2 de julho de 2015

Livro Revela Descaso do Brasil com Militares Feridos na Segunda Guerra

Marina Lemle
Amputado não identificado da FEB. 
Episódio obscuro da história, a internação de cerca de 250 pacientes brasileiros em hospitais dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial vem à tona por meio do historiador Dennison de Oliveira, que acaba de lançar pela editora Juruá o livro Aliança Brasil-EUA – Nova História do Brasil na Segunda Guerra Mundial. O capítulo “Pacientes brasileiros internados nos EUA” trata do que o autor considera uma das faces mais trágicas da documentação a que teve acesso nos Arquivos Nacionais dos EUA em Maryland. Negligenciados pelo governo do Brasil, os feridos de guerra brasileiros recebiam daquele país resgate e atenção médica.
“Sabe-se que começa nesse momento uma das etapas mais importantes do processo de reintegração social do ex-combatente, que é sua recuperação e reabilitação motora e/ou sensorial. É lamentável que essa etapa tenha sido conduzida de forma tão inadequada e mesmo desrespeitosa para com aqueles que sacrificaram em prol da pátria sua saúde e felicidade no exercício do serviço militar em tempo de guerra”, afirma Oliveira. Em entrevista ao blog de HCS-Manguinhos, ele conta como foi o trabalho de pesquisa e o que descobriu.

- Sabe-se quantos brasileiros foram levados para tratamento nos EUA na Segunda Guerra?
- O que dispomos, ainda hoje, são estimativas. Numa anotação rascunhada, anexa à História da Força Expedicionária Brasileira que o comando do Exército dos EUA no Brasil redigiu ao final da guerra, lê-se que teriam sido 776 os pacientes brasileiros evacuados da Itália para o Brasil, dos quais “pequeno número” teria antes passado por hospitais militares dos Estados Unidos. Com base nas pesquisas que realizei nos Arquivos Nacionais estadunidenses em setembro de 2014, estimo que cerca de 250 pacientes brasileiros foram internados em diferentes hospitais mantidos pelas forças armadas dos EUA naquele país durante a Segunda Guerra Mundial.
Ferido da FEB não identificado.

- Onde eles foram resgatados?
Uma vez removidos dos hospitais militares por toda frente de batalha da Campanha da Itália, seguiam para o porto de Nápoles. De lá eram embarcados em navios-hospitais até os EUA, onde eram internados em três diferentes hospitais militares, especializados respectivamente em doenças psiquiátricas, fraturas e amputações.

- Por que foram levados para os EUA e não para o Brasil?
Os pacientes removidos para os EUA eram os casos mais sérios que demandavam tratamento especializado, àquela época não disponível no Brasil. Os termos e condições que deveriam presidir a escolha dos pacientes a serem removidos para os EUA, a maneira pela qual seriam tratados, quando e de que forma deveriam ser repatriados jamais foram formalmente acordadas entre as autoridades do Brasil e dos EUA. Estas questões de importância fundamental para a saúde, o futuro e a felicidade dos veteranos de guerra brasileiros deveriam ter sido formalizadas numa resolução a ser emitida pela Comissão Conjunta de Defesa Brasil-EUA, com sede em Washington. Esta comissão e sua congênere no Brasil, a Comissão Militar Conjunta Brasil-EUA, com sede no Rio de Janeiro, foram tema de meu projeto de pesquisa de pós-doutorado, que motivou viagem de estudos aos EUA. No decorrer da pesquisa ficou claro que jamais foi assinado tal acordo, dando, na prática, carta branca às autoridades militares dos EUA para decidirem a respeito do destino dos pacientes brasileiros, incluindo se deveriam ou não seguir para tratamento naquele país. Em contraste, já em 1942 as autoridades militares dos EUA formalizaram, através de uma resolução baixada pela comissão em Washington, a forma pela qual funcionariam as enfermarias e hospitais de campanha que haviam instalado em cidades brasileiras como Natal, Belém e Recife. Esses estabelecimentos médicos destinavam-se a atender feridos e doentes estadunidenses, tanto oriundos do pessoal militar que trabalhava nas bases aéreas e navais mantidas pelos EUA no Brasil, quanto das tripulações de aeronaves que faziam a ponte aérea com a África, uma ligação de importância vital para a logística dos países Aliados então em luta contra as potências do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial.

- Qual foi a postura das autoridades brasileiras em relação aos pacientes internados nos EUA?
Dennison de Oliveira
A lista de irresponsabilidades, descasos e omissões é tão grande que seria mais fácil falar o que o Brasil fez pelos seus ex-combatentes internados em hospitais dos EUA: quase nada. Veteranos de guerra de ambos os sexos (combatentes e enfermeiras) demandando internamento hospitalar começaram a chegar aos EUA no final de 1944 pegando de surpresa os membros brasileiros da comissão em Washington que, inicialmente, nada podiam fazer por eles. Todos os pacientes careciam de roupas íntimas, uniformes, intérpretes, médicos e enfermeiras brasileiros, próteses e membros artificiais permanentes e soldos para pagarem pequenas despesas.
Com muito custo e depois de um tempo considerável conseguiu-se do Ministério da Guerra no Brasil o atendimento, tardio e parcial, de algumas dessas demandas. A demora em enviar uniformes do Brasil para os internos em hospitais dos EUA significou que eles passariam todo o tempo vestindo pijamas. Isso os impedia de sair do hospital para participar dos passeios e visitas a locais de lazer que lhes eram oferecidos pela Cruz Vermelha estadunidense e certamente os expunha a sentimentos como vexame e tédio, além de ser fonte de ressentimento.
Também jamais foram-lhes enviadas as medalhas por terem se ferido em combate ou se distinguido em ações de guerra, e nem mesmo os distintivos nacionais que teriam sido importantes para elevar seu moral. Os poucos membros brasileiros da comissão conjunta em Washington se esforçavam em visitar seus compatriotas internados, mas parece claro que sua atuação como intérpretes foi claramente insuficiente. Só a muito custo se conseguiu o envio do Brasil de médicos para fazer a triagem de pacientes para os hospitais dos EUA e para acompanhá-los de volta ao Brasil. As enfermeiras jamais foram enviadas, apesar dos repetidos protestos contra a má atuação dos enfermeiros brasileiros no trato com os internados. A situação nesse aspecto era tão ruim que a enfermeira Heloisa Villar, internada num hospital dos EUA para se recuperar de doença adquirida em campanha, resolveu voluntariamente permanecer nos EUA para ajudar a atender os pacientes brasileiros após receber alta.
Das 72 “enfermeiras” enviadas pela FEB, apenas cinco tinham formação na área. 
A questão dos soldos também foi fonte de problemas, sendo pagos tardiamente, impedindo durante muito tempo os pacientes de realizarem pequenas despesas do seu interesse. Nesse aspecto quem mais sofreu foram os subtenentes brasileiros. Deles eram cobradas diárias nos navios hospitais dos EUA com se fossem oficiais, prática adotada na hierarquia militar dos EUA. Contudo, de acordo com a hierarquia brasileira, eles deveriam receber vencimentos correspondentes aos soldos pagos aos praças, o que certamente representou mais uma fonte de conflito para as autoridades militares do Brasil resolverem nos EUA.
Mas nada se compara à angústia pela qual passaram os mutilados de guerra, que dependiam de próteses e membros artificiais para suas atividades diárias. Não havia garantias de que o governo brasileiro iria pagar por isso quando deixassem os hospitais dos EUA de volta ao Brasil. A própria volta ao Brasil não foi garantida pelo governo Vargas. Muitos meses após o fim da Segunda Guerra Mundial ainda haviam dezenas de pacientes brasileiros obrigados a viver como exilados em hospitais dos EUA, face à indiferença do governo para com o seu destino. Foi somente apelando por carta diretamente à filha de Vargas que os últimos sessenta internos brasileiros conseguiram afinal voltar à pátria em fins de 1945.
Jipe da FEB transportando feridos em combate para o hospital.
- Como os EUA lidaram com a situação?
Na ausência de qualquer acordo formal, as autoridades estadunidenses se esforçaram em oferecer aos pacientes brasileiros rigorosamente o mesmo tratamento que dedicavam aos seus próprios internados.
Aliás, se não fosse pela atenção e cuidado que dedicaram aos brasileiros, provavelmente todos eles teriam morrido de frio. É um alívio, mas também um constrangimento, constatar na documentação pesquisada o cuidado que as autoridades dos EUA no Recife dedicaram aos enfermeiros brasileiros em trânsito para hospitais daquele país. Percebendo que os uniformes brasileiros eram claramente insuficientes para suportar o inverno em Nova York, se apressaram em retirar dos seus próprios estoques as roupas e agasalhos que foram fornecidos ao pessoal médico. Como resultado, médicos, enfermeiros e pacientes brasileiros nos EUA ficaram a maior parte do tempo usando fardamentos do exército norte-americano, o que certamente foi mais uma fonte de vexames e conflitos para todos eles.
Autoridades de Washington comunicavam aos seus colegas brasileiros as necessidades dos compatriotas feridos e doentes em diversos hospitais dos EUA. Estes, por sua vez, apelavam ao Ministério da Guerra para verem atendidas pelo menos as necessidades mais essenciais dos internados, obtendo nessa missão sucesso apenas relativo. Não cabe dúvida sobre nossa dívida de gratidão para com as autoridades dos EUA nessa questão. Se tivessem se mostrado indiferentes, nossos doentes e feridos de guerra teriam sofrido ainda mais, de forma cruel e desnecessária.

- Qual a importância desse episódio no contexto do livro?
O que se pode concluir das evidências colhidas pela pesquisa que deu origem a esse livro é que o entendimento da história dos veteranos e veteranas de guerra da FEB em seu processo de reinserção social começa no tratamento que receberam nos hospitais militares estadunidenses durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Do grau de sucesso desse tratamento é que se entende o maior ou menor êxito do processo de reintegração social desses ex-combatentes na vida civil no pós-guerra. Esse episódio tem também muito a nos ensinar sobre a história das relações internacionais militares do Exército Brasileiro. É de se esperar que, no futuro, mais eventos, episódios e personagens envolvidos com o tema se tornem objeto de pesquisa dos historiadores.
.
Dennison de Oliveira também publicou pela Editora Juruá os livros
“Os Soldados Brasileiros de Hitler” (2008),
“Os soldados alemães de Vargas” (2008),
“O Túnel do Tempo: um estudo de História e Audiovisual” (2010) e
“História e Audiovisual no Brasil do Século XXI” (2011).

Fotos: Acervo do OCIAA / National Archives and Records Administration II
Colaborou: André Felipe Cândido da Silva

Textos correlatos:

COMENTO
O conteúdo desta postagem só ratifica a certeza de que a sociedade brasileira nunca teve preocupação para com seus militares. O desdém para com os Heróis da FEB iniciou coevo ao final da Segunda Guerra e se mantém até os dias atuais, quando não se vê nenhuma atitude por parte das autoridades em prol dos que dedicaram sua mocidade, saúde e até a vida em defesa da Democracia. É o mesmo menosprezo oferecido aos que livraram o Brasil, em 1935 e 1964, das garras do socialismo/comunismo. E será a mesma indiferença ofertada se por acaso as Forças Armadas atenderem o canto das sereias para, de novo, colocarem este país nos eixos.
Mujahdin Cucaracha/montedo.com

8 comentários:

Anônimo disse...

Montedo,

O problema abaixo, existe a muito tempo na caserna e só agora começaram a discutir e se preocuparem.

E outra, nunca foi ministrada uma palestra para o oficiais/ST/Sgt sobre o tema e como lidar, perceber, ajudar, encaminhar ao profissional.

Os casos ocorridos, sabemos é por intermédio do seu Blog. Mas quantas dezenas de suícidios ou tentativas devem ocorrer e não sabemos nas mais de 600 OM pelo Brasil!

=> ACHO, QUE SOMOS APENAS NÚMERO, NADA MAIS.

Veja o vídeo ...
http://www.militaresbrasil.com/2015/06/27062015-1-encontro-de-prevencao-ao.html

* Para mim a maioria dos suicidios são motivadas por dívidas, pressão, assédio e perseguições de superiores despreparados ...
.....................................................
Recebi esse relato:

Aconteceu o suícidio no 35º BI e por aqui no Cmdo da 6ª RM, foi como se tivesse morrido um pardal, ninguém reúne, ninguém comenta. Não foi tirado nenhum ensinamento da situação. As coisas transcorrem como se nada tivesse ocorrido e cada vez mais missão!
Servi 4 anos em um Quartel no qual, nesse período, ocorreram 03 suicídios (01 Ten ODT, 01 Sgt e 01 Sd) e 02 tentativas (01 Ten QCO e 01 Sgt). Uma pena!
As FFAA são Instituições que foram feitas para atuar com pessoas com saúde (física e mental), se você apresenta algum sintoma que está fugindo aos padrões preconizados, você passa a fazer parte do problema.
Infelizmente os feridos, os doentes, os fracos, etc, são deixados pelo caminho. É a realidade!

:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
* LEVANTAMENTOS :

TRABALHO DE CONCLUSÃO DA ECEME ANALISA OSUICÍDIO NO EXÉRCITO BRASILEIRO
http://montedo.blogspot.com.br/2010/07/trabalho-de-conclusao-da-eceme-analisa.html
.........................................
SUICIDIOS/ACIDENTES

2º BECmb
http://montedo.blogspot.com.br/2015/05/morre-tenente-do-exercito-ferido-em.html

20º GAC Lv
http://www.militaresbrasil.com/2015/05/24052015-soldado-de-18-anos-e.html

6º BIL
http://montedo.blogspot.com.br/2015/05/soldado-do-exercito-e-encontrado-morto.html

35º BI ( Feira de Santana-BA )
http://montedo.blogspot.com.br/2015/05/provavel-suicidio-major-e-encontrado.html

Gab Cmt EB
http://www.aplateia.com.br/VisualizarNoticia/6889/coronel-espinola-morre-em-brasiliaex-comandante-do-7o-regimento-de-cavalaria-mecanizado-%287o-rc.aspx

Cmdo 3ª DE
http://montedo.blogspot.com.br/2015/04/soldado-do-exercito-e-baleado-dentro-de.html

1º B Es Eng ( Rio )
http://montedo.blogspot.com.br/2015/05/um-soldado-morreu-e-outro-ficou-ferido.html

AMAN
http://montedo.blogspot.com.br/2015/03/resende-cadete-e-encontrado-morto-nas.html
..............................

Marinha
http://montedo.blogspot.com.br/2015/03/aluno-e-encontrado-morto-na-escola-de.html

FAB
http://montedo.blogspot.com.br/2015/04/sargento-da-aeronautica-e-ferido-por.html

Vida breve. Breve vida. Vida que segue ...

Anônimo disse...

Os sabichões sempre criticando Na minha OM constantemente é comentado o cuidado com o colega ou subordinado.

Anônimo disse...

O que me escandaliza, é o fato de, na época, haver oficiais generais e superiores responsáveis, ou devo dizer, irresponsáveis.
Hoje um ventilador tem um oficial responsável, continua o mesmo que 70 anos passados. Quem é contra a profissionalização e diminuição do efetivo das FFAA? Argumentos que não se sustentam diante da nova ordem militar mundial.

Anônimo disse...

Extra ! Extra ! Extra !

==> 300º RACE( Estão reunidos ) Entre 29 Jun à 3 Jul 15.

Aguardemos as novidades.

Vida que segue .... quem viver verá.

Anônimo disse...

Desde aquela epoca o comando nem ai com a tropa...
Uma vergonha...

Anônimo disse...

"Das 72 enfermeiras da FEB, somente 5 tinham formação na área"

Sinceramente eu não consigo entender o porquê disso.

Anônimo disse...

Boa noite, Montedo!

Concordo que sempre tivemos problemas estruturais e de pessoal especializado para atender à tropa e aos nossos familiares,
mas reparem bem: na legenda da primeira foto diz "amputado não identificado da FEB"!
O militar está APENAS com a extremidade de um membro inferior enfaixado, a sua perna está flexionada e claramente avistamos os dedos !!

Anônimo disse...

Aos senhores que ainda acreditam nos seus "comandantes". Segue um exemplo Bíblico de como vivenciar tal momento histórico na sua devida existência atual.

13 Cheguei à conclusão de que a sabedoria leva vantagem sobre a loucura, como a luz leva vantagem sobre as trevas. 14 Os olhos do sábio estão na cabeça, mas o insensato anda nas trevas. Mas eu notei que um mesmo destino espera a ambos, 15 e disse comigo mesmo: A minha sorte será a mesma que a do insensato. Então para que me serve toda a minha sabedoria? Por isso disse eu comigo mesmo, que tudo isso é ainda vaidade. 16 Porque a memória do sábio não é mais eterna que a do insensato, pois que, passados alguns dias, ambos serão esquecidos. Mas então? Tanto morre o sábio como morre o louco! 17 E eu detestei a vida, porque, a meus olhos, tudo é mau no que se passa debaixo do sol, tudo é vaidade e vento que passa. 18 Também se tornou odioso para mim todo o trabalho que produzi debaixo do sol, porque devo deixá-lo àquele que virá depois de mim. 19 E quem sabe se ele será sábio ou insensato? Contudo, é ele que disporá de todo o fruto dos meus trabalhos que debaixo do sol em custaram trabalho e sabedoria. Também isso é vaidade. 20 E eu senti o coração cheio de desgosto por todo o labor que suportei debaixo do sol. 21 Que um homem trabalhe com sabedoria, ciência e bom êxito para deixar o fruto de seu labor a outro que em nada colaborou, note-se bem, é uma vaidade e uma grande desgraça. 22 Com efeito, que resta ao homem de todo o seu labor, de todas as suas azáfamas a que se entregou debaixo do sol? 23 Todos os seus dias são apenas dores, seu trabalhos apenas tristezas; mesmo durante a noite ele não goza de descanso. Isto é ainda vaidade. 24 Não há nada melhor para o homem que comer, beber e gozar o bem-estar no seu trabalho. Mas eu notei que também isso vem da mão de Deus; 25 pois, quem come e bebe, senão graças a ele? Àquele que lhe é agradável Deus dá sabedoria, ciência e alegria; mas ao pecador ele dá a tarefa de recolher e acumular bens, que depois passará a quem lhe agradar. Isto é ainda vaidade e vento que passa.
Eclesiastes, Capítilo II

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