
A diferença entre a enxurrada de escândalos que faz a fama do governo Lula e o que aconteceu em governos anteriores é que as tantas negociatas e trapalhadas do passado não chegavam ao conhecimento público. Agora, saem na imprensa. E como saem.
A opinião não é de um petista, nem mesmo de um eleitor de Lula. É do último chefe vivo do antigo e poderosíssimo Serviço Nacional de Informações, o SNI — o general
Ivan de Souza Mendes, militar que participou ativamente do regime instalado no país em 1964.
O ex-chefe do
Serviço não se espanta com o noticiário das traquinagens petistas. “São coisas terríveis, mas elas sempre existiram”, garante. O que espanta é a apreciação que ele faz da gestão petista. “Lula surpreendeu e fez um bom governo”, afirma. Com uma ressalva: “Não que eu esperasse muita coisa, mas é inegável que o país não degringolou em suas mãos”. Souza Mendes votou em Lula, no segundo turno, em 2002. Mas no próximo domingo, dia 29, anuncia que votará em Geraldo Alckmin.
Como especialista em inteligência, o general observa que Lula descuidou dos serviços de informações — o que poderia poupá-lo de situações ridículas, como a do
dossiê Vedoin. “Em vez de profissionais corretos, preocupados com o Estado, o presidente parece ter-se cercado de gente ordinária: mais atrapalham que ajudam.”
Embora note que o ambiente mudou, Souza Mendes, chama a atenção para o fato de que os protagonistas da vida política continuam os mesmos. “O Congresso sempre foi isso que está aí — e é impossível governar sem fazer barganhas”, diz, ressalvando que “a questão está em administrar o grau dessas barganhas”. No caso do mensalão, por exemplo, o que aconteceu “passou longe do que se pode considerar tolerável”.
Ao tempo em que serviu o governo José Sarney no Planalto, de março de 1985 a março de 1990, o general era implacável no papel de olhos e ouvidos do presidente. Nesse período, ele mesmo admite hoje, foi preciso enfrentar e bloquear encrencas parecidas com as do governo Lula. Indagado se chegou a impedir aproximações ou nomeações de pessoas com passado duvidoso ou comprometedor, disse que isso fazia parte da rotina. Lembra que teve “vários casos desses” em mãos, mas que a decisão sempre era de Sarney. “Decidir certo ou errado é prerrogativa do presidente. O que ele não pode é dizer depois que não sabia.”
O último homem forte da comunidade de informações no Brasil não aceita o argumento de que Lula só tenha tomado conhecimento das operações de compra de apoio parlamentar — o mensalão — envolvendo integrantes do seu partido e do governo pelos jornais. “Isso não é possível”, afirmou, sem preocupação de disfarçar o sorriso.
Aos 84 anos de idade, o general Ivan vive com sua mulher, Maria Stella, em um apartamento de três quartos, próximo à Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Sua alegria são os oito netos e netas que lhe foram presenteadas por suas filhas Leila, Sônia e Márcia e suas duas bisnetas, os xodós da vez.
A entrevista que se segue foi feita em duas rodadas. Da primeira participou o jornalista
Robson Pereira, no Rio de Janeiro. A segunda parte foi complementada no último final de semana, por telefone.
A seguir, os principais pontos da entrevista
ConJur — Como o senhor avalia o governo Lula?
General Ivan — Ele superou minhas expectativas. Mas é preciso dizer que elas não eram tão grandes assim (risos).
ConJur — Como assim?
General Ivan — Esperava-se um desastre. E não foi. Estou admirado como ele conseguiu dar uma certa respeitabilidade ao governo. O começo foi muito difícil e as perspectivas eram as piores possíveis. Mas depois deu para perceber que era um governo sério. O que faltava ao Lula, basicamente, era competência. Faltava-lhe estofo. O curioso é que ele falhou na ética, onde era bom e acertou na economia, onde era mal.
ConJur — Por que o senhor acha que ocorreu isso?
General Ivan — É simples: ele acertou com os conselheiros econômicos e errou com os conselheiros políticos. É preciso reconhecer que ele é inteligente. Para a pouca cultura que tem, mostrou-se competente. Conseguiu prestígio internacional e respeito dos chefes de Estado do mundo todo. Notou que o Hugo Chaves era um bobalhão e retraiu-se, o que foi bom. No aspecto eleitoral, soube cuidar do rebanho para garantir a reeleição. E já se pode considerar reeleito.
ConJur — O senhor se surpreende com tantas denúncias de corrupção?
General Ivan — Nem um pouco....
ConJur — Mas são tantos escândalos...
General Ivan — Essas coisas que estão ocorrendo aí são terríveis, mas elas sempre existiram. Políticos envolvidos com dinheiro sempre houve... É quase a mesma coisa que havia lá atrás, por baixo dos panos. Acho que agora aparece mais, mas o Congresso sempre foi mais ou menos assim....
ConJur — Por que isso ocorre?
General Ivan — O político é sempre imediatista. A preocupação do político é sobreviver politicamente. Então, paga o preço que for preciso. Não me surpreendo com isso, nem me surpreendem essas coisas. São coerentes com o comportamento dos políticos.
ConJur — O senhor acha possível que episódios como o mensalão não tenham chegado antes ao conhecimento do presidente Lula?
General Ivan — Não é possível não. A maioria das coisas o presidente deveria saber. Os instrumentos para ele saber existem, mas o político gosta muito de ajeitar as coisas. O presidente deve cercar-se de profissionais. Pessoas corretas. Comprometidas com o Estado, não com facções.
ConJur — O senhor é otimista em relação ao futuro do país?
General Ivan — É lógico que sim. Apesar de tudo, estamos caminhando para frente. Devagar e às vezes até dando alguns passos para trás, mas estamos avançando.
ConJur — Como o senhor vê o festival de indenizações para pessoas que dizem ter sido vítimas de perseguição política e já garantiram cerca de R$ 3 bilhões do governo sem precisar ir à Justiça?
General Ivan — Não se pode fazer pouco caso da dor alheia e é preciso respeitar direitos. Mas o que estamos testemunhando, na maior parte dos casos, é
marmelada. Uma coisa vergonhosa. Gente de má-fé aproveitando para tirar o pé da lama. Beira o estelionato. É indecente.
ConJur — Como o senhor chegou ao SNI?
General Ivan — Fui convidado pelo Tancredo Neves. Acho que foi coisa do Leônidas
[Pires Gonçalves, ministro do Exército], que tinha mais intimidade com ele. Depois, quando o Tancredo morreu fui ao Sarney e disse que o cargo estava em suas mãos. Para ele ficar à vontade... Mas ele insistiu que eu ficasse e fiquei até o fim do seu mandato. Não recebi de bom grado o cargo de chefe do SNI, mas era uma missão.
ConJur — Como era o seu relacionamento com o presidente José Sarney?
General Ivan — Sarney era muito político. Inteligente e experiente em matéria de política e estava numa função importante. Eu já encontrei no SNI uma rotina, implementada pelo Octavio
[Medeiros]. O chefe do SNI falava com o presidente quatro vezes por dia . De manhã, quando ele chegava; depois quando ele saia para almoçar, quando voltava do almoço e quando ia embora. Eu tinha contato com o Sarney constante. Transmitia para ele certas coisas e respondia o que ele queria saber. Nunca tive maiores problemas nesse relacionamento.
ConJur — Naquela época o senhor chegou a impedir a nomeação de alguém com passado duvidoso ou comprometedor?
General Ivan — Eu falava abertamente o que sabia e transmitia as informações ao presidente sempre de forma direta e objetiva. Tive vários casos desses. Eu falava: presidente, não posso nem quero vetar ninguém, mas não posso deixar de dizer ou mostrar certas coisas. O Sarney não era famoso pela firmeza, mas nunca tive problemas com ele. Eu dizia “isso não deve ser feito”, mas respeitava, evidentemente, a decisão dele. E como ele também respeitava o que eu dizia, passou a ter confiança em mim, tanto que fiquei com ele durante todo o governo. Acho que ajudei muito naquela transição. Eu não tinha intenção de fazer política. Fiz apenas o que achava que deveria ser feito.
ConJur — O senhor acompanha a política atual?
General Ivan — Leio os jornais todos os dias. Leio tudo, do começo ao fim.
ConJur — Em quem o senhor votou nas eleições passadas?
General Ivan — Votei no Lula, no segundo turno. Só votaria de novo se fosse para impedir a vitória de um pilantra qualquer. Mas como Geraldo Alckmin é um bom candidato, uma pessoa preparada que fez um bom governo em São Paulo, vou votar nele.
ConJur — O senhor chegou a participar de um encontro com o então candidato Lula na campanha de 2002, em um almoço no Rio, junto com outros generais quatro-estrelas...
General Ivan — Estivemos com ele, mas não houve nada relevante neste encontro. Ele levou tudo escrito. Leu a maior parte do tempo e foi muito ponderado. Bobo ele não é. Tanto é assim que virou presidente e o país não pegou fogo.
ConJur — O senhor conheceu o José Genoino?
General Ivan — Bem mais tarde. E tenho respeito por ele. Foi guerrilheiro e arriscou a própria pele.
ConJur — O senhor guarda documentos daquela época?
General Ivan — Nenhum. Quando terminou o governo entreguei todos os documentos à agência central do SNI. Cheguei lá e disse: a documentação em meu poder é esta aqui. Não fiquei com nada, apenas o que estava na minha cabeça. Podia ter ficado com muita coisa, mas não fiquei. Leia
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