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18 de outubro de 2011

TENENTE DO EXÉRCITO ENVOLVIDO EM MORTES NO MORRO DA PROVIDÊNCIA VIRA DESERTOR

Militar envolvido em mortes na Providência está foragido, diz Exército
Tenente não se apresentou em sua unidade, diz Comando Militar do Leste.
Três jovens moradores do local foram mortos no Morro da Mineira, em 2008.
Crime aconteceu em 2008, no Morro da Providência
O tenente do Exército Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade, suspeito de participar do homicídio de três jovens moradores do Morro da Providência, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, é considerado fugitivo da Justiça Militar e desertor. O militar não se apresentou em sua unidade desde a expedição do mandado de prisão da Justiça Militar e é considerado foragido desde 24 de setembro. As informações são do Comando Militar do Leste (CML).
O tenente responde a dois processos, um na Justiça Militar, por Recusa e Desobediência, e outro na Justiça Federal, por homicídio qualificado.
Na Justiça Militar, ele foi condenado a um ano de prisão, mas recorreu da decisão. A solicitação foi negada e foi expedido um mandado de prisão do tenente.
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MORTES NO MORRO DA PROVIDÊNCIA: TENENTE E SARGENTO SÃO SOLTOS
Processo ainda tramita na Justiça Federal
O desembargador federal Abel Gomes, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, determinou que o tenente e outro militar suspeito de envolvimento no caso voltassem para a prisão. Os dois haviam sido soltos no dia 24 de agosto. O processo criminal ainda tramita na Justiça Federal de primeiro grau. A informação foi confirmada pelo tribunal.
O crime ocorreu em 2008, quando os jovens teriam sido entregues a traficantes do Morro da Mineira, de uma facção rival à da Providência.
Na decisão, o desembargador Abel Gomes destacou que a Constituição Federal considera crime inafiançável "a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem".
Na época do crime, os militares atuavam no Morro da Providência fazendo a segurança das obras do Projeto Cimento Social, do Governo federal e tiveram a prisão temporária decretada no dia seguinte ao crime.
G1

21 de fevereiro de 2014

Justiça anula júri que absolveu sargento do Exército de mortes no morro da Providência

Rio de Janeiro
MP Federal anula júri que absolveu militar acusado de matar jovens no Rio
Procurador da República apontou contradições nas respostas dos jurados e, em decisão rara, obteve da Justiça ordem para realização de novo julgamento. Sargento é um dos onze acusados de matar jovens no Morro da Providência
Teleférico do Morro da Providência, Rio de Janeiro
Teleférico do Morro da Providência, Rio de Janeiro (Ale Silva/Futurapress)
O Ministério Público Federal (MPF) conseguiu anular o júri que absolveu o sargento do Exército Leandro Maia Bueno, um dos onze acusados da morte de três jovens moradores do Morro da Providência, em 2008. Bueno foi inocentado por um júri em 2012. No entanto, o procurador regional da República Rogério Nascimento argumentou, em recurso ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2), que a absolvição não se justifica.
A 2ª turma especializada do TRF2 acolheu o recurso por unanimidade. Nascimento detalhou três razões para convocação de novo júri: contradição entre as séries de quesitos (questões do juiz para os jurados darem conclusões); contradição na última série de quesitos (uma para cada morte); e a decisão contrária aos autos, que provam o dolo eventual na conduta do réu. Bueno, agora, será julgado novamente por outros jurados.
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Apesar de os três homicídios terem sido cometidos em circunstâncias e modos iguais, o conselho de sentença respondeu de forma diferente para cada um deles. “A anulação do primeiro julgamento restabelece a esperança de se fazer justiça à memória dos três rapazes cruelmente entregues à morte por pessoas que deveriam cuidar da paz e da segurança de todos nós", afirma o procurador, em nota divulgada pela Procuradoria Regional da República no Rio.
Onze militares são acusados da morte dos jovens David Wilson da Silva, Marcos Paulo Campos e Wellington Gonzaga Ferreira, moradores do Morro da Mineira. Os três foram levados, numa espécie de “castigo” por supostamente terem desrespeitado os militares para bandidos de uma favela controlada por bandidos rivais aos criminosos daquele morro. O Exército fazia vigilância durante as obras do projeto federal Cimento Social, de autoria do então senador Marcelo Crivella. O MPF denunciou onze militares. A 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro decidiu que o sargento Maia e o tenente Vinicius Ghidetti seriam levados ao tribunal de júri federal, ao contrário dos outros réus. Em 2012, o processo foi suspenso para Ghidetti, que obteve decisão favorável depois de alegar insanidade mental. Bueno foi absolvido pelo corpo de jurados em sentença de agosto daquele ano.
Veja/montedo.com

26 de junho de 2011

PROVIDÊNCIA: SOFRIMENTO DE TRÊS ANOS À ESPERA POR JUSTIÇA

Nem pensão de um salário mínimo é paga às famílias de jovens entregues ao tráfico
FELIPE FREIRE
Na entrada da casa, no Morro da Providência, a mensagem — “A porta que Deus abre, ninguém fecha” — traduz o sentimento da faxineira Lilian Gonzaga da Costa, de 45 anos. Mãe de Wellington Gonzaga da Costa, um dos três jovens da comunidade do Centro assassinados há três anos, após ser entregues por militares do Exército a traficantes do Complexo de São Carlos, se apega na fé como amparo à dor pela perda do filho, à impunidade dos envolvidos e o descaso das autoridades. Até hoje, nenhuma das três famílias recebeu indenização por danos morais, materiais ou pensão.
A Justiça ordenou o pagamento de uma pensão vitalícia de salário mínimo (R$ 540) para a mãe de Wellington e a filha de David Florêncio, que está com 8 anos. Contudo, a União recorreu para que a determinação só seja cumprida em paralelo com a decisão de responsabilizar os militares acusados pelo pagamento.
“Wellington ajudava em casa e, desde que ele foi morto, não consegui mais trabalho fixo. Faço ‘bico’ de faxina quando aparece, mas a renda é pequena. Gostaríamos de ser respeitados, já que ouvimos a promessa do ministro da Defesa (Nelson Jobim)”, disse Lilian.
O advogado João Tancredo, que representa as três famílias, disse que a situação da mãe adotiva de Marcos Paulo da Silva, Maria de Fátima Barbosa, é a mais delicada, já que ela não possui documentos que comprovem sua relação com o filho. “Ela não foi beneficiada neste primeiro momento, mas vamos recorrer”.

Viúva quer pensão para investir na Educação da filha
Os parentes dos jovens vivem hoje em casas construídas pelo projeto Cimento Social, do senador Marcelo Crivella, na parte baixa da Providência — que conta com uma UPP.
Já a companheira de David, Bianca Sarandi, teve de levar a filha do casal para a casa da mãe, no Santíssimo: “A avó que criou o David, Benedita Florêncio, ficou com a casa. Como perdi o emprego, gostaria de poder oferecer educação melhor para nossa filha com a pensão”.
Sem esperanças, Maria de Fátima agora se agarra na justiça: “Queria ver os envolvidos presos”. Segundo a Auditoria Militar, dos 11 acusados, apenas um cumpre pena por ter desobedecido ordens superiores. Contudo, eles não informaram se os militares já voltaram a desempenhar suas funções.

Corpos dos rapazes foram encontrados no Aterro Sanitário de Gramacho
Em 15 de junho de 2008, os três jovens moradores do Morro da Providência foram detidos acusados de desacato por militares que ocupavam a comunidade. Colocados num caminhão e levados até o Complexo de São Carlos, foram entregues a traficantes. Na época, as duas favelas — hoje pacificadas — eram controladas por facções criminosas rivais.
Depois de torturados, os rapazes foram assassinados e seus corpos foram encontrados no Aterro Sanitário de Gramacho. Após investigações, 11 militares foram acusados de envolvimento no crime.
Na Justiça Militar , dez dos 11 militares foram absolvidos. O único condenado foi o tenente Vinícius Ghidetti, por não ter obedecido ordens superiores.
Po decisão da Justiça Comum, além do tenente, o único preso é sargento Leandro Maia Bueno. Os dois estão presos aguardando julgamento, que não tem data marcada.
O DIA ONLINE


Comentário de Ricardo Montedo:
Em abril do ano passado , postei aqui as seguintes considerações a respeito desse lamentável acontecimento, ocorrido dez meses antes:

"É óbvio que o episódio foi uma grande trapalhada que resultou em tragédia, cuja repercussão foi multiplicada à exaustão pela mídia, o que sempre ocorre quando um fato depõe contra a imagem das Forças Armadas.
Porém, alguns questionamentos continuam sem resposta:
- Como um jovem tenente, saído da AMAN a um ano e meio, é colocado em posição de comando em meio à uma conflagração como a guerra de facções nas favelas do Rio de Janeiro?
- Como, a comando desse oficial, estavam três terceiros-sargentos, todos "pica-fumos"?
- Como quatro profissionais militares (mesmo com pouca experiência) aceitam a "sugestão" de um soldado para entregar três pessoas a uma facção rival dos "rapazes" presos?
-O capitão que mandou liberar os detidos não tinha autoridade sobre os subordinados, tanto que foi desobedecido?
- Por quê os mortos continuam a ser tratados pela mídia como "rapazes", quando tinham envolvimento comprovado com traficantes?
- Como o Exército se presta à participar de uma ação polítca-demagógica-eleitoreira dessa natureza, onde a Instituição só tem a perder e os políticos, só a ganhar?"

Não pretendo ser presunçoso, mas parece-me que esses questionamentos continuam atuais, não acham?
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6 de abril de 2010

MORRO DA PROVIDÊNCIA: ADVOGADOS DO TENENTE PEDEM SUA LIBERTAÇÃO

Advogados de tenente do Exército acusado de entregar jovens a traficantes recorrem ao STF Vinicius Ghidetti de Moraes Andrade é acusado de ter dado ordem para que soldados do Exército, que haviam capturado três jovens moradores do Morro da Providência, os entregassem a traficantes de uma facção rival
 
Agência Brasil

Os advogados de defesa do segundo-tenente de Infantaria do Exército Vinicius Ghidetti de Moraes Andrade, de 25 anos, recorreram ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar obter a libertação de seu cliente, preso no 1º Batalhão de Polícia do Exército, no Rio de Janeiro, em caráter preventivo, desde 14 de junho de 2008.
Andrade é acusado de ter dado ordem para que soldados do Exército que haviam capturado três jovens moradores do Morro da Providência que retornavam de um baile funk os entregassem a traficantes do Morro da Mineira, dominado por uma facção criminosa rival à que comanda o Morro da Providência.
Em depoimento à Justiça Militar, prestado em junho de 2008, o segundo-tenente alegou que tinha a intenção de “dar um susto” nos rapazes, mas que não imaginava que Wellington Gonzaga Ferreira, 19; David Wilson da Silva, 24; e Marcos Paulo Campos, 17, acabariam sendo mortos pelos traficantes.
No habeas corpus com pedido de liminar que protocolaram hoje (5), no STF, os advogados Itamar Teixeira Barcellos e Luiz Carlos Cavalcanti Azenha alegam que os quase dois anos em que Andrade permanece detido estão se constituindo em uma “pena antecipada” para ele.
Os advogados sustentam que o segundo-tenente é réu primário, possui bons antecedentes criminais e não representa uma ameaça às testemunhas de acusação - que já foram ouvidas pela Justiça. E pedem que o STF ignore a Súmula 691 e aprecie o pedido. A súmula impede que o tribunal julgue qualquer habeas corpus que contrarie decisão liminar de um tribunal superior, no caso, o Superior Tribunal Militar (STM), que já negou um pedido para que Andrade fosse solto.
Os advogados de Andrade defendem que ele jamais pensou em fugir, pois isso seria interpretado como crime de deserção e, nas palavras de Barcellos e Azenha, o segundo-tenente “jamais deixaria as funções conquistadas com muito estudo e sacríficio”.
Comento:
É óbvio que o episódio foi uma grande trapalhada que resultou em tragédia, cuja repercussão foi multiplicada  à exaustão pela mídia, o que sempre ocorre quando um fato depõe contra a imagem das Forças Armadas.
Porém, alguns questionamentos continuam sem resposta:
- Como um jovem tenente, saído da AMAN a apenas um ano e meio, é colocado em posição de comando em meio à uma conflagração como a guerra de facções nas favelas do Rio de Janeiro?

- Como, a comando desse oficial, estavam três terceiros-sargentos, todos "pica-fumos"?
- Como quatro profissionais militares (mesmo com pouca experiência) aceitam a "sugestão" de um soldado para entregar três pessoas a uma facção rival dos "rapazes" presos?
-O capitão que mandou liberar os detidos não tinha autoridade sobre os subordinados, tanto que foi desobedecido?
- Por quê os mortos continuam a ser tratados pela mídia como  "rapazes", quando tinham envolvimento comprovado com traficantes?
- Como o Exército se presta à participar de uma ação polítca-demagógica-eleitoreira dessa natureza, onde a Instituição só tem a perder e os políticos, só a ganhar?

13 de março de 2017

História: primeira favela brasileira foi formada por soldados veteranos da Guerra de Canudos

Primeira favela brasileira surgiu há 120 anos
Em 1897, aproximadamente 10 mil soldados voltaram da Guerra de Canudos e se instalaram no atual Morro da Providência, no Rio. O local, que já era habitado por ex-escravos, se transformou na primeira favela brasileira
Há exatos 120 anos surgia a primeira favela brasileira, que ainda não era chamada desta forma. O pequeno assentamento, formado inicialmente por ex-escravos, ganhou a partir de 1897 uma grande quantidade de novos moradores, criando uma verdadeira comunidade. Localizada no atual Morro da Providência, no Rio de Janeiro, a ocupação inicialmente se restringia a algumas dezenas de casebres, que ao longo do ano receberam mais de 10 mil novos vizinhos, em especial ex-soldados que retornavam da Guerra de Canudos. Os primeiros moradores do assentamento no eram habitantes do antigo cortiço "Cabeça de Porco", que havia sido demolido tempos antes.
Ainda sem nome, a área ocupada logo ganhou um apelido dos ex-combatentes. O conglomerado de pequenas casas passou a ser chamado de Favela, numa referência ao nome do morro onde os soldados haviam montado acampamento durante a guerra. Favela é o nome popular da Cnidoscolus quercifolius, uma planta endêmica da região nordeste brasileira. Se no passado a palavra era um nome próprio, atualmente se transformou numa termologia para se referir a um assentamento urbano informal.
A justificativa para a ocupação há 120 anos é a mesma dos dias atuais, a falta de moradias. Os ex-soldados tinham a promessa que ao retornarem da batalha receberiam o soldo, mas o valor nunca foi pago. Sem dinheiro e local para morarem, eles invadiram um trecho do morro, onde ficava uma chácara abandonada. Naquele momento, nascia a primeira favela brasileira. Com os anos, outros assentamentos também passaram a serem chamados de favelas, numa referência a ocupação do Morro da Providência.
As primeiras casas foram erguidas no sopé do morro, seguindo o estilo das construções de Canudos. De alvenaria com paredes caiadas e telhados de madeira, as residências foram engolidas pelo emprego dos próprios moradores. A maioria dos habitantes da comunidade da Favela trabalhavam numa pedreira no morro, que consumiu, literalmente, o terreno onde viviam. A mina funcionou até 1968, quando ocorreu um desabamento que soterrou e matou 36 pessoas.
Reintegração de posse
Em novembro de 1904, a prefeitura do Rio de Janeiro decidiu desocupar o morro da Favela, que estava numa área invadida. O problema é que no mesmo período ocorreu a Revolta da Vacina e devido ao caos generalizado na cidade, a reintegração de posse foi suspensa. Focada em combater os distúrbios pelas ruas cariocas, a prefeitura pôs a desocupação da área em segundo plano. Outra preocupação da então administração pública era o fato de que muitos habitantes daquela comunidade haviam participado da Revolta e considerassem a reintegração como uma "punição" pelo ato.
Guia do Litoral (UOL)/montedo.com

26 de março de 2017

Sede do Exército no RJ, Palácio Duque de Caxias é atingido durante tiroteio no morro da Providência

Prédio do Exército é atingido durante tiroteio no Morro da Providência
Intensos confrontos na Saúde assustou moradores. PM foi ferido por estilhaços em troca de tiros na favela nesta quinta-feira
Rio - O Palácio Duque de Caxias, onde fica o Comando Militar do Leste, foi atingido por disparos durante um intenso tiroteio no Morro da Providência, na Zona Portuária, na manhã desta quinta-feira. De acordo com o 5º BPM (Praça da Harmonia), um PM foi ferido por estilhaços no confronto, mas passa bem.
Segundo testemunhas, um camelô também teria sido baleado na Central no momento do tiroteio. No entanto, a PM ainda não confirma essa informação. Desde cedo, os moradores relatam clima de insegurança na Saúde.
A polícia fez uma operação para reprimir o tráfico de drogas dentro de um cortiço localizado próximo da Rua Barão de Tefé nesta manhã. Os PMs foram recebidos a tiros. A via ficou interditada por 40 minutos, causando impactos no trânsito em alguns pontos da cidade.
O DIA/montedo.com

5 de setembro de 2011

JUSTIÇA MANDA PRENDER NOVAMENTE TENENTE E SARGENTO ENVOLVIDOS NAS MORTES DO MORRO DA PROVIDÊNCIA

Tenente e sargento do Exército acusados de envolvimento na morte de três jovens perdem liberdade provisória

Renata Leal renata.leal@oglobo.com.br
O desembargador federal Abel Gomes, do Tribunal Regional Federal da 2 Região, determinou, na última sexta-feira, a volta do tenente Vinícius Ghidetti de Moraes e do sargento Leandro Maia Bueno, ambos do Exército, para a prisão. Os militares são acusados de participação na morte de três jovens moradores do Morro da Providência em 2008. Ambos estavam sob liberdade provisória.
No último dia 24, o juiz Erik Navarro, da 7 Vara Federal Criminal, entendeu que a prisão preventiva dos dois não era mais necessária e concedeu liberdade provisória aos acusados. De acordo com sua decisão, eles poderiam usufruir do benefício desde que não deixassem o Estado do Rio de Janeiro, comparecessem a todos os atos do processo e continuassem suspensos de suas funções no Exército.
Parentes das vítimas criticaram a decisão de Navarro, e, na semana passada, o procurador da República Marcello Miller, que acompanha o caso, apresentou um recurso junto ao Tribunal Regional Federal da 2 Região. Ele pediu que o tenente e o sargento aguardem o julgamento, ainda sem data marcada, sob custódia permanente.
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- A decisão me pareceu equivocada e acredito que esse é um caso que mexe profundamente com a ideia de direitos humanos de toda a sociedade. Não acho admissível que duas pessoas, que se mostraram tão perigosas, possam aguardar o julgamento em liberdade, ainda mais havendo parentes das vítimas entre os convocados para prestar depoimentos ao júri - afirmou Miller.
Para procurador, julgamento deve acontecer este ano
Na noite de sexta-feira passada, os novos mandados de prisão expedidos contra Ghidetti de Moraes e Maia Bueno foram enviados para a Polícia Federal.
- O júri aguarda a finalização de uma maquete digital que mostrará onde os acusados entregaram as vítimas para traficantes de drogas, que acabaram executando os jovens. Em 8 de agosto, o Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal informou que, dentro de um prazo de 30 dias, esse material estaria concluído. Acredito que até o fim do ano haverá condições para a realização do julgamento - disse Miller.
O GLOBO

27 de agosto de 2011

MORTES NO MORRO DA PROVIDÊNCIA: TENENTE E SARGENTO SÃO SOLTOS

Militares que entregaram jovens a traficantes são soltos

O tenente Vinicius Ghidetti de Moraes Andrade e o sargento Leandro Maia Bueno, que, em 2008, entregaram três jovens do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, a traficantes rivais para serem torturados e mortos, foram soltos por decisão do juiz da 7ª Vara Criminal Federal, Erik Navarro Wolkart. Mesmo com os réus acusados de homicídio triplamente qualificado, o magistrado citou a vigência da Lei nº 12.403, que restringiu os casos de prisão preventiva, e avaliou como desnecessária a prisão preventiva dos militares.
O juiz ressaltou ainda "o comportamento exemplar" durante os três anos de prisão e a "impossibilidade de realização imediata do plenário do júri". Apesar de revogar a prisão preventiva, o magistrado impôs a medida cautelar de suspensão do exercício de função pública. Os réus não poderão mudar de residência sem autorização prévia nem ausentar-se do Estado sem autorização do juízo.
"Este caso é um exemplo de injustiça. As famílias estão chateadas com esta decisão, mas estão muito mais aborrecidas com a demora da Justiça para resolver um caso simples. Agora, uma perícia aérea foi decidida no processo criminal. No processo cível, até o momento as famílias não receberam um tostão da indenização prometida pela União", disse o advogado João Tancredo, que representa as famílias das vítimas.

Nota do editor
Em 6 de abril de 2010, fiz algumas observações sobre esse caso, no post MORRO DA PROVIDÊNCIA: ADVOGADOS DO TENENTE PEDEM SUA LIBERTAÇÃO .
Creio que elas ainda estão dentro do prazo de validade. Confira:

Comento:
É óbvio que o episódio foi uma grande trapalhada que resultou em tragédia, cuja repercussão foi multiplicada à exaustão pela mídia, o que sempre ocorre quando um fato depõe contra a imagem das Forças Armadas.
Porém, alguns questionamentos continuam sem resposta:
- Como um jovem tenente, saído da AMAN a apenas um ano e meio, é colocado em posição de comando em meio à uma conflagração como a guerra de facções nas favelas do Rio de Janeiro?
- Como, a comando desse oficial, estavam três terceiros-sargentos, todos "pica-fumos"?
- Como quatro profissionais militares (mesmo com pouca experiência) aceitam a "sugestão" de um soldado para entregar três pessoas a uma facção rival dos "rapazes" presos?
-O capitão que mandou liberar os detidos não tinha autoridade sobre os subordinados, tanto que foi desobedecido?
- Por quê os mortos continuam a ser tratados pela mídia como "rapazes", quando tinham envolvimento comprovado com traficantes?
- Como o Exército se presta à participar de uma ação polítca-demagógica-eleitoreira dessa natureza, onde a Instituição só tem a perder e os políticos, só a ganhar?

27 de maio de 2010

MORRO DA PROVIDÊNCIA: JUSTIÇA MILITAR CONDENA APENAS UM DOS ONZE MILITARES

tres-vitimas-providencia/Fabiano 
Rocha

Somente um dos 11 militares acusados de terem entregue três jovens do Morro da Providência a traficantes do Morro da Mineira, em 2008, foi condenado pela Justiça Militar. Nove desses militares também já foram absolvidos na Justiça Civil.
O cabo Samuel de Souza Oliveira; os sargentos Leandro Maia Bueno, Bruno Eduardo de Fátima e Renato de Oliveira Alves; e os soldados Julio de Almeida Ré, Sidney de Oliveira Barros, Rafael Cunha da Costa Sá, Eduardo Pereira de Oliveira, José Ricardo Rodrigues de Araújo e Fabiano Eloi dos Santos foram absolvidos do crime de organização de grupo para a prática de violência, segundo o Código Penal Militar, em julgamento de agosto de 2009.
O tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade foi absolvido do mesmo crime e também de ter aliciado militares para a prática de crimes e de retardar ou deixar de praticar seu ofício, ou praticá-lo contra lei, para satisfazer interesse pessoal. O tenente, porém, foi condenado por ter se recusado a obedecer ordem de um superior.
Na Justiça Civil, o tenente responde com o sargento Leandro Maia Bueno por homicídio triplamente qualificado. Os dois tiveram a prisão preventiva mantida pelo juiz Erik Navarro Wolkart, da 7ª Vara Federal Criminal. A decisão é do dia 3 de maio e foi publicada na segunda-feira.
Volta do baile
Os dois militares vão a júri popular, mas a data do julgamento ainda não foi marcada. Cabe recurso da decisão. Leandro Maia está no Presídio Ary Franco. Vinícius Ghidetti está no 1º Batalhão de Polícia do Exército, na Tijuca.
Wellington Gonzaga da Costa, de 20 anos, David Wilson Florêncio da Silva, de 24, e Marcos Paulo da Silva Correia, de 17, foram detidos pelos militares do Exército na manhã do dia 14, de junho de 2008. Os três jovens foram abordados pelos militares na Praça Américo Brum, no alto da Providência, quando chegavam de um baile funk.
De lá, foram encaminhados a um quartel do Exército no Santo Cristo, de onde foram levados para a Mineira. Os corpos dos jovens foram encontrados no Aterro Sanitário de Gramacho, em Duque de Caxias.

6 de maio de 2010

ALUNOS DE ESCOLA PAULISTA ESCREVEM AOS MILITARES BRASILEIROS NO HAITI. E RECEBEM RESPOSTA.


Exemplo
Uma lição de civismo e solidariedade
O exemplo foi dado pelos alunos da Divina Providência, ao enviar cartas aos soldados do Haiti
Márcia Mazzei
 
Acostumados a receber importantes lições de seus educadores, desta vez, foram os alunos do 4º ano do Ensino Fundamental I da Escola Divina Providência que deram o maior exemplo de resgate da cidadania e dos valores patrióticos. Com apenas 9 anos, Júlia de Piero foi uma das 72 crianças, que incentivadas pelas professoras Juareza Pereira e Renata Argento enviaram cartas e produziram desenhos aos soldados que compõem a força militar da missão de paz da ONU no Haiti. 
"Gostaria que eles soubessem que estávamos pensando e orando para que conseguissem cumprir esta missão de paz". As palavras de otimismo da pequena Julia tornaram-se um bálsamo aos cerca de dois mil soldados brasileiros de "capacetes azuis", como é conhecida a tropa que segue em missão de paz.
  Na teoria, a atividade extracurricular tinha como propósito colocar os alunos em contato com a realidade de um povo que sofre desde a queda do ex-presidente Jean Bertrand Aristide. Na prática, a iniciativa resultou num telefonema que a direção da instituição recebeu, no dia 09 de abril, do comandante maior da Marinha, Souza Filho, agradecendo o carinho e a atenção das crianças. 
Encaminhadas pelo general Madureira, conhecido de um funcionário da escola, as cartas chegaram a Porto Príncipe, graças ao espaço cedido em um avião das Forças Armadas. A repercussão foi tamanha que uma cerimônia, realizada no dia 29 de março, marcou a entrega das cartas dos alunos ao Batalhão Brasileiro no Haiti (Brabatt). Os trabalhos ficaram expostos para que todos pudessem compartilhar as mensagens.
Durante três dias, o general Madureira esteve em Haiti e conheceu de perto a luta incansável dos brasileiros que lideram a missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU). "Pela curta experiência que tive no Haiti, sei do valor expressivo destas cartas. Muito mais do que teria um presente", compara ele. Madureira aproveita a conversar com os alunos para exaltar a importância do patriotismo, em destaque apenas quando a seleção brasileira entre em campo. "Costumamos dizer que Deus e o soldado são lembrados apenas quando numa situação de guerra. Na paz, Deus é esquecido e o soldado relegado", diz.    
Para as crianças o melhor da surpresa ainda estava por vir. Mesmo diante da saudade de casa e da dor compartilhada com um país que sofre com a devastação provocada pelo terremoto em janeiro deste ano, os soldados desprenderam parte do tempo para retribuir o carinho recebido.   
Tão surpresa quanto os alunos, Juareza explica que a carta é um dos gêneros textuais desenvolvidos nas disciplinas de História, Geografia e Português. "Cheguei a fazer requisição de envelopes e selos, mas no Haiti não tem mais estrutura de correio". Para agilizar a entrega, as professoras formularam uma carta coletiva e escreveram a mesma na lousa. Cada criança escreveu a sua carta em 75 garrafas (usadas para tomar água) da escola, fechadas com fitas verde e amarela.
 
 O Brasil do Haiti
 O Brasil chefia a missão de paz da ONU no país (Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti, ou Minustah, na sigla em francês), que conta com cerca de 7 mil integrantes. Segundo o Ministério da Defesa, 1.266 militares brasileiros servem na força. Ao todo, são 1.310 brasileiros no Haiti.  A missão de paz foi criada em 2004, depois que o então presidente Jean-Bertrand Aristide foi deposto durante uma rebelião. Além do prédio da ONU, o prédio da Embaixada Brasileira em Porto Príncipe, também ficou danificado, mas segundo o governo, não há vítimas entre os funcionários brasileiros.    

20 de maio de 2011

AGU RECORRE PARA NÃO INDENIZAR FAMILIARES DOS JOVENS ENTREGUES AOS TRAFICANTES NO MORRO DA PRIVIDÊNCIA

AGU diz que familiares não demonstraram dependência financeira
Após três anos, famílias de vítimas da chacina da Providência não receberam indenizações

Jorge Lourenço
Procurada pelo Jornal do Brasil sobre o fato de a União estar recorrendo para não indenizar famílas de jovens entregues por militares a traficantes, há três anos, no Morro da Providêcia, a Advocacia Geral da União (AGU) explicou que o recurso interposto nas ações diz respeito à denúncia contra os militares, e não ao pagamento de pensão.O órgão também aponta que a União não concedeu qualquer reparo às famílias que não comprovaram dependência financeira das vítimas, conforme decidido pela Justiça. A Procuradoria da Fazenda, que também entrou com um recurso na ação, não se pronunciou sobre o assunto.
Segundo a União, os únicos que têm direito a indenização são a esposa e a filha de David Florêncio e a mãe de Wellington Gonzaga. A família de Marcos Paulo Rodrigues Campos, que tinha apenas 17 anos quando assassinado, não teve direito a qualquer reparo, apesar das promessas do ministro Nelson Jobim.
"O David morava comigo e me ajudava a tocar a casa. Na idade que estou, não tenho mais condições de fazer muita coisa", explica Benedita Florêncio, avó e mãe adotiva de David Florêncio. Apesar de tê-lo criado desde criança e receber apenas um salário mínimo de aposentadoria, ela também não teve direito a nenhuma indenização. "O dinheiro que eu tenho mal dá comprar meus remédios", lamenta. a aposentada.

Relembre o caso
David Florêncio, Wellington Gonzaga e Marcos Paulo Rodrigues, todos moradores do Morro da Providência, foram executados em 2008 por bandidos do Morro da Mineira, controlado na ocasião por uma facção rival. Eles foram entregues aos traficantes por militares do Exército que participavam de um projeto "Cimento Social".
Dos 11 militares envolvidos no caso, apenas dois estão presos, aguardando julgamento. Na Justiça Militar, 10 foram absolvidos. O único condenado foi acusado apenas de desobediência.
JORNAL DO BRASIL

25 de abril de 2011

JUSTIÇA NEGA PEDIDO DE SOLTURA A SARGENTO ENVOLVIDO NA MORTE DOS JOVENS DO MORRO DA PROVIDÊNCIA

Justiça nega soltura de militar acusado de entregar jovens a traficantes em 2008
A ministra Laurita Vaz, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), negou o pedido de soltura ao sargento do Exército acusado de entregar três jovens do Morro da Providência a traficantes do Morro da Mineira, no Centro, em 2008. Leandro Maia Bueno é um dos 11 militares que teriam entregue os rapazes a criminosos de facções rivais às do local onde que eles moravam.
A defesa do sargento, que está preso preventivamente desde 15 de junho de 2008, argumenta excesso de prazo na formação da culpa. Essa etapa é o fim da instrução processual, onde já foram reunidas provas da autoria e materialidade do crime.
Em sua decisão, a relatora destacou que a medida cautelar que determinou a prisão é justificada. A ministra solicitou informações ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) sobre o andamento da ação penal e determinou o envio dos autos ao Ministério Público Federal (MPF).
O mérito do habeas corpus será julgado pela Quinta Turma do STJ.
O DIA ONLINE

26 de maio de 2010

JUSTIÇA LIBERTA NOVE MILITARES ENVOLVIDOS NO CRIME DO MORRO DA PROVIDÊNCIA

A Justiça Federal do Rio de Janeiro mandou soltar 9 dos 11 militares acusados de entregar três jovens do Morro da Providência a traficantes rivais do Morro da Mineira, no centro do Rio, em 2008. A decisão do juiz Erik Navarro Wolkart, da 7ª Vara Federal Criminal, é do dia 3.
Apenas o tenente Vinícius Guidetti de Moraes Andrade e o sargento Leandro Maia Bueno vão a júri popular. O julgamento ainda não tem data marcada. A defesa dos acusados ainda pode recorrer.
Na decisão, o magistrado afirmou que "vários deles [dos militares] não eram baseados na cidade do Rio de Janeiro, desconhecendo as particularidades das dinâmicas criminais cariocas; a intenção de seu superior, o denunciado Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade, era intransponível, dada sua hediondez". De acordo com o juiz, não há indícios suficientes da participação desses acusados no crime.
Os militares foram denunciados pelo Ministério Público Federal do Rio em junho de 2008 pela morte dos três jovens. Wellington Gonzaga da Costa Ferreira, David Wilson Florenço da Silva e Marcos Paulo Rodrigues Campos, foram torturados e mortos.


7 de março de 2018

Julgamento de tenente do Exército acusado de três homicídios é transferido para a Justiça Militar

Ele é acusado de três homicídios triplamente qualificados. Jovens foram entregues para criminosos de comunidade comandada por grupo rival. 
MP informa que vai recorrer da decisão.

Por GloboNews
O julgamento do tenente do Exército, Vinícius Ghidetti, que liderava um grupo acusado de entregar três jovens para criminosos foi transferido da Justiça comum para a Justiça Militar. Ele deveria ter sido levado a júri popular em dezembro do ano passado, dez anos após o crime.
Ele é acusado de três homicídios triplamente qualificados no crime que ocorreu no Morro da Providência, Centro do Rio, em 2008.
A transferência foi decidida pela juíza Caroline Figueiredo, em novembro do ano passado, como mostrou a reportagem exibida pela GloboNews nesta terça-feira (6).
Em sua decisão, a magistrada explicou que se baseou na lei sancionada pelo presidente Michel Temer, que transfere para a Justiça Militar o julgamento de crimes cometidos por integrantes das Forças Armadas contra civis em operações oficiais.
O caso aconteceu em 2008, quando militares do Exército reforçavam a segurança do Morro da Providência, no Centro, para a realização de obras do programa Cimento Social, do Governo Federal. Ao voltarem de um baile funk, três moradores foram acusados de desacato. Testemunhas contaram que eles foram agredidos pelos militares.
Testemunhas contaram que eles foram agredidos pelos militares. Elas também contaram que os jovens foram levados em um caminhão do Exército para o Morro da Mineira, comandado por traficantes de uma facção rival.
Davi Wilson da Silva, de 24 anos; Wellington Gonzaga Ferreira, de 19 anos; e Marcos Paulo de Campos, de 17 anos, foram torturados e mortos por criminosos.
Em depoimento, o tenente Vinínius Ghidetti afirmou que queria dar apenas um “susto” nos jovens e que não imaginava que eles seriam assassinados.
"Eu não esperava que ele fosse morrer. Porque eu falei, inclusive, só é um susto", disse Vinícius em depoimento.
O processo contra ele chegou a ficar parado entre os anos de 2012 e 2017, porque a defesa alegou insanidade mental. Porém, no ano passado, um laudo mostrou que o militar simulou problemas psiquiátricos e o caso foi retomado.

MP recorre da decisão
O Ministério Público Federal (MPF) recorreu da decisão que transfere o processo para a Justiça Militar. O procurador Jaime Mitropoulos quer que o tenente vá à júri popular na Justiça comum. O recurso será julgado pelo Tribunal Regional Federal.
O procurador afirma que a atitude de Vinícius, que ele chamou de assombrosa, não se enquadra em nenhuma hipótese da lei citada pela juíza. Em entrevista, ele afirma ainda que a lei federal é inconstitucional e contraria posições firmadas pela Comissão de Direitos Humanos da ONU, pela Corte Interamericana e pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos.
Ele encerra o recurso afirmando que "no momento em que se discute a extinção do privilégio, é um contrassenso a instituição de verdadeiro foro privilegiado para julgar um militar que praticou crimes contra civis quando estava a serviço do Exército Brasileiro".
G1/montedo.com

28 de dezembro de 2011

MILITARES ENVOLVIDOS EM MORTE DE JOVEM NA VILA CRUZEIRO SÃO AFASTADOS DO PATRULHAMENTO

Militares são afastados após morte de jovem na Vila Cruzeiro

Antônio Werneck
 O Comando Militar do Leste (CML) do Exército informou na terça-feira que os oito militares envolvidos na morte de um adolescente de 14 anos, na Favela da Vila Cruzeiro, na Penha, foram afastados das ruas e vão responder a um inquérito policial-militar (IPM). Segundo o Exército, as armas dos militares foram recolhidas e passarão por perícia. A morte de Abraão da Silva Maximiliano, na noite de segunda-feira, ocorreu, ainda de acordo com o CML, durante um confronto. Parentes da vítima e vizinhos que presenciaram a cena, porém, negam a versão e garantem que o jovem estava sozinho numa praça da comunidade quando foi baleado e morto por um militar.
O local foi examinado por peritos do Exército e do Instituto de Criminalística da Polícia Civil. Segundo a Força de Pacificação do Exército, que atua nos complexos do Alemão e da Penha, o adolescente estava com outros dois suspeitos, que atacaram a tiros uma patrulha da Força de Pacificação, na área conhecida como Mirante da Chatuba.
- Meu sobrinho não é bandido, era uma criança e estava apenas descansando quando foi atacado. Foi uma covardia. Até agora ninguém do Exército nos deu qualquer explicação, não apresentaram os suspeitos nem apreenderam armas com ninguém. Só queremos justiça - disse Eliane Lopes, tia do jovem.
Abraão foi baleado na barriga, por volta das 21h30m. Socorrido por uma ambulância militar, ele chegou morto ao Hospital Getúlio Vargas, segundo funcionários da unidade. Não foram apreendidas armas com o adolescente. Em seguida, um grupo de cerca de 20 moradores da Vila Cruzeiro foi para a porta do hospital, protestar contra a ação do Exército. Na tarde da terça-feira, o grupo fez nova manifestação, desta vez em frente à sede da Força de Pacificação, na Vila Cruzeiro, com cartazes pedindo paz e justiça.
O coronel Malbatan Leal, chefe de comunicação social da Força de Pacificação, contou que a troca de tiros começou depois que os suspeitos foram chamados para uma revista. Armados de pistolas, eles atiraram contra os militares, segundo o coronel. No início, ainda de acordo com Leal, a patrulha reagiu com dois disparos de advertência para o alto e balas de borracha:
- Sempre lamentamos qualquer perda, em qualquer circunstância. Só atiramos contra os bandidos por autoproteção, quando dispararam em direção à patrulha.
Órfão de pai e mãe, Abraão morava na favela com a irmã, Jéssica da Silva Maximiliano, de 20 anos. Ela conta que estava acordada esperando o jovem para jantar, quando foi informada por vizinhos sobre o episódio. Ela recolheu projéteis que foram disparados:
- Estou inconformada. Meu irmão era uma criança inocente, que nunca fez nada para ninguém. Na mesma hora que me contaram que ele foi baleado, corri ao seu encontro e o vi já dentro do carro dos militares, ainda vivo. Ele estava respirando, e ninguém me deixou chegar perto. Fui para o hospital e, apenas uma hora depois, os militares levaram o corpo.
Primo da vítima diz ter sido ameaçado por militares
Primo do jovem, Wellington Alves da Silva, de 20 anos, disse que também ficou na mira do fuzil dos militares. Segundo ele, uma vizinha o salvou ao sair em sua defesa e pedir apoio para outros moradores.
- Joguei bola com meu primo e fui em casa tomar banho. Ele ficou na pracinha me esperando. Quando voltei, ele estava sendo revistado e, em segundos, ouvi uma rajada de balas. Corri na direção dele. Cheguei perto do corpo e fui rendido e obrigado a deitar no chão. O militar apontou o fuzil para minha cabeça e disse que ia me matar também, pois era uma testemunha. Meu primo estava caído, sangrando, mas respirava. Achei que ia morrer - contou, acrescentando que Abraão sonhava em ser jogador de futebol e que queria se alistar no Exército.
Apesar da sindicância aberta, a Força de Pacificação não descarta a chance de o menor ter sido atingido acidentalmente pelos suspeitos que o acompanhavam. O caso foi registrado na 22 DP (Penha). A comunicação social da Força informou que será mantido o cronograma e que apenas em junho o Exército deixará a comunidade, para instalação de uma UPP. A Secretaria de Segurança Pública informou, por meio da assessoria de imprensa, que cabe ao Exército se manifestar sobre o episódio. O comandante das UPPs, coronel Rogério Seabra, também se manifestou pela assessoria: "Nosso engajamento na região já tem mais de um ano. A interação da comunidade tem sido boa. Moradores contam que nunca tiveram um Natal tão tranquilo. Mesmo assim, a sindicância foi aberta para esclarecer de que arma partiu o tiro".
Três civis mortos
Desde 2003, este foi o terceiro caso de morte de um civil em episódios envolvendo militares das Forças Armadas. Naquele ano, homens do Exército mataram o professor de inglês e advogado Frederico Branco de Faria, de 56 anos, numa blitz realizada na Avenida Martin Luther King, em Tomás Coelho. Acompanhado da namorada, o advogado teria tentado furar o bloqueio feito pelo Exército e por policiais do 3º BPM (Méier). O Comando Militar do Leste informou, na ocasião, que o advogado tentara atropelar um oficial que estava no meio da rua.
Outro caso de violência contra civis aconteceu no Morro da Providência, em 2008. Três jovens se revoltaram durante uma revista, feita por homens do Exército que patrulhavam a região, durante a implantação do projeto "Cimento Social", do governo federal (que previa melhorias em 782 imóveis na comunidade). Como resposta, eles foram levados por um grupo de 11 militares para o Morro da Mineira e entregues a traficantes de uma facção rival ao da Providência. No local, os jovens foram barbaramente torturados e assassinados com 46 tiros. Um deles teve as mãos decepadas antes de ser morto.
Durante a retomada do Complexo de favelas do Alemão, em novembro de 2010, pelo menos um homem morreu ao ser atingido por uma bala perdida durante um intenso tiroteio. Ele foi atingido na barriga, na Estrada do Itararé, ao sair de casa para comprar o presente de aniversário do filho caçula, que completava 1 ano.
O GLOBO/montedo.com

19 de novembro de 2014

Ditadura: relatório da Comissão da Verdade pretende colocar as Forças Armadas contra a parede.

Nota do editor: a manchete aí em cima é minha. Segue abaixo a matéria do UOL. É extensa, mas vale a pena ser lida.

Comissão da Verdade pedirá punição para cerca de 100 militares vivos, diz Pedro Dallari
Pedro Dallari, presidente da Comissão Nacional da Verdade (EBC)
Fernando Rodrigues
Do UOL, em Brasília
A Comissão Nacional da Verdade entregará à presidente Dilma Rousseff seu relatório final em 10.dez.2014 recomendando a responsabilização criminal –e a punição– de aproximadamente 100 militares que ainda estão vivos e participaram de maneira direta de violações de direitos humanos durante a ditadura militar (1964-1985).
Em entrevista ao programa "Poder e Política", do UOL, o coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Pedro Dallari, 55 anos, declarou que esse desfecho "é uma decorrência natural da apuração" realizada durante 3 anos de trabalho.
"Vamos indicar a necessidade da responsabilização. Como isto vai ser feito, se vai ser feito afastando-se a aplicação da Lei de Anistia, reinterpretando a lei, modificando a lei, isto é algo que caberá ao Ministério Público, ao Poder Judiciário e ao Legislativo", declarou Dallari, que é advogado e professor da USP.
A publicação do relatório da Comissão Nacional da Verdade levará, argumenta ele, a uma interpretação da Lei da Anistia a partir de "casos concretos" por parte do Supremo Tribunal Federal, "com vítimas concretas, com autores concretos".
O relatório será "impactante", com dados sobre "estupros, uso de animais em tortura, um quadro de horrores, e a partir daí vai se instaurar uma situação muito constrangedora no país". Para Dallari, "a sociedade vai se virar para as Forças Armadas, para a presidente, para o governo, esperando uma atitude. E o que é pior, como esses atuais comandantes [das Forças Armadas] vão deixar seus postos, eles deixarão uma bomba armada para seus sucessores, que terão que lidar então com esse quadro muito difícil de administração".
Embora o relatório final vá nomear os responsáveis por violações dos direitos humanos, "essa identificação dos autores não significa acusação de que eles sejam responsáveis, porque isso depende do devido processo legal".
Mas os relatos serão todos detalhados. "À luz do direito internacional dos direitos humanos essas graves violações são crimes contra a humanidade e não há anistia".

QUEBRA DE HIERARQUIA
O coordenador da comissão também chama a atenção para a dificuldade que a foi enfrentada nos últimos 3 anos, com muitos oficiais das Forças Armadas resistindo e preferindo não colaborar. Dallari cita um fato ocorrido na sexta-feira (14.nov.2014) da semana passada, quando o Ministério Público descobriu que um hospital do Exército, no Rio, ocultou documentos da época da ditadura –e também houve um trabalho para investigar quem eram o integrantes da CNV.
"Essa situação é muito grave e deve ser apurada. Ou essa ocultação de documentos obedeceu a ordem superiores, o que eu realmente não creio, ou houve quebra de hierarquia e desobediência ao que seria uma orientação do [comandante do Exército], Enzo Peri", declara Dallari.
"Se o Ministério da Defesa e o comandante do Exército, diante desse quadro muito grave, não tomarem providência, isto será visto mais do que como inação, como cumplicidade. Não há razão para as Forças Armadas, na sua atual composição, se acumpliciarem com condutas que não praticaram".
A seguir, trechos da entrevista concedida por Pedro Dallari na manhã de 17.nov.2014, no estúdio do UOL:

UOL - A Comissão Nacional da Verdade apurou que 421 pessoas foram mortas ou desapareceram pelas mãos do regime militar. A Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos tem uma lista um pouquinho menor, 362 nomes. Tem um dossiê que foi preparado pelos familiares das vítimas que falou em 436 mortos e desaparecidos. Por que ocorre essa diferença nesses números?
Pedro Dallari - Esse número de 421 nomes não é definitivo. Ainda estamos fazendo uma triagem e creio que vá subir um pouco e ficar na faixa dos 430 nomes. A diferença se deve a critérios de comprovação e de documentação. Por exemplo, na lista dos familiares aparece uma pessoa que faleceu no exterior vítima de um acidente de automóvel, ou de motocicleta. Nós não consideramos esse tipo de situação como uma morte que decorre diretamente das graves violações de direitos humanos. Mas desde que os critérios fiquem explicitados, essa diferença não é relevante. No caso da Comissão de Mortos e Desaparecidos, esse número é um pouco menor porque envolveu limitações com relação ao prazo dos pedidos.

Entregue o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, em 10 dezembro, esse será o número oficial de mortes e desaparecidos por conta do regime militar?
Sem dúvida. Como a Comissão Nacional da Verdade é um órgão de Estado, os números que ela apresentar terão esse caráter oficial.

Nesta terça-feira, 18 de novembro de 2014, completam-se 3 anos da sanção da lei que criou a Comissão Nacional da Verdade. Nesse período, como o sr. definiria a relação que os integrantes da Comissão tiveram com as Forças Armadas?
Uma relação difícil. Desde o começo ficou claro que, embora as Forças Armadas não fossem se opor à Comissão Nacional da Verdade, a disposição para uma colaboração efetiva não seria grande. Não podemos reclamar do atendimento e do relacionamento que nós tivemos por meio do Ministério da Defesa, que foi bom. Realizamos visitas aos locais de graves violações com abertura, com acesso a todas as instalações que nós quiséssemos ver. Isto funcionou bem.
Mas tivemos dificuldades na obtenção de documentos. Houve documentos que só foram entregues a nós agora, no final da atividade de apuração. E há a situação, que para nós não está suficientemente comprovada, em que as Forças Armadas alegam que um grande número de documentos foi destruído. Nós não temos nenhuma evidência dessa destruição e os documentos não aparecem. E agora, recentemente, houve o episódio no Hospital Central do Exército [no Rio], onde documentos que eram dados como não existentes ou como desaparecidos estavam numa sala secreta.

O que aconteceu no Hospital do Exército?
É um episódio muito recente, muito grave. Em setembro, a Comissão Nacional da Verdade, acompanhada de membros da Comissão da Verdade do Rio, fez uma visita ao hospital. Havia denúncias de que pessoas foram detidas lá e, eventualmente, torturadas.
No caso do engenheiro Raul Amaro [1944-1971], há evidências muito sólidas de que ele foi torturado dentro do hospital. Nós queríamos o prontuário médico dele.
Fomos ao hospital, fizemos a visita e não conseguimos localizar documentos. O diretor do hospital disse que não tinha documentos que não aqueles que estavam nos arquivos, que eram mais recentes. Disse que que essa documentação não existiria mais e que ele não saberia onde estariam.

E posteriormente?
Graças a uma denúncia anônima, o Ministério Público Federal fez uma diligência na última sexta-feira, dia 14 de novembro [de 2014], no hospital e descobriu, em salas que não eram aquelas que deveriam estar, prontuários médicos de anos referentes à ditadura e outros documentos que deveriam estar no Instituto Médico Legal do hospital. E [descobriu] um dossiê dos membros da Comissão Nacional da Verdade e da Comissão Estadual da Verdade, com fotografias, demonstrando que, previamente à nossa visita, eles fizeram uma investigação. Revelou a ocultação de documentos, o que é um absurdo tratando-se de uma solicitação feita por um órgão de Estado. E uma investigação sobre os membros da Comissão feita pelo Exército que não se justifica.

Que informações continham esses dossiês sobre os integrantes da Comissão Nacional da Verdade?
Recebi essa informação do Ministério Público Federal. O procurador da República Antonio Cabral, muito preocupado, me ligou e disse: "Descobrimos uma sala em que havia um cofre, uma pasta com documentos sobre Raul Amaro". Não o prontuário médico dele, mas outros documentos, e também uma pasta com informações sobre os visitantes [da Comissão], com fotografias e biografias.

O Ministério Público conseguiu identificar a origem desse dossiê?
Não. Ele só conseguiu localizar porque era uma operação de busca e apreensão. Ele apreendeu o dossiê e vai agora, pelo o que eu soube, pedir a instauração de um inquérito policial.

Foi ouvido o diretor do hospital?
Consta que o diretor teria alegado completo desconhecimento sobre tudo que foi encontrado.

Inclusive a sala onde estavam os documentos?
Inclusive sobre a sala dos documentos. Eu não tenho nenhum motivo para achar que isto tenha decorrido de uma ação coordenada dos comandantes militares. Mas o fato de que tenha ocorrido a ocultação de documentos da Comissão Nacional da Verdade e a investigação dos membros da Comissão é bastante grave e eu espero que o Ministério [da Defesa] tome providências.

Qual é o volume de documentos encontrados nessa sala?
Nesta sala em que foi achado o dossiê da Comissão Nacional da Verdade havia alguma documentação de Raul Amaro, mas não o prontuário. Em outra sala, chamada de sala de contingência, e que não era a sala dos arquivos do hospital, foram localizados em sacos plásticos um conjunto de prontuários que envolveriam anos em que houve graves violações de direitos humanos.

Esse material foi apreendido?
Foi todo apreendido. E o fato de que ele estava separado mostra que alguma preocupação havia por parte dos militares.

Qual é o volume aproximado?
Número eu não sei avaliar. Mas somando os diversos anos referentes ao material encontrado, eu acredito que dê um número maior que 6 ou 7 anos, bem no período da repressão.

Essa atitude pode ter sido de alguém do próprio hospital e não necessariamente de algum comandante, ao seu juízo?
O próprio diretor do hospital é um general, é um oficial graduado. O que não creio é que tenha partido dos comandantes ou do comandante do Exército. Não tenho nenhum motivo para achar que o general Enzo Peri tenha qualquer relação com isso. Agora, a minha avaliação é a seguinte. Sinto nas Forças Armadas um certo autismo por parte dos seus comandantes. Periodicamente a Comissão Nacional da Verdade divulga seus relatórios preliminares de pesquisa, apontando fatos muito graves que ocorreram no período da ditadura militar. Caso Riocentro, caso Rubens Paiva, caso da Casa da Morte de Petrópolis, com provas, depoimentos testemunhais, evidências localizadas. E a reação do comando das Forças Armadas tem sido um tanto quanto autista. Eles não reagem. Não reagem. Sempre que há alguma informação, a imprensa vai procurar o outro lado, vai procurar saber qual é a posição, eles dizem que não comentam as atividades da Comissão. Eu tenho receio de que isto tenha estimulado em escalões inferiores uma certa resistência a apoiar a Comissão Nacional da Verdade. E aí podemos ter um evento grave, embora isolado, como esse do Hospital do Exército.

Essa atitude por parte do comando das Forças leva a atitudes como essa no Hospital do Exército do Rio?
Como essa, como o episódio em que alguns oficiais da reserva se negaram a ir depor, um deles até escreveu no termo de convocação que se recusava a depor: "Não colaboro com o inimigo, virem-se". Uma reação que obviamente não era orientada pelo comando, mas o fato de que o comando se mantém inerte cria espaço para esse tipo de reação.

O sr. citou o comandante Enzo Peri, do Exército. Ele, em fevereiro de 2014, disse que em todas as requisições de informação sobre o regime militar teriam de ser encaminhadas a ele, impondo, na prática, um controle centralizado do fluxo de informações. Esse general que comanda o hospital do Rio de Janeiro...
General Vitor César.
...De maneira deliberada ou inadvertida, mantém esses documentos lá, que eram documentos que a Comissão da Verdade estava procurando. Mas o comandante do Exército pediu que tudo fosse enviado a ele. Houve quebra de hierarquia de alguém?
Sem dúvida. Por isso que essa situação é muito grave e deve ser apurada. Ou essa ocultação de documentos obedeceu a ordem superiores, o que eu realmente não creio, ou houve quebra de hierarquia e desobediência ao que seria uma orientação do Enzo Peri.
Nós aguardamos que entre hoje [segunda-feira, 17.nov.2014] e amanhã [terça-feira, 18.nov.2014] o Ministério da Defesa tome providências. Se o Ministério da Defesa e o comandante do Exército, diante desse quadro muito grave, não tomarem providência, isto será visto mais do que como inação, como cumplicidade. Não há razão para as Forças Armadas, na sua atual composição, se acumpliciarem com condutas que não praticaram.

Por que os atuais comandantes das Forças não têm uma atitude mais proativa?
Confesso que não tenho resposta. A Comissão foi criada pelo Congresso Nacional, com sanção da presidente da República, com a presença no seu ato de instalação dos ex-presidentes da República do Brasil, dos comandantes militares, do ministro da Defesa, dos ministros do governo. Seria razoável que os comandantes militares reagissem diante disso. E hoje está mais que demonstrado não só que houve graves violações de direitos humanos, mas que essas violações não foram produtos da ação isolada de alguns psicopatas, casos fortuitos, foram produto de uma atividade planejada, sistemática. Caberia nesse momento, aos comandantes, reconhecer isto. É o que nós pedimos, que eles reconheçam que houve essas graves violações. Que houve protagonismo nas Forças Armadas, de tal maneira que se encerre, com a Comissão Nacional da Verdade e com esse reconhecimento por parte das Forças Armadas, se encerre definitivamente este período da história do Brasil.

A criação da Comissão Nacional da Verdade é obra da atual administração federal, comandada pela presidente Dilma Rousseff. Por outro lado, a atitude, talvez, tímida da presidente em cobrar dos seus comandantes das Forças uma atitude mais proativa os leva também a agir dessa forma. Há um paradoxo?
A presidente tem dito, com frequência, que vai aguardar o relatório da Comissão Nacional da Verdade e em função daquilo que for recomendado vai tomar atitudes. E, em 10 de dezembro, nós faremos essa entrega à presidente Dilma.
Essa data de 10 de dezembro é um marco que pode significar duas coisas diferentes.

Quais?
Uma delas é a seguinte. Se os militares, antes disso, tendo em vista tudo que foi apurado, se antecipam com o reconhecimento do que houve por parte delas, [eles] convertem esse 10 de dezembro numa data de celebração. Ou a data pode ser o contrário, não haver nada até lá, as Forças Armadas não reconhecerem o papel que tiveram nessas graves violações de direitos humanos, tortura, morte, execução, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres.
O relatório vai ser impactante, com dados sobre estupros, uso de animais em tortura, um quadro de horrores, e a partir daí vai se instaurar uma situação muito constrangedora no país. Vão ser apresentados dados e a sociedade vai se virar para as Forças Armadas, para a presidente, para o governo, esperando uma atitude. E o que é pior, como esses atuais comandantes vão deixar seus postos, eles deixarão uma bomba armada para seus sucessores, que terão que lidar então com esse quadro muito difícil de administração.

Há risco, se os militares mantiverem essa posição, de voltar aquele discurso de que a Comissão da Verdade é revanchista, que quer mexer em coisas do passado que deveriam ser deixadas para lá, porque a Lei da Anistia está aí e não se deve falar nisso?
Não creio, porque a Comissão conquistou ao longo da sua atuação uma credibilidade muito grande que a imuniza contra esse tipo de avaliação.
Dou um exemplo de por que isso não tem aderência. Quando fizemos a apuração sobre o caso do ex-presidente Juscelino Kubistchek [1972-1976], se ele teria sido assassinado ou não e chegamos à conclusão de que não houve atentado contra o ex-presidente Juscelino Kubistchek.

Foi um acidente.
Ele morreu num acidente. Na rodovia. E era algo que isentava os militares, porque a suspeita que havia era que ele tivesse sido assassinado por militares no contexto daquela chamada Operação Condor que reuniu militares do Brasil, da Argentina, do Chile, do Uruguai. Mesmo a Comissão tendo comprovado que isso não ocorreu, isso não nos levou a ocultar essa informação. Pelo contrário, fizemos da mesma maneira que nos outros casos, uma audiência pública para relatar o resultado da apuração e mostrar que, a nosso critério, não houve assassinato e o Juscelino morreu num acidente de automóvel.

Isentando, no caso, o regime militar.
Isentando o regime militar. Tanto é que a única ação judicial movida contra mim como coordenador da Comissão Nacional da Verdade foi uma ação, já julgada improcedente, promovida pela Câmara Municipal de São Paulo. Porque a sua Comissão da Verdade, que entende que Juscelino foi assassinado, queria proibir a Comissão Nacional de divulgar o seu relatório, imagine só. E o juiz, obviamente, afastou sem julgamento do mérito, considerou improcedente a ação.
A Comissão teve muita tranquilidade, num episódio que seria de grande relevância, de dar uma versão que favoreceu os militares. Por isso a tentativa de descaracterizar a isenção da Comissão não será bem sucedida.

O Estado brasileiro deu as condições políticas necessárias para a atuação da Comissão Nacional da Verdade?
Do ponto de vista da comparação com as cerca de 40 Comissões da Verdade que funcionaram no mundo, sim. Ela foi criada por lei, o que dá à Comissão uma autoridade maior do que aquelas criadas por ato do presidente da República. E não houve ingerência do Poder Executivo. Em nenhum momento, nesses 3 anos de aprovação da lei, dois anos e meio de funcionamento da Comissão, houve interferência, o que foi muito positivo. A dificuldade que nós temos, e isso nos frustra, é com a documentação das Forças Armadas. Nós queríamos muito as chamadas folhas de alterações, que registram a vida funcional dos militares. Agora conseguimos receber, não haverá tempo para o processamento adequado dessas informações para o nosso relatório. Mas a obtenção dessas folhas é um legado que a Comissão deixa, porque todo o arquivo vai para o Arquivo Nacional.

Haverá um processo de digitalização desse material para que as pessoas tenham mais fácil acesso de qualquer parte remota do país?
Sim. Nós estamos digitalizando e vamos passar para o Arquivo Nacional o nosso arquivo digitalizado. Agora, há muitas informações que estão sujeitas a sigilo. As próprias folhas de alteração. Portanto, o acesso a elas será controlado, não por força da Comissão, mas pela lei. E aí haverá algum tipo de restrição, mas a ideia é que a pelo menos, a curto prazo, a maior parte desse material esteja disponível e uma grande parte, a médio prazo, esteja totalmente disponível.

Por que as folhas de alteração ainda ficam sujeitas a sigilo se muitas devem ter mais de 25 anos?
Nós temos tido cuidado porque elas dizem respeito à intimidade das pessoas. A folha de alteração tem toda a vida funcional de uma pessoa. Houve um caso da viúva de um general que moveu uma ação contra a Comissão pedindo que fosse negado a entrega das folhas de alteração, mas o Judiciário não aceitou.

Argentina, Uruguai e Chile foram países da América Latina que adotaram condutas incisivas para punir agentes do Estado responsáveis por crimes em suas ditaduras. No Paraguai foi montada uma comissão, mas não se puniu militares envolvidos. No Brasil, onde o debate ainda está aberto, qual será o modelo para o qual se vai convergir?
Trabalho a dimensão da responsabilidade em dois planos. Um é o que eu chamo de responsabilidade institucional, que é a política e que é a necessidade das Forças Armadas reconhecerem que houve graves violações de direitos humanos no Brasil, o que até hoje eles não fizeram. As Forças Armadas não negam mais, como negavam antes, mas não reconhecem explicitamente. E, mais do que isso, reconhecerem o protagonismo que tiveram. Isto é uma decisão política que já devia ter sido tomada.

Por quem?
Pelas Forças Armadas. Resta saber em que estágio de relação de comando a Presidência da República deve interferir, ou o Ministério da Defesa, mas a responsabilidade em última instância é das Forças Armadas.
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24 de maio de 2014

Faltam voluntários para trabalhar de graça para a Fifa? Chamem os 'severinos'!

Exército deixa tropa preparada para substituir voluntários na Copa em SP
Dez quartéis devem 'ficar em condições' de atuar em aeroportos e estádio.
Fifa não pediu. É para 'cenário de eventualidade', afirma comando de SP.
Ofício convocando tropas a se prepararem para substituir voluntários da Fifa na Copa em SP (Foto: Reprodução)
Tahiane Stochero
Do G1, em São Paulo
O Exército enviou um ofício às unidades militares de São Paulo orientando que deixem soldados "em condições" de substituírem, se necessário, voluntários civis da Fifa nos aeroportos e na Arena Corinthians, na capital paulista, durante a Copa do Mundo – em especial na abertura do torneio, em 12 de junho, quando o Brasil enfrenta a Croácia.
O documento, ao qual o G1 teve acesso, foi enviado na segunda-feira (19) a dez unidades militares do estado, solicitando um planejamento aos comandantes para deixarem as tropas preparadas para substituir os voluntários.
As pessoas que prestam serviço voluntário na Copa são escolhidas pela Fifa para auxiliarem jornalistas, torcedores e público em geral, dando orientações sobre localização de pontos turísticos e apoiando setores como credenciamento, competições, cerimônias e demais operações nos estádios.
O Comando Militar do Sudeste (CMSE), que chefia as unidades do Exército de São Paulo e Minas Gerais, confirmou a veracidade do documento.
Segundo o chefe da assessoria de imprensa do CMSE, coronel Ricardo Carmona, a convocação é uma “providência dentro do planejamento de diversas situações e hipóteses que podem vir a acontecer eventualmente durante a Copa”.
Segundo a Fifa, apesar de ter havido 152 mil candidatos a voluntários, o grupo que atuará durante a competição conta com 14 mil pessoas. Para cobrir possíveis desistências, a entidade diz trabalhar com um número de voluntários acima do necessário.
A Fifa afirmou que não houve pedido de reforço, mas que "todas as áreas estratégicas da Copa do Mundo possuem planos de contingência". A entidade disse ainda que "não há preocupação nesse sentido".
A convocação do Exército, porém, diz: “tendo em vista eventual possibilidade de não-comparecimento do pessoal civil de voluntários para trabalharem na Copa Fifa/2014 (aeroportos de Guarulhos/Congonhas/Viracopos, Arena Corinthians e outros locais), informo que as organizações militares deverão ficar em condições, quando acionadas, de substituir este pessoal por militares, principalmente por ocasião da cerimônia de abertura, no dia 12 de junho”. O texto é assinado: “por ordem do Comandante Militar do Sudeste”, posto ocupado atualmente pelo general João Camilo Pires de Campos.
Entre as unidades convocadas estão algumas do interior e do litoral do estado, como a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (Campinas), o Comando de Aviação (Taubaté) e a Brigada de Artilharia Antiaérea (Guarujá). Também foram acionadas unidades administrativas, como a Inspetoria de Contabilidade e Finanças e o Centro de Telemática.

Eventualidade
A assessoria do CMSE diz que o Exército trabalha com “vários cenários” que possam comprometer a segurança e que faz planejamentos para que, “se alguém, em situação crítica, nos pedir, estarmos preparados”.
O comando salientou que a convocação não partiu de um pedido da Fifa, e que a atuação dos militares como voluntários só ocorrerá mediante ordem do governo federal.
Segundo o coronel Carmona, em São Paulo, o Exército já conta com 4 mil militares que atuarão na defesa durante a Copa. Entre as responsabilidades da tropa estão a varredura de explosivos e armas químicas e a proteção de estruturas estratégicas. Outros 1.700 soldados servirão como força de contingência, pronta para atuar na segurança pública e no controle de protestos, caso o governo do estado peça apoio.
G1/montedo.com

2 de novembro de 2015

Comandante do Exército defende afastamento de general que criticou o governo e diz não haver motivo para intervenção

“Há uma crise ética, mas instituições cumprem seu papel”
Tânia Monteiro / Brasília
Dois dias depois de se ver obrigado a demitir o comandante militar do Sul, general quatro estrelas Antonio Hamilton Martins Mourão, e transferi-lo para a Secretaria de Economia e Finanças, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, concedeu entrevista ao Estado na qual avisou que quem fala pela Força é somente ele. Mourão fez declarações de cunho político nas quais pregou o “despertar de uma luta patriótica” e afirmou que “a vantagem da mudança (da presidente da  República) seria o descarte da incompetência, má gestão e corrupção”. Apesar da ressalva, o comandante defendeu que “militar pode falar” e “tem de falar”, destacando, no entanto, que “cada um na sua esfera de atribuição”. “Em questões institucionais”, afirmou, “quem se manifesta é o comandante”.
Villas Bôas declarou que “há uma crise ética no País”, embora ressalve que a chegada do PT ao poder “não tem responsabilidade nisso”. Disse também que “a corrupção está instalada no Brasil”, mas que todas as instituições estão em pleno funcionamento e que “não há chance” de intervenção dos militares.
Ao citar os cortes orçamentários afirmou que houve forte impacto na Força, que já tem “problemas nas fronteiras” e que está faltando munição. Disse ainda que a substituição dos 226 mil fuzis FAL, da década de 1960, pode demorar 226 anos porque atualmente só há recursos para se comprar mil fuzis por ano.

A demissão do general Mourão foi uma punição exemplar?
Trata-se de um oficial reconhecido na Força, que tem todo o respeito do comandante. Mas essa questão não pode ser abordada de maneira simplista. Essa movimentação teve o sentido de que toda e qualquer manifesta ção do Exército tem de ser institucional.

O sr. teme que possa haver solidariedade ou indisciplina na Força?
Dentro do Exército, não. Se não se tomasse nenhuma providência poderia ser um precedente. A intenção é fazer um sinal de que esse procedimento não pode ser aceito.

Militar não deve falar?
Militar tem de falar, pode falar. É lógico que, cada um na sua esfera de atribuição e nas questões institucionais, quem se manifesta é o comandante. A sociedade se desacostumou a ouvir os militares e sempre qu e os militares se manifestam isso causa alguma reação, repercussão e não deve ser assim. O segmento militar faz parte da sociedade e do Estado e tem um papel muito importante.

O sr. falou do risco de uma crise política atual se transformar em crise social, que isso preocupa e diz respeito às Forças Armadas.
O Exército passou 14 meses na Favela da Maré, no Rio, porque havia risco de crise social. Nos preocupa sim porque se a crise econômica prossegue, o desemprego e a falta de perspectiva aumentam e é natural que isso acabe se transformando em um problema social. E problema social que se agrava, se transforma em violência, passa a nos dizer respeito diretamente. Esse é o papel constitucional do Exército. Nosso papel é manter a estabilidade e qualquer coisa que venha eventualmente a quebrar essa estabilidade preocupa.

Mas isso não tem nada a ver com intervenção política?
Absolutamente. Não tem. E é bom que fique claro isso. O Brasil é um País com instituições sólidas e
amadurecidas, que estão cumprindo seus papéis.

O governo está com baixíssima credibilidade e sob acusação de corrupção, problemas econômicos. A presidente tem condição de enfrentar e superar este momento?
Cabe às instituições solucionarem. Temos o Supremo Tribunal Federal, o Ministério Público, o Tribunal de Contas da União, a Polícia Federal. Todas as instituições do Executivo, do Legislativo e do Judiciário estão funcionando. A gente sente que há uma incerteza. São tantos atores, as variáveis que se movimentam, que é difícil dizer qual será o desfecho disso. Mas eu acredito que esta situação vai se solucionar sem quebra da normalidade institucional do País.

O presidente da CUT convocou a população a pegar em armas e ocupar trincheiras para defender o mandato da presidente Dilma.
Esse tipo de manifestação nos preocupa porque se trata de incitamento à violência. Ela não contribui para a estabilidade do País e a normalidade do funcionamento das instituições. Mas é algo que diz respeito à segurança pública diretamente. Então nos preocupa, mas de maneira nenhuma vai provocar nossa atuação.

O sr. teme que, caso o Congresso decida pelo impeachment da presidente, haja uma convulsão social e o Exército tenha de entrar?
O Exército deve estar preparado para qualquer emprego previsto na Constituição.

Um presidente da Câmara dos Deputados acusado de vários crimes é um problema?
Esse é um problema que toca diretamente e deve ser solucionado no ambiente do Legislativo. Não faz parte das atribuições do Exército.

Há uma crise ética no País?
Há uma crise ética no País. Inclusive, está muito mais comum do que se pensa as pessoas pedirem que o Exército tome providências para solucionar a crise. Elas estão demandando, na verdade, os valores que as Forças Armadas representam e a sociedade está carente. Sem a restauração desses valores é difícil que o Brasil recupere trajetória de evolução, do progresso e do desenvolvimento.

A chegada do PT ao poder tem responsabilidade nisso?
Não, absolutamente. Isso já vem de algum tempo. Essa crise ética da sociedade brasileira é um processo que não se instaura de um momento para o outro. Nem mesmo a autoridade da professora na sala de aula está sendo mais reconhecida.

O sr. concorda que a corrupção está instalada no Brasil?
Concordo. Mas eu diria que esse é um estado de coisas que nós vivemos. Durante a Operação Pipa, no Nordeste, 60% dos 6.800 caminhoneiros que trabalham na distribuição de água tentaram algum tipo de fraude. Não se trata de estigmatizar os caminhoneiros. Eles fazem parte da sociedade brasileira. São práticas que se tornaram comuns na sociedade e isso é a base de uma pirâmide. A medida que vai subindo, vai se potencializando.

Os cortes vão trazer problemas para as fronteiras?
Já temos problemas nas fronteiras. Apesar de todo o esforço e sacrifício de nosso pessoal, temos dificuldades para cumprir nossas missões. O Sisfron (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras), por exemplo, já está ameaçado. A previsão original era de instalação em dez anos, de 2012 a 2022. Com os seguidos cortes, a conclusão foi adiada para 2035 e, agora, não ficará pronto antes de 2065. Ou seja, todas as tecnologias desenvolvidas de agora já estarão obsoletas.

Os nossos armamentos como os fuzis estão obsoletos?
Usamos ainda o fuzil FAL da década de 1960, que já está se tornando obsoleto. A Imbel desenvolveu o fuzil IA2, que está sendo usado pelas tropas brasileiras no Haiti. Mas ele está sendo produzido num ritmo muito menor do que seria necessário. Precisamos substituir os 226 mil fuzis. Mas só estamos comprando mil deles por ano. Também está faltando munição e isso deixa o adestramento  prejudicado.

Isso quer dizer que caso precise haver emprego da Força, nós poderemos ter problemas?
Poderemos.
ESTADO DE SÃO PAULO, via Resenha do Exército/montedo.com

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