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23 de agosto de 2012

Afeganistão: dois mil militares americanos já morreram no conflito

Alta no número de mortes sinaliza mudança no conflito afegão
Sua guerra estava quase encerrada. Ou era isso que Marina Buckley imaginava quando seu filho, o cabo Gregory Buckley Jr., contou a ela que retornaria do sul do Afeganistão à sua base no Havaí com três meses de antecedência.
Mas em lugar disso Buckley se tornou o 1.990º militar norte-americano a morrer na guerra, em 10 de agosto, quando ele e dois outros fuzileiros navais foram mortos a tiros em sua base na província de Helmand por um homem que parece ter sido um integrante da unidade militar afegã que eles estavam treinando.
Uma semana depois, com a morte do especialista James Justice, do exército, em um hospital militar da Alemanha, as forças armadas norte-americanas registraram sua morte número 2.000 no conflito afegão iniciado há quase 11 anos, de acordo com análise do "New York Times" sobre dados do Departamento de Defesa. O cálculo do jornal inclui mortes não só no Afeganistão mas no Paquistão e outros países nos quais forças norte-americanas estão operando como parte do mesmo conflito.
Quase nove anos se passaram para que os Estados Unidos registrassem sua milésima morte na guerra afegã. O segundo milhar foi completado apenas 27 meses mais tarde, o que prova a intensidade dos combates gerados pela decisão do presidente Barack Obama de enviar um reforço de 33 mil soldados ao Afeganistão em 2010.
Buckley, que havia acabado de completar 21 anos quando morreu, é um exemplo típico dos soldados que caíram em combate nesse período de intensificação, de mais maneiras que sua família poderia imaginar. De acordo com a análise do "New York Times", três de cada quatro mortos eram brancos, 90% eram soldados de baixa patente, e 50% deles morreram nas províncias de Kandahar ou Helmand, no sul do Afeganistão, dominado pelo Taleban. A idade média dos soldados mortos era de 26 anos.
Os fuzileiros navais como Buckley respondem por número desproporcional das baixas fatais. Ainda que o exército tenha sofrido mais mortes na guerra, os fuzileiros navais, com um efetivo mais baixo, apresentam incidência de baixas superior. No auge do conflito, em 2010, 0,2% dos fuzileiros navais presentes no Afeganistão morreram em combate, um índice duas vezes superior ao do exército. Das cinco unidades de reforço mais atingidas durante esse período, três eram unidades dos fuzileiros navais.
O maior número de baixas coube ao 3º Batalhão do 5º Regimento de Fuzileiros Navais, cuja base é Camp Pendleton, na Califórnia. A unidades sofreu 25 baixas fatais e teve mais de 180 soldados feridos, muitos dos quais passaram por múltiplas amputações, durante um sangrento período de serviço de sete meses na província de Helmand, iniciado no final de 2010.
A análise também demonstra que as baixas do exército durante o período de combates intensificados se concentraram pesadamente em duas bases cujas tropas costumam ser utilizadas com frequência em serviço fora do país: Fort Campbell, no Kentucky, o quartel da 101ª Divisão Aeroterrestre, a unidade que mais registrou mortes no exército durante o período, e Fort Drum, em Nova York, o quartel da 10ª Divisão de Montanha.
O verão continua a ser a temporada de combate mais intensa, e o período de maior número de baixas para os Estados Unidos foi de julho a setembro de 2010, com pelo menos 143 soldados nortes. E como vem sendo o caso pelo menos desde 2008, dispositivos explosivos improvisados (IEDs) foram a principal causa de baixas ou ferimentos, seguidos por fogo de armas portáteis, de acordo com a análise.
Mas este ano emergiu uma nova ameaça: ataques por afegãos usando o uniforme das forças de segurança de seu país. Nas duas últimas semanas, pelo menos nove norte-americanos foram mortos em ataques como esses, e até agora este ano pelo menos 39 soldados não afegãos, a maioria dos quais norte-americanos, foram mortos por homens que vestiam o uniforme das forças afegãs de segurança - o maior número registrado desde o início da guerra.
Esses ataques por aliados reforçaram a preocupação quanto à capacidade da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) para transferir a responsabilidade pela segurança do país às forças afegãs até 2014, o prazo estipulado por Obama para a retirada das forças norte-americanas remanescentes; Para as famílias, as mortes despertam questões difíceis sobre os esforços do Pentágono para garantir a proteção das tropas norte-americanas contra seus aliados.
Ainda que a guerra do Afeganistão agora seja considerada a mais longa das guerras dos Estados Unidos, com 128 meses, o número de mortos é menos de metade do registrado na guerra do Iraque, que viu 4.480 vítimas fatais em oito anos. No ano passado, mais soldados ativos e de reserva se suicidaram, 278, do que morreram em combate no Afeganistão, 247.
Nada disso conforta as famílias dos mortos. Para os Buckley, de Oceanside, Nova York, a morte do filho tão perto do final de seu período de combate e tão perto do fim de uma longa guerra, e ainda mais por ele ter sido vítima de um suposto aliado, causou sofrimento intenso.
Marina Buckley estava falando sobre as coisas que seu filho amava - basquete, garotas, filmes, praia - e sua voz estava embargada de amargura.
"Nossas forças não deveriam estar lá", disse. "A guerra já deveria ter acabado. Já basta. Chega".

Uma unidade sob pesado ataque
O 3º Batalhão do 5º Regimento de Fuzileiros Navais, de Camp Pendleton, Califórnia, exemplifica bem as forças enviadas ao Afeganistão como parte do reforço determinado por Obama. Em 2010, o batalhão foi transferido a Sangin, o coração da produção de ópio afegã, para enfrentar um inimigo formidável e muito experiente no uso de IEDs, sofrendo a morte de 25 fuzileiros em um período de sete meses, o segundo maior número de baixas entre as unidades militares norte-americanas envolvidas na guerra, de acordo com a análise do "New York Times"
Mark Moyar, analista independente de segurança nacional que estudou as ações do batalhão, disse que os britânicos, que precederam os fuzileiros navais em Sangin, parte da província de Helmand, se concentravam em desenvolvimento econômico e em promover o contato com a população, para solapar a insurgência. Mas o Taleban operava com quase completa impunidade em certas porções do distrito, afirma.
Os fuzileiros navais adotaram abordagem diferente, penetrando as aldeias dominadas pelo Taleban. Os combates foram intensos, e civis muitas vezes se viram apanhados entre os inimigos; as baixas não demoraram a se acumular.
Em 8 de outubro, apenas duas semanas depois da chegada do batalhão, a unidade sofreu sua primeira baixa fatal, o cabo John Sparks. Cinco dias mais tarde, quatro fuzileiros navais do batalhão morreram quando o caminhão blindado que usavam foi destruído por uma poderosa bomba. Outros três morreram no dia seguinte, quando entraram em um campo minado durante uma patrulha a pé.
A sucessão de mortes rápidas fez com que Washington instruísse o batalhão a reduzir a intensidade de suas operações. Mas a liderança dos fuzileiros navais - a começar pelo comandante da unidade, o tenente-coronel Jason Morris - convenceu o secretário da Defesa, Robert Gates, a manter as operações.
"Todo mundo, eu incluído, ficou chocado por termos perdido tantos homens tão rápido", diz Morris. "Mas, honestamente, eu e a maioria dos meus comandados preferíamos voltar para casa mortos a permitir a vitória do Taleban".
Deanna Giles, mãe de um sargento do batalhão, recorda bem aqueles dias. Em meio aos constantes relatórios de baixas, ela começou a prestar atenção à presença de carros desconhecidos no seu bairro, em Kankakee, Illinois, temendo ser a próxima parente a receber notícias horríveis.
Ansiosa por informação e consolo, ela começou a percorrer as salas de chat da Internet e formou elos fortes com outras famílias do batalhão, pessoas a quem nunca havia encontrado em pessoa.
"Você começa a se preocupar com as pessoas de uma maneira que teria sido impossível antes da Internet", diz Giles.
Seu filho, o sargento Caleb Giles, voltou incólume. Mas o cabo Victor Dew, filho de Patty Schumacher, morreu em combate.
Schumacher havia implorado ao filho que adiasse seu alistamento até depois do final da guerra. Quando ele recusou, ela pediu que ele solicitasse um posto em uma unidade de segurança presidencial. Ele uma vez mais respondeu que não, afirmando que pretendia combater na infantaria e participar da guerra.
"Que desânimo aquilo me causou", ela relembra. "Mas também fiquei orgulhosa dele por seguir aquilo que acreditava. Como mãe, você precisa guardar suas emoções, respirar fundo e esperar que tudo corra bem".
No final de agosto de 2010, Drew pediu a namorada em casamento, e um mês depois foi enviado ao Afeganistão. Poucas semanas depois de chegar a Helmand, ele e três outros fuzileiros navais foram mortos por uma poderosa explosão de IED. Com 20 anos de idade, ele se tornou o 1.259º norte-americano a morrer na guerra.
A namorada colocou em seu caixão uma foto dela, usando seu vestido de noiva.
Schumacher tem uma página de Facebook para manter vivas as lembranças do filho, e ocasionalmente faz um brinde a ele no jantar. Ainda chora, também, ainda que seja difícil prever quando chegam as lágrimas, que podem ser causadas por imagens e sons passageiros que trazem à sua memória um sorriso, uma canção, uma piada do filho.
"Quando é que você melhora? Você não melhora", ela diz. "Só aprende a sofrer melhor. Sempre vai haver alguma coisa que deflagra o sofrimento. E você volta à montanha russa emocional".

Ataques por afegãos
O sargento Scott Dickinson voltaria para casa mais cedo. Deveria permanecer em Helmand até novembro de 2012, originalmente, mas o Pentágono havia acelerado o cronograma de retirada dos fuzileiros navais do Afeganistão, com o objetivo de tirar do país o contingente de reforço antes do final do ano, reduzindo a presença norte-americana a 70 mil soldados. Dickinson disse ao pai no começo do mês que estaria de volta ao Havaí dentro de uma ou duas semanas.
Pouco depois dessa conversa, John Dickinson, o pai do sargento, leu sobre um soldado que havia sido morto apenas uma semana antes do final de seu período de serviço. "E eu pensei que ele só estaria em segurança quando chegasse ao Havaí", relembra Dickinson, arquiteto em San Diego.
Ele tinha razão. Dickinson, 29, um especialista em suprimentos que se apresentou como voluntário para ajudar a treinar as forças afegãs, morreu no mesmo ataque que custou a vida de Buckley, em 10 de agosto. Estavam entre os seis fuzileiros navais mortos naquele dia em dois ataques, aparentemente executados por integrantes das forças de segurança afegãs.
O Pentágono afirma que a maior parte desses ataques resulta de desavenças pessoais, e contesta as alegações do Taleban de que seu pessoal está profundamente infiltrado nas forças de segurança.
Mas os ataques também despertaram novas preocupações quanto à integridade das forças afegãs que a Otan espera sejam capazes de proteger todo o país quando suas tropas forem retiradas, em 2014.
Mais fundamentalmente, as mortes continuadas, em um período no qual as forças norte-americanas vêm conduzindo menos missões de combate, levaram militares e seus familiares a imaginar se a década de presença dos Estados Unidos no Afeganistão fez alguma diferença.
Morris, o antigo comandante do 3º Batalhão do 5º Regimento de Fuzileiros Navais, não têm muita dúvida de que sim. Depois de meses de ferozes combates, ele via mudanças claras em Sangin, quando partiu, no começo de 2011. E as mudanças se mantiveram, com os moradores participando de eleições e indo à escola com menos medo da intimidação do Taleban - ainda que a intimidação continue.
"Todos os fuzileiros navais de meu batalhão viam o impacto que tivemos", ele diz. "Isso validou tudo aquilo pelo que se sacrificaram".
A despeito da morte do filho, Dickinson concorda. Marina Buckley não está tão certa.
"Ele era um ser humano adorável, muito sensível", diz ela sobre o filho. "Não sabia esconder seus sentimentos. Bonito, bonito, bonito".
Buckley queria se alistar nos fuzileiros navais desde o 11 de setembro, apesar das muitas tentativas maternas de dissuadi-lo. Na adolescência, ele tinha uma flâmula dos fuzileiros navais em seu quarto, e os esforços da família para que se matriculasse em uma universidade - ele foi aceito pela Adelphi, quando estava no último ano do colegial - não fizeram efeito.
"Eu perguntava por que ele queria servir nos fuzileiros navais", ela conta, e a resposta dele era sempre uma piada: "Dá pra arranjar muita mulher com aquele uniforme, ele dizia".
Mas suas ambições eram sérias. Ele queria servir e depois se tornar policial no condado de Suffolk. E apreciava o senso de irmandade dos fuzileiros navais, assim como sua primeira temporada de serviço, no Havaí. Mas ao ser transferido para o Afeganistão, as coisas mudaram. A solidão, o calor e as rações pré-preparadas logo começaram a pesar, diz Marina Buckley.
E ele jamais se sentiu seguro vivendo entre os afegãos, acrescentou.
"Se eles querem se matar entre eles, deveríamos deixar", ela afirma sobre o povo afegão. "Mas estão matando pessoas que não deveriam morrer, que têm vidas, famílias, irmãos e irmãs aqui".
Jornal Floripa/montedo.com

13 de agosto de 2012

Sucateado, Exército não teria como responder a guerra, dizem generais

Série de reportagens do G1 mostra situação de militares e riscos ao país.
Plano para reequipar tropas, assinado por Lula em 2008, pouco avançou.

Tahiane Stochero
Do G1, em São Paulo

infografico_exercito_END_versaofinal_300 (Foto: Editoria de Arte/G1)

Assinada em 2008, a Estratégia Nacional de Defesa (END) prevê o reaparelhamento das Forças Armadas do país em busca de desenvolvimento e projeção internacional, mirando a conquista de um assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). No entanto, poucas medidas previstas no decreto tiveram avanços desde então.
O Exército, que possui o maior efetivo entre as três Forças (são 203,4 mil militares), está em situação de sucateamento. Segundo relato de generais, há munição disponível para cerca de uma hora de guerra.
O G1 publica, ao longo da semana, uma série de reportagens sobre a situação do Exército brasileiro quatro anos após o decreto da END, assinado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foram ouvidos oficiais e praças das mais diversas patentes - da ativa e da reserva -, além de historiadores, professores e especialistas em segurança e defesa. O balanço mostra o que está previsto e o que já foi feito em relação a fronteiras, defesa cibernética, artilharia antiaérea, proteção da Amazônia, defesa de estruturas estratégicas, ações de segurança pública, desenvolvimento de mísseis, atuação em missões de paz, ações antiterrorismo, entre outros pontos considerados fundamentais pelos militares.
O Exército usa o mesmo fuzil, o FAL, fabricado pela empresa brasileira Imbel, há mais de 45 anos. Por motivos estratégicos, os militares não divulgam o total de fuzis que possuem em seu estoque, mas mais de 120 mil unidades teriam mais de 30 anos de uso.
Carros, barcos e helicópteros são escassos nas bases militares. O índice de obsolescência dos meios de comunicações ultrapassa 92% - sendo que mais de 87% dos equipamentos nem pode mais ser usado, segundo documento do Exército ao qual o G1 teve acesso. Até o início de 2012, as fardas dos soldados recrutas eram importadas da China e desbotavam após poucas lavadas.
A Estratégia Nacional de Defesa elencou entre os pontos-chave a proteção da Amazônia, o controle das fronteiras e o reaparelhamento da tropa, com o objetivo de obter mobilidade e rapidez na resposta a qualquer risco. Defesa cibernética e recuperação da artilharia antiaérea também estão entre os fatores de preocupação.
Um centro de defesa contra ataques virtuais começou a ser instalado pelo Exército em 2010, em Brasília, mas ainda é enxuto e não conseguiu impedir ataques a uma série de páginas do governo durante a Rio+20, em junho deste ano.
O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), iniciativa que busca vigiar mais de 17 mil quilômetros de divisas com 10 países, começará a ser implantado ainda em 2012, com um teste na fronteira do Mato Grosso do Sul com Paraguai e Bolívia.
Segundo o general Walmir Almada Schneider Filho, do Estado-Maior do Exército, a Força criou 245 projetos para tentar atingir os objetivos da Estratégia Nacional de Defesa. Ele afirma que os recursos, porém, chegam aos poucos.
Nos últimos 10 anos, a percentagem do Produto Interno Bruto (PIB) investido em defesa gira em torno de 1,5%, segundo números do Ministério da Defesa - em 2011, o valor foi de R$ 61,787 bilhões. Durante a crise econômica, entre 2003 e 2004, o índice chegou a 1,43%. O maior percentual foi registrado em 2009, quando 1,62% do PIB foram destinados para o setor.
Em 2012, o Exército receberá cerca de R$ 28,018 bilhões, mas 90% serão destinados ao pagamento de pessoal. Desde 2004, varia entre 9% e 10% o montante disponível para custos operacionais e investimentos.
A ideia do ministro da Defesa, Celso Amorim, é elevar gradativamente os gastos com defesa para a média dos demais países dos Brics (Rússia, Índia e China), que é de 2,4%. Segundo afirmou em audiência no Senado, o objetivo é fazer o Brasil ter maior peso no cenário internacional.
“Nós perdemos nossa capacidade operacional, sabemos dessa defasagem. A obsolescência é grande. Por isso, um dos nossos projetos busca a recuperação da capacidade operacional. Até 2015, devemos receber R$ 10 bilhões só para isso”, afirma o general Schneider Filho, responsável pelos estudos da END no Estado-Maior do Exército.

"Posso lhe afirmar que possuímos munição para menos de uma hora de combate"General Maynard Santa Rosa
Falta munição
Dois generais da alta cúpula, que passaram para a reserva recentemente, afirmaram ao G1 que o Brasil não tem condições de reagir a uma guerra. “Posso lhe afirmar que possuímos munição para menos de uma hora de combate”, diz o general Maynard Marques de Santa Rosa, ex-secretário de Política, Estratégia e Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa.
exercito_especial_soldado_barco_300 (Foto: Tahiane Stochero/G1)
Guerreiro de selva patrulha rio na Amazônia durante
ação militar em 2012 (Foto: Tahiane Stochero/G1)
“A quantidade de munição que temos sempre foi a mínima. Ela quase não existe, principalmente para pistolas e fuzis. Nossa artilharia, carros de combate e grande parte do armamento foram comprados nas décadas de 70, 80. Existe uma ideia errada de que não há ameaça. Mas se ela surgir, não vai dar tempo de atingir a capacidade para reagir”, alerta o general Carlos Alberto Pinto Silva, ex-chefe do Comando de Operações Terrestres (Coter), que coordena todas as tropas do país.
“Nos últimos anos, o Exército só tem conseguido adquirir o mínimo de munição para a instrução. Os sistemas de guerra eletrônica (rádio, internet e celular), a artilharia e os blindados são de geração tecnológica superada. Mais de 120 mil fuzis têm mais de 30 anos de uso. Não há recursos de custeio suficientes”, diz Santa Rosa. Ele deixou o Exército em fevereiro de 2010, demitido por Lula após chamar a Comissão da Verdade, que investiga casos de desaparecidos políticos na Ditadura, de “comissão da calúnia”.
"Nós perdemos nossa capacidade operacional, sabemos dessa defasagem. A obsolescência é grande"
General Walmir Almada Schneider Filho
Segundo o Livro Branco, documento que reúne dados sobre a defesa nacional, o Exército possui 71.791 veículos blindados, a maioria deles comprados há mais de 30 anos. Apenas um é do modelo novo, o Guarani, entregue em 2012 e que ainda está em avaliação. Um contrato inicial de R$ 41 milhões foi fechado para a aquisição dos primeiros 16 novos carros de combate. No último dia 7, um novo contrato foi assinado para a aquisição de outras 86 viaturas Guarani, ao custo de R$ 240 milhões.
"Nenhuma nação pode abrir mão de ter um Exército forte, que se prepara intensivamente para algo que espera que nunca ocorra. A população tem que entender que é preciso ter essa capacidade ociosa, sempre, para estar pronto para dar uma resposta se um dia for necessário", defende o general Fernando Vasconcellos Pereira, diretor do Departamento de Educação e Cultura do Exército.

Riscos e ameaças
Para saber quais equipamentos, tecnologias e armas precisam ser compradas e que outras mudanças são necessárias, o Exército criou o Grupo Lins, que reúne uma equipe para prever cenários de conflitos ou crises - internos ou externos - em que a sociedade e os políticos possam exigir a atuação dos militares até 2030.
O objetivo é antever problemas, sejam econômicos, sociais, de segurança pública ou de calamidade, e saber quais treinamentos devem ser dados aos soldados até lá.
Nesses cenários, a Amazônia e as fronteiras estão entre as maiores preocupações. O texto revisado da Estratégia Nacional de Defesa, entregue pelo governo ao Congresso Nacional em 17 de julho, destaca "a ameaça de forças militares muito superiores na região amazônica”.
"Difícil – e necessário – é para um país que pouco trato teve com guerras convencer-se da necessidade de defender-se para poder construir-se"Trecho da Estratégia Nacional de Defesa
Para impedir qualquer ataque, o Exército prepara o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), que, através de um conjunto de sensores, radares e câmeras, permitirá a visualização de tudo o que ocorre nas fronteiras em tempo real. Os equipamentos facilitarão a repressão ao tráfico de drogas e armas, ao contrabando e aos crimes ambientais. A previsão é de que o sistema esteja totalmente operando em 2024.
O alto valor que o governo pretende passar para o Sisfron - R$ 12 bilhões até 2030 – movimentou o mercado nacional e fez com que empresas se unissem buscando soluções para vencer a licitação em andamento. Entre as interessadas estão Odebrecht, Andrade Gutierrez e Embraer, que fizeram parcerias com grandes indústrias do setor.
Para o historiador e criador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Geraldo Cavanhari, o Exército está em transformação e precisa se adequar para os inimigos do futuro. “O inimigo, seja interno ou externo, agora está extremamente bem armado. Por enquanto, não temos ameaças explícitas, mas temos que cuidar da nossa casa e estar preparados para responder, caso seja necessário”.
O general da reserva Carlos Alberto Pinto Silva diz que o problema continua sendo o orçamento. "Um coronel argentino me disse que eles aprenderam na guerra nas Malvinas que, se não existe a capacidade mínima de responder, não dá tempo para adquirir. Não adianta chorar depois”, afirma.

Mudança de percepção
Estudioso da área, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ronaldo Fiani entende que a abertura democrática e a criação do Mercosul provocaram mudanças na forma da população conceber a proteção do país, Consequentemente, foram feitos cortes nos investimentos militares. “O fim da ditadura e a união dos países latinos fez com que houvesse enfoque em integração, com diminuição do investimento na área militar", explica.
Burocracia, crises financeiras e déficit fiscal também são entraves para maior disponibilidade de recursos. “A única forma dos militares receberem mais investimentos é se integrando à pesquisa acadêmica e às empresas, como ocorre nos países desenvolvidos", diz Fiani.
O general Walmir Almada Schneider Filho concorda com o professor. “No primeiro mundo, o povo tem a mentalidade de que defesa e desenvolvimento caminham juntos e complementam-se. Um impulsiona o outro. Nós não queremos chegar neste patamar [de país voltado para a guerra], mas criar uma mentalidade de defesa, para que o povo discuta o assunto", diz.
"A base da defesa nacional é a identificação da Nação com as Forças Armadas e das Forças Armadas com a Nação. Isso exige que a Nação compreenda serem inseparáveis as causas do desenvolvimento e da defesa"
Trecho da Estratégia Nacional de Defesa
“Eu acho que a redução dos investimentos tem relação com o período militar e a própria mentalidade da população, que vê como melhor alternativa aplicar os recursos em outro setor fundamental, como saúde, educação, etc", acrescenta Schneider Filho.
"Não há um palmo sobre o território brasileiro que não esteja sob a responsabilidade de uma tropa do Exército. Somos a organização mais presente em todo o território e que tem meios de chegar o quanto antes em qualquer situação. Por isso, assumimos cada vez mais responsabilidades e temos que ter capacidade para atuar em situações de emergência”, diz o general José Fernando Yasbech, também do Estado-Maior do Exército.
Yasbech se refere aos múltiplos empregos do Exército em ações civis dentro do país, como as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), como a Constituição determina o emprego militar em casos graves de segurança pública. Além disso, o militares são convocados para o apoio em caso de enchentes, abertura de estradas, construção de pontes, distribuição de ajuda humanitária, apoio em eleições, combate à dengue e à aftosa, entre outros.

Proteger
Em 2012, mais uma linha de atuação está sendo aberta: os militares serão responsáveis pela defesa e proteção de infraestruturas estratégicas do país, como hidrelétricas, usinas nucleares, indústrias essenciais e centros financeiros e de telecomunicações a partir da criação do projeto Proteger. O programa terá recursos na casa dos R$ 9,6 bilhões e reunirá órgãos públicos dos estados e informações necessárias para prevenir, conter ou reprimir ataques ou acidentes nesses locais.
"Se o Brasil quiser ocupar o lugar que lhe cabe no mundo, precisará estar preparado para defender-se não somente das agressões, mas também das ameaças"Trecho da Estratégia Nacional de Defesa
São mais de seis mil infraestruturas estratégicas existentes no país, sendo que 364 estão entre as mais críticas, conforme levantamento do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República.
"O trabalho será tanto no sentido de prevenir acidentes nessas estruturas como também de identificar riscos e, eventualmente, contê-los", diz o general José Fernando Yasbech, que responde pelo projeto.
exercito_especial_cabana_cancela_300 (Foto: Tahiane Stochero/G1)
Pelotão de fronteira no Pará conta com apenas 9
horas diárias de luz (Foto: Tahiane Stochero/G1)
O trabalho começará no Paraná, com a implementação de um centro de ação conjunta com polícia, Bombeiros e Defesa Civil para defender a Usina de Itaipu.
“O reaparelhamento das Forças Armadas vai além de apenas dizer que um país pacifista está tomando uma atitude de se tornar mais bélico. O emprego dos militares tem sido bem diferente nos últimos anos, seja em ações de defesa civil, de segurança pública, de apoio aos órgãos estaduais. E isso demanda alterações estruturais profundas na política, na mentalidade da população e em investimentos”, diz Iberê Pinheiro Filho, mestre em Relações Internacionais e estudioso da Estratégia Nacional de Defesa.
Procurado para comentar a atual situação do Exército, o ex-ministro de Assuntos Estratégicos Roberto Mangabeira Unger, que escreveu o texto da Estratégia Nacional de Defesa, disse que se considerava "moralmente impedido de falar" devido à "relação íntima e especial com as ações e tarefas de que tratará a reportagem".
"Direi apenas o que escrevi na dedicatória de um livro que dei à biblioteca do Exército, por mãos do general que a comanda: o Exército brasileiro é a mais importante instituição do Brasil", afirmou Mangabeira Unger ao G1.
Já o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim, que também assinou a END em 2008, disse que não iria comentar a situação, pois não ocupa mais o cargo.
G1/montedo.com

Brasil só tem munição para uma hora de guerra, diz general

Brasil só tem munições para uma hora de guerra
Exército sem capacidade de resposta, alertam generais

O Brasil só tem munições para uma hora de guerra, segundo uma reportagem da Globo, divulgada nesta segunda-feira. Desde 2008, então com Lula da Silva no poder, a situação militar pouco evoluiu, mesmo depois de assinado um plano de Estratégia Nacional de Defesa (END), que previa o reequipamento das Forças Armadas, visando, simultaneamente, o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
O Exército, que possui o maior efetivo entre as três forças (203 mil militares), está em situação de degradação, com munições disponíveis para apenas uma hora de guerra, segundo relato dos generais.
Este braço armado, por exemplo, usa a mesma espingarda automática, o FAL (Fuzil Automático Leve), há mais de 45 anos. Por motivos estratégicos, os militares não divulgam o total em stock, mas mais de 120 mil unidades terão mais de três décadas de uso.
Carros, barcos e helicópteros são, também, escassos nas bases militares. O nível de obsolescência dos meios de comunicações ultrapassa os 92 por cento, sendo que mais de 87 por cento dos equipamentos nem pode ser mais usado, segundo um documento a que a Globo teve acesso.
E nem a roupa escapa. Até ao início de 2012, as fardas dos recrutas eram importadas da China e desbotavam após poucas lavagens.
A Estratégia Nacional de Defesa considera prioritárias a proteção da Amazónia, o controlo das fronteiras e o reequipamento das tropas, no sentido de garantir mobilidade e rapidez na resposta a qualquer risco, mas a defesa cibernética e recuperação da artilha antiaérea também estão entre as principais preocupações.
Mas apenas este ano vai ser testado o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), que visa vigiar mais de 17 mil quilómetros de fronteiras com dez países. O teste ocorrerá na fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai e Bolívia.
O ministro da Defesa, Celso Amorim, já disse que quer elevar gradualmente os gastos com defesa para a média dos demais países do Brics (Rússia, Índia e China), que é de 2,4%, de modo a que o Brasil possa ter maior peso no cenário internacional.
«Perdemos a nossa capacidade operacional e a obsolescência é grande. Por isso, um dos nossos projetos visa a recuperação da capacidade operacional. Até 2015, deveremos receber 10 biliões de reais só para isso [quatro mil milhões de euros», revelou o general Schneider Filho, responsável pelos estudos da END no Estado-Maior do Exército.
Relativamente às munições, o general Maynard Marques de Santa Rosa, ex-secretário de Política, Estratégia e Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa, e que passou recentemente à reserva, garantiu que o Brasil «possui munições para menos de uma hora de combate».
«A quantidade que temos sempre foi a mínima. Ela quase não existe, principalmente para pistolas e espingardas automáticas. Os carros de combate e grande parte do armamento foram comprados nas décadas de 70, 80. Existe uma ideia errada de que não há ameaça. Mas se ela surgir, não teremos tempo para reagir», alertou o general Carlos Alberto Pinto Silva, ex-chefe do Comando de Operações Terrestres (Coter), que coordena todas as tropas do país.
«Nos últimos anos, o Exército só tem conseguido adquirir o mínimo de munição para a instrução. Os sistemas de guerra eletrónica (rádio, Internet e celular), a artilharia e os blindados são de geração tecnológica superada. Mais de 120 mil espingardas automáticas têm mais de 30 anos de uso. Não há recursos suficientes», defendeu Santa Rosa.
tvi24 (Portugal)/montedo.com

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