29 de abril de 2012

Permissão "especial"

Causo domingueiro

Ricardo Montedo
Sobre a figura do sargento recai um estereótipo de elemento bruto e autoritário, de horizontes, digamos, limitados, acostumado a resolver as coisas “no grito”.
O sargento hoje é um profissional militar qualificado, preparado para assumir responsabilidades, mesmo sob condições na maioria das vezes inadequadas.
Mas o fato é que nem sempre foi assim.
Em meados do século passado, paralelamente aos cursos das escolas, aos quais só se tinha acesso através de concurso, haviam os chamados cursos de tropa, onde os critérios para admissão, por vezes, passavam ao largo da capacidade intelectual.
No 144 RC, funcionou um curso desses, por volta de 1954, época de turbulências políticas em que importava mais ter a certeza de que o militar era “de fé” do que se sabia ler e escrever.
Assim, o cabo Patuca, que mal assinava o próprio nome, foi agraciado com as divisas de terceiro sargento, e tornou-se personagem de incontáveis episódios decorrentes de sua pouquíssima familiaridade com as letras.
Este é um deles:
Naquela época os cabos e soldados não podiam transitar em roupas civis de modo algum, a não ser com uma permissão por escrito, dada pelo comandante de esquadrão. Era nisso que pensava o soldado Elesbão, enquanto esgueirava-se pelas ruas de São Pedrito naquela noite de sábado, vestindo um surrado terno emprestado, rumo ao casamento de seu primo, ao qual se seguiria uma festança das boas e o recruta não iria pagar o mico de aparecer fardado num evento desses.
Para infelicidade de Elesbão, ao dobrar uma esquina, já próximo ao local do casório, deu de cara com a “pata choca”, apelido do jipão Dodge, transporte costumeiro da patrulha, que estacionou ao seu lado, dela saindo seu comandante, o recém-promovido sargento Patuca, que o interpelou:
- Ô, militar, aonde tu vais à paisana? Não sabes que tu tem que andar com roupa de passeio? Embarca já na viatura, que vou te levar para o quartel! Estás detido!
Elesbão era recruta, mas já ouvira falar da pouca intimidade com as letras do pobre Patuca. Lembrando-se disso, retrucou:
- Mas, sargento, eu tenho a permissão por escrito!
- Por que não disse logo,rapaz? Deixe-me ver.
O soldadinho, então, tirou do bolso um cartão e alcançou-o ao sargento, sem dizer palavra.Patuca olhou-o, com ar de superioridade, fingindo ler e, devolvendo-o ao soldado, comentou, com ar irônico:
- Então, és mimoso do capitão, hein????
- Como assim, sargento?
- Permissão com letrinhas douradas, né?
- Estás liberado. Pode ir.
Rapidamente, Elesbão guardou no bolso o convite de casamento e saiu de fininho, enquanto o bom Patuca perguntava-se o que mais faltava inventar, depois dessa máquina dos diabos, que escrevia em dourado e tão bonitinho!
Tem muitas outras aventuras no Causos da Caserna, aí em cima.

12 comentários:

Anônimo disse...

KKKKKKKKKK!Patruca era um daqueles brabos igual canto de cerca!!! Conheci um antigão da chance da década de 40 que me disse que levavam o soldados para o fundo do quartel, lá tinha um jumento, cada um tinha a chance de dá uma soco no jumento, se o bicho tremesse as pernas o soldado era Cabo,se caísse no chão, era sargento!!!kkkkkkkkkkk

Cassio Alves disse...

Rir de sargento é picardia. Rir de oficial é transgressão disciplinar.
Hipócritas...

Anônimo disse...

Caro Cassio
Rir de fatos engraçados, sejam eles quais forem, é mais uma forma de relaxar e ser feliz. Recomendo mais alegria na sua vida e menos amargura meu amigo. Ótimo fim de semana a todos.

Anônimo disse...

Relaxa Cassio Alves, até porque a maioria dos nossos Of dão vontade é de chorar! hehehe...

Anônimo disse...

Esse que recomendou "alegria" aí em cima deve ser oficial... Huaeuheuhahehuaeuah

Anônimo disse...

Hoje entendo a razão da ignorância de nossos oficiais, a qual está intimamente relacionada a criação da AMAN, o isolamento da realidade da vida, da política, da economia, da sociedade, da história... E o pior, a metodologia é "com o sacrifício da própria vida. Assim, chegam a raias de subirem em palanque, vaidosamente, pra querem que sejamos iguais. Por falar em tempo passado: como vão os Três Patetas. E se tratando da atualidade: como está o mundo de Bob. Pergunta, hoje eles dominam inglês ou são dominados. Fico na dúvida se são hipócritas ou demagogos. Pra provar, entre em um alojamento de oficial, praça ou soldado e seja a data de aquisiçaõ do mobiliário. Não há o verdadeiro comprometimento do Comandante e seu Estado-Maior. Que tristeza, como aqui vivem de piadinhas, quando não estão descontrolados. Hoje nossos oficiais são vázios de tudo.

Anônimo disse...

Eu conheço um monte de piadas sobre Ofs gays...Principalmente de um certo capitão...que tarava os Sd no banheiro!!!

Henrique disse...

Excelente causo da caserna, amigo Montedo. Quando aos pobres de espírito, não esquenta, hehehe. Em todo grupo existe pelo menos uns 10% que não se decidiram na vida e vivem aproveitando o anonimato prá fazer comentários negativos. Leio, seu blog todos os dias e espero que continue a publicação dos velhos causos da nossa caserna. Abraço a todos e vamos em frente. Brasil acima de tudo. Engenharia!!!

Anônimo disse...

E o pior é que até hoje tem muito oficial que odeia sargento inteligente.

Anônimo disse...

Ô sargentada recalcada... É só uma piada. Não precisam descontar suas frustrações.

Cassio Alves disse...

Engraçado. Não enxergam a própria mediocridade e ainda culpam os pobres sargentos por "recalque"... Se há insatisfação dos sargentos, a culpa é dos oficiais que não fazem a sua parte. Os sargentos são meros expectadores de sua situação, já que não têm autonomia pra lutar por melhores condições salariais, ficando a mercê de atitudes dos oficiais junto ao poder público, que são inertes em função de sua situação privilegiada. Essa "guerra" entre patentes vai existir sempre, enquanto essa situação perdurar.

Anônimo disse...

Agora deram pra fazer piadinhas de sargento. Fanfarões miseráveis ridículos...Ser sargento é viver seu juramento, "com o sacrifício da própria vida", é morrer em vida em nome de um ideal. O resto é burguesia, é capitalismo...

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