Paulo Diniz - Professor de História
Muito tem sido feito, ao longo de décadas, para exorcizar o fantasma do nazismo. Assim, filmes, livros, peças de teatro, etc., foram produzidos em quantidade praticamente incalculável, demonstrando os horrores, a violência e a brutalidade do regime dirigido por Adolf Hitler.
Porém, seria interessante lembrar um aspecto há muito tempo omitido pelos formadores de opinião: qual o papel do regime comunista soviético numa das maiores tragédias da história da humanidade, a Segunda Guerra Mundial?
Esse assunto tem sido convenientemente esquecido, em grande parte, por problemas de ordem ideológica. Afinal, a maior fatia da mídia é de esquerda, e não seria de se esperar que o comunismo fosse devidamente associado ao nazismo. Por outro lado, com alguma freqüência é possível ler notícias do tipo “ex-nazistas serviram aos norte-americanos durante a Guerra Fria”, ou então “Inglaterra planejou atacar a URSS logo após o final da Segunda Guerra Mundial”, sempre procurando criar algum tipo de vinculação entre os norte-americanos e britânicos e o nazismo. Contudo, nunca é escrita nem uma linha sequer com notícias semelhantes envolvendo a URSS, ela sim o verdadeiro capanga do grotesco regime nazista. Ao contrário. Em uma matéria publicada no jornal paulista “Diário de São Paulo”, no mês de dezembro de 2001, a professora da USP Maria José de Aquino foi entrevistada, e era possível perceber a sua “indulgência” em relação à antiga URSS (a matéria abordava os dez anos do fim do regime comunista soviético). Em determinado ponto, a professora afirmava que “ninguém está sendo pró-Rússia, mas pelo menos havia um equilíbrio de poder com os Estados Unidos”. A ilustre professora só se esqueceu de falar sobre o horrendo e assassino regime que governou a Rússia no auge dos tempos do “equilíbrio de poder” ao qual ela se referia.
São declarações como esta que tornam mais fácil entender porque as pessoas comuns dificilmente terão acesso a algum tipo de informação sobre o cínico colaboracionismo existente entre nazismo e comunismo no período pré-guerra, e compreender, por exemplo, as reais implicações do pacto de não-agressão soviético-alemão firmado em 1939, que possibilitou o início da carnificina. O fato de a Polônia ter sido invadida não apenas pelos alemães, mas também pelos soviéticos, é muitas vezes omitido. A brutalidade da ocupação soviética na Polônia, com massacres de prisioneiros militares e civis (dos quais o episódio de Katyn é só o mais conhecido, mas está longe de ser o único), a repressão política e a coletivização forçada, são envolvidos num véu de silêncio. A permissão contida no pacto para que os comunistas soviéticos ocupassem os países bálticos, que já haviam sido alvo de terríveis atrocidades durante tentativa de ocupação comunista, após a revolução bolchevique em 1919, também é ignorada. O mesmo ocorre com a invasão da Finlândia pelo Exército Vermelho, em 1939-1940. A cooperação existente entre os dois regimes totalitários foi intensa nesse período, demonstrando as imensas semelhanças que existiam entre as duas ideologias. Essa situação, por si só, já seria mais do que suficiente para tornar pelo menos estranha a classificação do regime de Adolf Hitler como uma ditadura de “extrema-direita”. No máximo, pode-se afirmar que o nazismo era um regime socialista (o próprio nome do partido era nacional-socialista) que se servia, e muito bem, de instrumentos do conservadorismo alemão, como Forças Armadas altamente treinadas, para atingir objetivos que eram essencialmente iguais aos do comunismo soviético. Entre as semelhanças, pode-se destacar: presença maciça do estado na economia; culto ao líder máximo; censura; repressão política e religiosa; objetivos expansionistas, política de fome como instrumento de controle político, massacre de reféns.
A liderança do partido nazista tinha em seu meio vários homens que eram simpatizantes do regime soviético, que incentivariam Hitler a buscar a paz em separado com a URSS durante grande parte da guerra.
O Ministro da Propaganda alemão, Joseph Goebbels, por exemplo, defendia constantemente a idéia de um compromisso com os soviéticos, inclusive, admirando os meios de repressão utilizados pelos comunistas, no que era acompanhado por Heinrich Himler, chefe da Gestapo, e “fã” dos métodos da NKVD, a polícia secreta soviética. Em 1944, outro exemplo: Goebbels anotaria em seu diário, com inveja, como os soviéticos, com apenas quatro divisões da NKVD, conseguiam controlar toda a Romênia. O ministro das relações exteriores nazista, von Ribentropp, sempre fora contrário a uma invasão da URSS, preferindo atacar a Inglaterra. Em suas origens, o partido nazista era controlado por homens de esquerda, anticapitalistas e antiocidentais, cujos objetivos eram parte de um projeto nitidamente esquerdista. O líder das S.A., Ernest Rohn, era violentamente antiburguês, desejando eliminar o exército regular alemão e criar um “exército revolucionário”. Hitler, que além de frio assassino, era também um grande oportunista que estava decidido a conquistar o poder, freou essa corrente, pois necessitava do apoio dos militares alemães, então seriamente preocupados com as ações comunistas na Alemanha, além de desejarem livrar o país do Tratado de Versalhes. Contudo, o ditador não pensaria duas vezes, durante a guerra, em entrar em constante conflito com seus comandantes, sempre desprezando suas sugestões, e nos meses finais da guerra mandaria assassinar vários oficiais envolvidos ou não, num complô contra sua vida. Nessa ocasião, Hitler elogiaria Stálin pela forma como este tratara seu próprio estado maior, nos anos 30, cometendo um imenso massacre, lamentando não ter “seguido seu exemplo”.
Quando da ocupação de parte do território soviético pelas tropas alemãs, Hitler e seus capangas nazistas recusaram-se a eliminar um dos tradicionais instrumentos de controle soviético, as fazendas coletivas, sobretudo na Ucrânia. Isso levou grande parte da população ucraniana, esperançosa de ser libertada dos horrores do comunismo, à conclusão que os nazistas não eram diferentes dos bolcheviques.
Após o ataque alemão à URSS, vamos assistir não apenas a maior guerra da História, mas também a mais violenta e sanguinária. O terrorismo soviético, que já havia sido utilizado durante o período de guerra civil, entre 1918 e 1922, e que se fizera presente em várias ações na Europa durante as décadas de 20 e 30, ressurgiu de forma avassaladora, voltando-se contra os atacantes alemães e contra a própria população russa.
As atrocidades cometidas pelos guerrilheiros comunistas soviéticos são inumeráveis e dariam para escrever um livro de horror. Não apenas na URSS os guerrilheiros soviéticos atuavam, mas também penetravam no território da Polônia, onde voltavam suas atividades contra a população civil polonesa, esmagadoramente católica e anticomunista.
Tendo como excelente desculpa as inúmeras atrocidades cometidas pelos guerrilheiros comunistas, a repressão alemã, seguindo os padrões de brutalidade nazista, reagia de forma indiscriminada, fuzilando ou enforcando civis e incendiando aldeias. Apesar da violência nazista ser muito grande, é bem provável que os guerrilheiros comunistas tenham matado tantos civis russos, ucranianos e bielo-russos, quanto os alemães.
O morticínio de prisioneiros de guerra também foi característica comum entre os nazistas e comunistas. Do lado alemão, dos 5,5 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos capturados, cerca de 3 milhões morreram. Muitos deles — uma parte considerável — pereceram após ter sido libertados pelos aliados ocidentais, pois ao ser repatriados para a URSS, foram encarcerados pelos comunistas e tratados como “traidores” e “espiões em potencial”. Os prisioneiros alemães capturados, cuja soma variava de 3 a 4 milhões, sofreram aproximadamente 2 milhões de mortos. Do número total de prisioneiros alemães capturados, a maior parte foi internada nos campos de prisioneiros soviéticos após o final da guerra, uma vez que relativamente poucos prisioneiros foram capturados ao longo dos anos de 1941-44 e, dos que foram presos nesse período, a maior parte pereceu. Destino semelhante aguardou os prisioneiros italianos e japoneses capturados pelos comunistas. Dessa forma, dos cerca de 60 mil italianos capturados entre 1942-43 pelos soviéticos, apenas 12 mil foram repatriados com o fim da guerra, e dos aproximadamente 500 mil japoneses capturados durante a invasão da China e da Coréia pelo Exército Vermelho, em agosto-setembro de 1945, somente 90 mil estavam vivos em 1949.