russos encontram restos de milhares de soldados do Exército Vermelho nos antigos campos de batalha da Segunda Guerra, na qual morreram pelo menos 27 milhões de soviéticos. Depois de serem identificados, os restos encontrados são enterrados com honras militares.
Homens carregam caixões com restos mortais de soldados do Exército Vermelho mortos na II Guerra Mundial, em cerimônia em São Petesburgo, na quinta (7) (Foto: AFP Photo/Olga Maltseva)
Homens carregam caixões com restos mortais de soldados do Exército Vermelho mortos na II Guerra Mundial, em cerimônia em São Petesburgo, na quinta (7) (Foto: AFP Photo/Olga Maltseva)
"É nosso dever dar uma última homenagem aos soldados que morreram nos combates contra os nazistas", declarou Viacheslav Sevostianov, um voluntário de 18 anos que se ocupa das buscas.
Em Siniavino já foram encontrados e enterrados os restos de mais de 15 mil pessoas, mas apenas 3 mil delas foram identificadas.
"Apenas quando temos sorte encontramos algo que permita identificar o soldado, como medalhas ou objetos diversos. É algo muito pouco comum", explicou Sevostianov.
A Rússia celebra todos os anos a vitória aliada na Segunda Guerra Mundial no dia 9 de maio - a capitulação foi assinada na noite de 8 de maio em Berlim, 9 de maio no horário de Moscou - com um grande desfile militar na praça Vermelha.
O aniversário da vitória é considerado por 42% dos russos como a festa mais importante do ano, à frente do Natal ou de seus próprios aniversários, segundo uma pesquisa recente do centro independente Levada.
G1/montedo.com

29 de agosto de 2012

Bomba da Segunda Guerra Mundial é encontrada em aeroporto de Amsterdã


Bomba da 2ª Guerra Mundial é achada no aeroporto de Amsterdã
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS


Autoridades fecharam nesta quarta-fera parte do aeroporto Schiphol, em Amsterdã, após a descoberta do que disseram possivelmente ser uma bomba da 2a Guerra Mundial, informou a administração do aeroporto.
"O Terminal C foi esvaziado como medida de precaução", disse uma porta-voz do aeroporto Schiphol, devido à "suspeita séria" de que tinha sido encontrada no aeroporto uma bomba da guerra que terminou em 1945.
"Isso vai ter um grande impacto. Podemos parar aviões em outros lugares por algum tempo, mas em algum momento isso vai causar cancelamentos ou atrasos", disse a porta-voz.
O terminal realiza voos para a maioria dos destinos europeus, incluindo França, Alemanha, Espanha e Itália.
A porta-voz disse que uma equipe antiexplosivos estava a caminho para inspecionar o objeto.
O aeroporto de Amsterdã, que recebe entre 120 mil e 140 mil passageiros por dia, serviu de base da aviação nazista durante a guerra e foi bombardeado pelos aliados. Também foi a tacado pelas forças nazistas durante a invasão do país.
O Schiphol é o quinto maior aeroporto da Europa. Cerca de 45 milhões de passageiros passaram pelo local em 2010.
Folha/montedo.com

Especial: o Brasil na Segunda Guerra Mundia (IV)

INFOGRÁFICO: o avanço da FEB na Itália (abra a imagem em nova guia para ampliar)

Especial: o Brasil na Segunda Guerra Mundial (III)

O Brasil em Armas
A FEB começa sua campanha na Itália e enfrenta a guerra nas montanhas do norte
Os soldados brasileiros lutam no Vale do Serchio, em Monte Castelo e em Montese; conhecem a vitória, a derrota, a morte e a destruição do conflito

28 de agosto de 2012

Especial: o Brasil na Segunda Guerra Mundial (II)

O Brasil em Armas
A Alemanha afunda nossos navios e o País reage: é o começo da guerra


A Marinha do Brasil não estava equipada para enfrentar a ameaça dos submarinos alemães. O Brasil forma uma Força Expedicionária para mandá-la à Europa com um Grupo de Aviação de Caça

27 de agosto de 2012

Especial: o Brasil na Segunda Guerra Mundial

O Brasil em Armas
"Estado" traz especial sobre participação do Brasil na guerra
Há 70 anos o Brasil entrava em guerra pela última vez. O "Estado" reuniu textos, imagens e depoimentos para contar essa história

6 de agosto de 2012

Hiroshima

Primeiro ataque atômico da história encerrou a 2ª Guerra
Hiroshima, 6 de agosto de 1945. Foto: Museu Memorial da Paz/Efe
Alexandre Bigeli*
A cidade de Hiroshima, no sul do Japão, é mundialmente conhecida por ter sofrido o primeiro ataque atômico da história. A bomba atingiu a cidade na manhã do dia 6 de agosto de 1945, e a história da humanidade nunca mais foi a mesma.
O ataque americano foi decisivo para o fim da Segunda Guerra Mundial na Ásia, com a rendição do Japão. O bombardeio matou instantaneamente cerca de 80 mil pessoas. Uma das maiores cidades do Japão, Hiroshima tinha na época cerca de 325 mil habitantes.
A bomba também afetou seriamente a saúde de milhares de sobreviventes. A grande maioria das vítimas era formada pela população civil, que nada tinha a ver com a guerra.
Naquela fase da guerra, os nazistas já haviam sido derrotados pelos aliados na Europa. Restava apenas o Japão no flanco asiático, que resistia com eficiência ao cerco dos americanos. As forças dos Estados Unidos estavam derrotando os japoneses no mar e nos territórios invadidos pelo Japão, principalmente nas Filipinas, na China e nos arquipélagos do Pacífico. Entretanto, segundo os generais americanos, a perda de territórios invadidos não seria suficiente para que os japoneses se rendessem.
Para que o imperador Hiroíto, líder japonês, aceitasse a rendição incondicional, seria necessário um ataque direto ao território japonês. A invasão ao Japão era considerada uma iniciativa de altíssimo risco, pois a resistência da população e a batalha em solo inimigo provocariam baixas maciças nas forças americanas. Na época, calculou-se que uma invasão poderia causar a morte de aproximadamente 2 milhões de pessoas, entre americanos e japoneses, além de prolongar a guerra indefinidamente.
Foi então que o alto-comando americano passou a considerar a única arma capaz de um ataque fortíssimo, que destruísse por completo o seu alvo sem causar nenhuma baixa nas tropas dos EUA: as bombas atômicas. Somente a potência de um ataque nuclear poderia obrigar os japoneses a se renderem. Na época, diversos cientistas, como Albert Einstein, estavam colaborando para a evolução da tecnologia nuclear, que já podia ser empregada para fins militares.

A destruição
Hiroshima, 6 de agosto de 1945. Foto: Museu Memorial da Paz/Efe
Hiroshima, 6 de agosto de 1945. Foto: Museu Memorial da Paz/Efe
Ironicamente batizada de "little boy", (garotinho, em inglês), a bomba lançada em Hiroshima é até hoje a arma que mais mortes provocou em pouco tempo. A bomba foi lançada às 8h15 e as mortes foram praticamente instantâneas. Sua potência correspondia a 20 mil toneladas de dinamite. A explosão provocou um calor de cerca de 5,5 milhões de graus centígrados, similar à temperatura do Sol.
A cidade de Hiroshima pode ter sido escolhida para o ataque porque fica no centro de um vale -o que pode aumentar o impacto da explosão nuclear, já que as montanhas ao redor prenderiam na região as intensas ondas de calor, a radiação ultravioleta e os raios térmicos produzidos no ataque.
Após um silencioso clarão, ergueu-se uma espessa núvem de poeira e fragmentos de fissão. Uma chuva formada por gotas do tamanho de bolas de gude caiu depois da explosão. Segundo relatos da época, era uma chuva escura, formada por um líquido pastoso. Essa chuva atingiu vegetações e reservatórios de água em regiões próximas a Hiroshima.
Prédios sumiram com a vegetação, transformando a cidade num deserto. Num raio de 2 km, a partir da área sobre a qual a bomba explodiu, a destruição foi total. Pessoas foram literalmente desintegradas. Suas mortes jamais foram confirmadas em função da falta de cadáver. Quem sobreviveu teve a saúde seriamente comprometida. O calor arrancava a roupa e a pele. No total, morreram cerca de 300 mil pessoas em conseqüência do ataque. Ou as vítimas foram incineradas pelo calor, ou morreram aos poucos com os efeitos da radiação (como o câncer).
Hiroshima, 6 de agosto de 1945. Reprodução: Vidal Cavalcante/AE
Hiroshima, 6 de agosto de 1945. Reprodução: Vidal Cavalcante/AE
Ataque à cidade de Nagasaki
Três dias depois, em 9 de agosto de 1945, a cidade de Nagasaki também foi atacada com uma bomba atômica. Mais uma vez, os americanos batizaram-na com ironia: "fat man" (gordo). A bomba matou cerca de 70 mil pessoas e deixou 25 mil feridas. Segundo historiadores americanos, o alto-comando dos EUA ameaçou atacar Tóquio caso o Japão não se rendesse. A destruição que um ataque nuclear causaria numa das maiores cidades do mundo era incalculável.
Explosão nuclear em Nagasaki (9 de agosto de 1945)
O imperador Hiroíto não só aceitou como propôs a rendição incondicional diante da ameaça. Depois de seis anos, a sangrenta Segunda Guerra Mundial havia finalmente terminado. Embora tenha havido vários conflitos após 1945, bombas atômicas nunca mais foram usadas em guerras. As armas continuam sendo empregadas em testes, para que países exibam seu poder (como fazem Índia e Paquistão, por exemplo).
Após conhecer o potencial de destruição das bombas nucleares, potências temem se envolver em um conflito nuclear. Isso explica por que a guerra fria sempre foi um conflito de ameaças recíprocas entre Estados Unidos e União Soviética, em vez de uma guerra nuclear de fato. Mas essa é outra história.
UOL Educação/montedo.com

25 de julho de 2012

Chico Paraíba

HISTÓRIAS DA FEB NA II GUERRA MUNDIAL: "CHICO PARAIBA" 

Irapuan Costa Junior*
-Tenente Ithamar! A Policia do Exército americana veio aqui e prendeu o Chico Paraiba. Dizem que vai ser julgado pela corte marcial. 
Quem falava era o sargento Arlindo, encarregado do alojamento de uma companhia do 11º Batalhão de Infantaria de Montanha [11º Regimento de Infantaria], da FEB-Força Expedicionária Brasileira. Estavam próximos à cordilheira dos Apeninos, e era o inverno italiano, no começo de 1945. O Tenente Ithamar, com seu grupo de reconhecimento, estava chegando de uma missão noturna junto às linhas alemãs. Não tinham havido baixas, felizmente. Mas nem por isso o humor do tenente era dos melhores. Para a perigosa missão, em terreno desconhecido, e à noite, só contava com um guia italiano, em quem, aliás, não confiara muito, desde o início. Soldados em combate desenvolvem um sexto sentido, e o seu não falhara. O italiano era um covarde, que os abandonara na escuridão de uma encosta, em meios a restos de neve, quando uma sentinela alemã, percebendo os ruídos do grupo, rolara uma granada morro abaixo. Que felizmente não explodira muito perto. Escafedera-se o carcamano, e os brasileiros não mais haveriam de ouvir falar nele. Também pudera... Se o encontrassem depois daquilo, iriam moê-lo de pancada, no mínimo. O tenente, quando pensava nele, praguejava entre dentes. Sem orientação, tivera que arriscar uma retirada que só era segura morro abaixo. No sopé, sem direção, poderia cair numa trincheira inimiga e seria um desastre. O jeito fora esperar o inicio da manhã e se guiar, mal e mal, pela bússola. Foi o que fez, e conseguiram retornar, embora os alemães, como todos os combatentes veteranos, tendo desenvolvido uma visão mais acurada, os tivessem percebido, e enviado algumas rajadas de metralhadora, quando se deslocavam. Mas nessa altura já estavam fora de alcance. 
Era, pois, um tenente Ithamar tenso, sujo, com frio, fome e cansaço quem recebia a má notícia. 
- O que o Chico fez para ser preso? 
- Disse que estava cansado dessa ração americana e queria fazer uma sopa. Deu um tiro de fuzil numa galinha e fez a sopa. O italiano dono da galinha foi no quartel dos americanos e deu queixa. Eles vieram aqui e levaram o Chico. Tentei discutir com eles, mas não adiantou. Disseram que é crime e está previsto nos regulamentos. 
- Mas também está nos regulamentos que quem julga nossos soldados somos nós mesmos. Você não disse isso a eles? 
-Sim, disse, mas não quiseram ouvir. Eu não sabia o que fazer, eram muitos. Achei melhor esperar o Sr. chegar. 
-Você, Arlindo, que fala inglês, venha comigo. Chame o Gaúcho, e pegue o jipe. 
-Vamos só nós?
-Não é preciso mais ninguém. 
- Vamos desarmados? 
-Não, armamento completo. 
No trajeto, Ithamar, também paraibano, ia pensando no seu subordinado e conterrâneo. Chico era um cidadão muito popular na tropa. Sem muita instrução, era, contudo um ás na musica nordestina, cantor, tocador de sanfona, dançarino, contador de causos e piadas. Seu sotaque carregado ajudava. Desinibido e folgazão. Sei que conhecem o tipo. Faz sucesso também em política. Chico era, além disso, bom soldado. Fazia-se respeitar no momento do combate. 
-Arlindo, por que você não impediu o Chico de fazer essa besteira? Perguntou Ithamar. 
-Quando vi, já tinha feito. Disse a ele que ia ter problema, mas ele disse que estávamos numa guerra de matar homens, e que problema ia ter matar uma galinha? 
-Bem próprio da simplicidade do Chico, pensou Ithamar, quando já estavam chegando no quartel americano. 
- Arlindo, quero que você traduza exatamente o que eu disser, seja lá o que for. Entendido? 
- Entendido, meu tenente. 
O sentinela americano relutou em levar até o oficial de dia aquele tenente com o fardamento sujo e seus dois acompanhantes, mas não podia fazer diferente. Foram recebidos por um capitão americano com quase dois metros de altura, bem fardado, saudável, acompanhado de quatro outros yanques, que os olhou com certo enfado. 
- Diga a ele que lamento aqui comparecer sem estar devidamente fardado, mas que acabo de chegar de missão recebida do comando conjunto e não tive tempo de me trocar. 
Arlindo traduziu, e o capitão mudou um pouco sua postura, ao notar o olhar cansado do tenente. 
- Ele pergunta em que pode ajudar, meu tenente. 
- Venho buscar um soldado meu comandado, indevidamente preso pela Policia do Exercito americana, que segundo ela, cometeu transcrição disciplinar, e a parte correspondente, para que possamos julgá-lo e puni-lo, se for o caso, em corte brasileira, como manda o regulamento. ]
- Ele diz que o soldado preso já tem processo em andamento, e pode ser julgado pelos americanos, pois o chefe do comando conjunto é americano. Assim, não pode entregá-lo. -traduziu Arlindo a resposta. 
- Diga a ele que não sairemos daqui sem meu soldado, pois não aceito a interpretação dele e sou inteiramente responsável por cada um dos meus. 
O americano ouviu, esboçou um sorriso, olhou para os outros americanos e perguntou, logo traduzido por Arlindo: 
- Só vocês três? E como vocês pensam em levá-lo? 
- Arlindo, traduza exatamente, repetiu Ithamar: Eu não disse que iremos levá-lo. Disse que não sairemos daqui sem ele. Isso significa que, se preciso for, combateremos para levá-lo, embora sejamos minoria e provavelmente morramos aqui. 
O americano ouvia com espanto crescente a tradução. Já se preparava para o pior, quando olhou bem no fundo dos olhos do atarracado tenente brasileiro. O que viu lá não foi do seu agrado. Também não foi o que não viu. Não viu medo. Não viu raiva nem hesitação. Viu uma calma determinação que não deixava margem a dúvidas. Viu que a afirmação que ouvira com espanto era a pura expressão da verdade. Prova é que o tenente estava aferrado à sua Thompson, e por certo faria um estrago antes de morrer, se um tiroteio começasse ali. E ele estava diretamente na frente, enquadrado na linha de tiro. Ou então – quem sabe? – sentiu admiração por aquele tenente exausto, que como ele, lutava longe de casa pela liberdade, e não abandonava um dos seus nas mãos de estrangeiros, ainda que aliados. O silencio era gritante. Dizia muitas coisas. Mas não durou muito, embora parecesse não acabar mais. Um minuto? Menos. O americano virou-se para um subordinado: 
- Busque aquele caipira e entregue a eles! 
Ninguém falou mais nada. Nem quando Chico Ceará, risonho, sem saber da tragédia que quase tinha provocado, entrou na sala. Ithamar fez a continência de praxe, voltou-se e saiu, com seus soldados e um Chico já tagarelando de alegria. Ouviu o americano falar algo para seus companheiros. Mas nem perguntou a Arlindo o que era. Já não interessava mais. Se tivesse pedido a tradução, seria: 
"Esses brasileiros são loucos. Morreram às dúzias para tomar o Monte Castelo. Verdadeiros suicidas." 

Publicada no Informativo da SIP/6 de julho/2012, essa crônica é uma homenagem ao Tenente Ithamar Viana da Silva, que recebeu várias condecorações por bravura na Itália. Na volta da guerra, fez o curso de engenharia no IME- Instituto Militar de Engenharia. Reformou-se como coronel, casou-se com uma goiana e aqui constituiu família. Foi professor universitário em Brasília e ocupou , com dedicação e honestidade exemplares, vários cargos públicos em Goiás. Faleceu em 1999.*
ex-Governador de Goiás e Senador

9 de julho de 2012

Em plena Segunda Guerra, general alemão visitou Batalhão de Infantaria em SC

General alemão visitando batalhão do Exército em Blumenau
Recentemente deparei-me com esta interessante fotografia (não datada) da visita de um general alemão ao quartel-general do então 32º Batalhão de Caçadores (hoje 23º Batalhão de Infantaria) em Blumenau, Santa Catarina.
Realmente, a presença de um general alemão entre oficiais brasileiros numa fotografia foi algo que me deixou extremamente curioso, e imediatamente pus-me a analisar a foto para descobrir mais detalhes.
Tendo em vista que o batalhão de Blumenau foi fundado por decreto ministerial de 31 de dezembro de 1938, e o rompimento de relações com o Eixo se deu em janeiro de 1942, estabeleci uma janela temporal bem rapidamente. Restava agora dar uma olhada melhor naqueles oficiais...
E olha só que grande surpresa!
A celebridade que se encontra à direita do general alemão é justamente o então Tenente-Coronel Floriano de Lima Brayner – que em 1944 se tornaria o Chefe de Estado-Maior da Força Expedicionária Brasileira – e que comandou o 32º BC em Blumenau de janeiro de 1940 até janeiro de 1941.
Pronto! Eu tinha agora uma janela ainda menor de tempo para datar a fotografia. Mas ainda restava a questão maior: quem era aquele misterioso general alemão? Talvez um adido militar?
Após alguma pesquisa e consulta a alguns amigos, a resposta finalmente apareceu!
Trata-se do Generalmajor Günther Niedenführ.
Tendo sido assessor especial do Comandante do Exército Alemão entre 1934 e 1935, ele passou para a reserva como Oberst em 31 de janeiro daquele ano. Contudo, em outubro de 1935, embarcou para a Argentina como chefe de uma missão militar de cinco oficiais alemães junto ao Estado-Maior do Exército Argentino, onde tornou-se conselheiro militar.
Nesta posição, Niedenführ recebeu a patente de Generalmajor em 1 de maio de 1939, e encerrou sua missão como conselheiro na Argentina em 30 de junho de 1940. Imediatamente, recebeu do OKW a nova missão de ser adido aéreo junto ao governo brasileiro no Rio de Janeiro, função que exerceu até 30 de junho de 1942, quando retornou à Europa. Lá, tornou-se inspetor de uma comissão econômica (Wirtschaftsinspektion Süd) junto ao Grupo de Exércitos Sul na União Soviética.
Generalmajor Günther Niedenführ (centro) e
Ten. Cel. Lima Brayner (direita).
Günther Niedenführ aposentou-se definitivamente em 31 de dezembro de 1942, mas em 1 de julho de 1943 ainda recebeu a promoção a Generalleutnant.
Após a guerra, ele emigrou para a Argentina, vindo a falecer em Vicente López, na região metropolitana de Buenos Aires, em 6 de setembro de 1961, aos 73 anos de idade.
Bom, disso tudo o que podemos concluir?
A foto provavelmente foi tirada no mês de julho de 1940, durante o deslocamento de Niedenführ de Buenos Aires para o Rio de Janeiro. Neste percurso, passou por Blumenau e foi recebido por Lima Brayner na sede do 32º BC.
Vale notar que naquele momento – mais precisamente no fim do mês anterior – os alemães haviam acabado de conquistar a França, e a presença de um oficial-general do Exército Alemão era extremamente prestigiosa. Além do mais, eram altos os indicativos de que a guerra acabaria dentro de pouco tempo, com a invasão da Inglaterra ou assinatura de tratado de paz entre os dois beligerantes.
Ufa, que história interessante existe nesta fotografia!
Sala de Guerra/montedo.com

8 de julho de 2012

História: Hitler protegeu um judeu veterano da Primeira Guerra Mundial

Ernst Hess dirigiu brevemente o regimento do jovem cabo Adolf Hitler em Flandres

Ernst Hess, judeu que foi protegido por Hittler
Foto: Reprodução
Ernst Hess, judeu que foi protegido por Hittler Reprodução
Adolf Hitler interveio pessoalmente para proteger um judeu que havia sido seu oficial durante a Primeira Guerra Mundial, segundo uma carta descoberta pelo jornal alemão “Jewish Voice”. A correspondência, escrita em agosto de 1940 por Heinrich Himmler, chefe do temido grupo paramilitar nazista SS, dizia que Ernst Hess, um juiz, devia ser excluído da perseguição ou da deportação “como parte dos desejos do Führer”.
Hess, um herói condecorado da Primeira Guerra Mundial que dirigiu brevemente a companhia de Hitler em Flandes, trabalhou como juiz até que as leis raciais dos nazistas o obrigaram a se demitir em 1936. No mesmo ano foi ferozmente golpeado por bandidos nazistas nas imediações de sua casa, segundo o jornal. Após o episódio, ele se mudou com a mulher, a protestante Margarete Witte, para a Itália. A cidade escolhida foi Bolzano, de língua alemã, na parte sul da região do Tirol. No início daquele ano, Hess, filho de judeus, enviara uma carta endereçada diretamente a Hitler.
A filha de Hess, Ursula, hoje com 86 anos, conta que a sorte de seu pai foi ter encontrado, por acaso, um outro companheiro da Primeira Guerra, Fritz Wiedemann, que se tornou assessor de Hitler e usou sua influência para obter concessões para Hess. Uma das cartas acabou chegando ao ditador. Em outra, Hess, convertido ao protestantismo, pedia para ser considerado “semi judio”, de acordo com as leis raciais de Nuremberg.
“Para nós é uma espécie de morte espiritual que sejamos marcados como judeus e que sejamos expostos ao desprezo geral”, escreveu então.
Apesar de Hitler ter rejeitado o pedido em 1936, permitiu que Hess continuasse a receber sua pensão mesmo na Itália. Mais tarde, liberou-o da obrigação de passar a carregar o nome “Israel” - que o identificaria como judeu. Por sua boa relação com o então cônsul-geral da Alemanha na Itália, Otto Bene, conseguiu, em 1939, um passaporte que não era marcado com a letra J (de judeu).
Mesmo com os benefícios, Hess e sua família acabaram forçados ainda em 1939 a retornar à Alemanha - sem antes, porém, tentarem uma série de fugas, incluindo para o Brasil, onde já vivia seu irmão. De volta à Alemanha, em agosto de 1940, foi expedida a mensagem de Himmler com a ordem de Hitler.
Acreditando estar protegido, Ernst Hess se mudou com a família para um vilarejo isolado na Baviera. O privilégio, no entanto, lhe foi retirado menos de uma ano depois. Convocado a comparecer ao Escritório de Arianização de Munique, foi comunicado de que a proteção não era mais válida. Para os nazistas, Hess voltava a ser “um judeu como outro qualquer”.

Hitler não tinha amigos em seu regimento
Hess passou o resto da Segunda Guerra num campo de trabalho escravo, mas escapou dos campos de extermínio, em parte, por ter conseguido se casar com uma protestante. Sua irmã, Berta, que acreditava ter os mesmos privilégios de Hess, morreu numa câmara de gás nos campos de Auschwitz. Sua mãe fugiu para a Suíça e, depois, para o Brasil, onde se juntou ao outro filho.
A filha de Hess, Ursula, que continua vivendo na Alemanha, contou em entrevista ao jornal “Jewish Voice” que seu pai obteve os benefícios depois de um encontro casual com Fritz Wiedemann, outro companheiro da Primeira Guerra Mundial.Ursula Hess disse ainda que, segundo o pai, Hitler não tinha amigos em seu regimento e era muito calado na época em que serviu como cabo na Primeira Guerra Mundial. Wiedemann chegou a ser ajudante de Hitler e usou sua influência para conseguir as concessões.
Hess se manteve na Alemanha depois da guerra, convertendo-se em diretor da Autoridade Ferroviária Federal com sede em Frankfurt. Ele preferiu trabalhar na companhia ferroviária a, como juiz, ter de lidar com antigos nazistas. Morreu em 1983.
O Globo/montedo.com

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