9 de março de 2017

ONU se prepara para retirar missão de paz do Haiti

DAVID McFADDEN
DA ASSOCIATED PRESS, EM CITÉ SOLEIL (HAITI)
DE SÃO PAULO
Algumas dezenas de soldados brasileiros usando os capacetes azuis da força militar da ONU (Organização das Nações Unidas) percorrem um labirinto de barracos na favela mais notória do Haiti. Nas ruas onde no passado ocorriam tiroteios diários entre gangues e militares da força de paz, hoje a maior ameaça que os soldados enfrentam são alguns cachorros latindo.
Anos de patrulhas tranquilas como esta numa tarde recente no distrito pobre de Cité Soleil são vistos por muitos no Haiti e no mundo como sinal claro de que é hora de encerrar uma força da ONU que está presente neste país caribenho desde 2004, quando uma rebelião mergulhou o Haiti em violência.
"Temos um ambiente seguro e estável", disse à agência de notícias Associated Press o coronel Luis Antonio Ferreira Marques Ramos, segundo em comando do contingente brasileiro na força de paz. "O importante é sairmos bem."
Questionados pela Folha, o Ministério da Defesa, que coordena a parte brasileira na missão, informou não ter sido notificado de nenhum fim de operações. O Itamaraty também não havia sido notificado.
Com a redução constante das operações de paz no Haiti nos últimos anos e a intenção da administração americana do presidente Donald Trump de reduzir suas contribuições, a ONU pretende mandar para casa 2.358 soldados de 19 países que contribuem para sua missão no Haiti, possivelmente no prazo de alguns meses.
O chefe das operações de paz da ONU, Hervé Ladsous, disse em viagem recente ao Haiti que o componente militar da missão "provavelmente vai desaparecer no futuro relativamente próximo", apesar de as autoridades não terem se pronunciado publicamente sobre os cerca de 2.200 policiais estrangeiros que acompanham os militares.
Washington, a principal financiadora da missão no Haiti, está aplicando pressão e fazendo uma revisão de todas as 16 missões de paz da ONU. Exigindo anonimato para falar, um diplomata disse à AP que a nova embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, já falou em encerrar a missão de paz no Haiti, conhecida por sua sigla em francês, Minustah.
"A Minustah, no Haiti, é um ótimo exemplo de uma missão que basicamente já cumpriu seu propósito. Então ficaremos muito satisfeitos se ela for fechada", disse o embaixador britânico na ONU, Matthew Rycroft, em entrevista coletiva na sede da ONU em Nova York.
A expectativa é que o Conselho de Segurança da ONU tome uma decisão sobre a reconfiguração da Minustah, que consome US$ 346 milhões (R$ 1,1 bilhão) ao ano, em meados de abril, após rever as recomendações de Ladsous.
Mesmo assim, enviar as tropas para casa não significará o fim da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti.
Operações como as da Unicef (Fundo da ONU para a Infância) e do Programa Mundial de Alimentos também vão continuar presentes no país. E analistas dizem que as autoridades estudam a possibilidade de manter os funcionários civis da Minustah, além de um componente policial da ONU, para continuar a formar e treinar a Polícia Nacional do Haiti.
"Isso seria algo sem precedentes na história das missões de paz da ONU. Normalmente, policiais só participam de missões de paz com apoio militar. Mas é uma opção criativa para reduzir as dimensões e os custos da missão, enquanto ela se prepara para uma saída plena", disse Aditi Gorur, que, diretor do think tank Stimson Center, em Washington, que pesquisa questões relativas a missões de paz.
A primeira missão de estabilização da ONU chegou ao Haiti em 2004, após uma rebelião que depôs o presidente Jean-Bertrand Aristide e deixou o país, cronicamente turbulento, à beira do colapso.
Choques mortais ocorriam diariamente entre gangues leais à facção de Aristide, rebeldes, ex-soldados e policiais extraoficiais. Seguiu-se uma onda de assassinatos e sequestros visando desestabilizar o governo interino apoiado pelos Estados Unidos.
Durante anos, as tropas uniformizadas da ONU foram a única fonte real de segurança no país.
Hoje em dia, porém, a polícia haitiana faz a maior parte do trabalho pesado, e o ambiente mudou. As forças da ONU levaram três anos para controlar a cidade de Cité Soleil, mas hoje a situação ali é de paz, apesar da miséria abjeta em que vivem seus habitantes.
Jornalistas da AP acompanharam recentemente algumas dezenas de membros da missão da ONU e quatro policiais haitianos numa patrulha a pé e montando guarda em barreiras num bairro de Cité Soleil no passado controlado por quadrilhas.
"O trabalho foi bem feito!" disse o capitão brasileiro Leandro Vieira Barbosa aos policiais haitianos após a patrulha conjunta. "Depois que a missão terminar, sei que o bom trabalho de vocês vai seguir adiante."
Diante da relativa estabilidade, parlamentares haitianos argumentam que é hora de o Haiti finalmente tomar conta de sua própria segurança.
"O governo precisa negociar a saída da Minustah assim que possível", disse o senador Patrice Dumont, representante da região Ocidental, que abrange 40% do eleitorado haitiano.
Onde fica Haiti (Port Salut)
Mas o presidente Jovenel Moise e líderes do Legislativo dizem que a força policial muito melhorada ainda não é o bastante. Eles querem uma força militar real para tomar o lugar do Exército, abolido em 1995 após uma longa história de golpes de Estado e violações dos direitos humanos. Dizem que um Exército reconstituído geraria empregos, protegeria as fronteiras e daria assistência em desastres naturais.
Contudo, com os cofres públicos tão vazios que muitos funcionários do setor público não vêm recebendo seus salários, a criação de uma nova força armada exigiria apoio internacional prolongado, disse Jake Johnston, pesquisador do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington.
Enquanto isso, Kenneth Merten, coordenador especial do Haiti no Departamento de Estado dos EUA, observou que "seria difícil imaginar que os EUA dariam apoio financeiro para a reconstrução de uma força armada haitiana".
Num dia recente em Cité Soleil, que tem mais de 400 mil habitantes, um grupo de homens sentados na sombra olhava para soldados brasileiros parando motoristas numa barreira. Perguntados sobre as ambições militares dos líderes políticos haitianos, os homens deram risada.
Semanas antes de deixar a Presidência, em fevereiro de 2016, Michel Martelly aprovou decreto ordenando a recriação do Exército. Mas não existe um Exército real.
"Onde vão conseguir dinheiro para pagar os militares? Como você acha que soldados haitianos esfomeados vão agir?" comentou o padeiro Jonas Nicolas, que tem idade suficiente para se lembrar dos esquadrões da morte assistidos por militares. "Eu prefiro o pessoal da ONU com nossos policiais."
Outros haitianos, porém, enxergam as tropas de paz como força de ocupação. "Não gosto de ver estrangeiros com armas percorrendo meu pais", disse Jean Acao, que tem uma barraca de salgadinhos.
A permanência das forças de paz no país tem tido altos e baixos. Os militares foram elogiados por aumentar a segurança, criar condições para eleições e fornecer apoio crucial após desastres naturais, em especial o terremoto devastador de 2010. Mas alguns soldados foram acusados de uso de força excessiva, de estupros e de abandono de filhos que tiveram no país.
Eles serão recordados principalmente, sem dúvida, por terem inadvertidamente desencadeado a pior epidemia de cólera da história recente, devida ao saneamento inadequado da base usada pelas tropas nepalesas da força de paz.
Alguns haitianos criticam a longa missão de paz por não ter satisfeito suas expectativas, sem levar em conta o fato de que construir instituições e estabilizar países frágeis como Haiti pode ser um processo muito longo.
"Depois de todos estes anos de Minustah e apoio internacional, o Haiti não deveria estar melhor do que está?" perguntou o ajudante de restaurante Stevenson Belizaire, caminhando ao lado de um canal entupido de lixo.
Tradução de CLARA ALLAIN
FOLHA DE SÃO PAULO/montedo.com

15 comentários:

Garivaldino Ferraz disse...

"Depois de todos estes anos de Minustah e apoio internacional, o Haiti não deveria estar melhor do que está?" perguntou o ajudante de restaurante Stevenson Belizaire, caminhando ao lado de um canal entupido de lixo.
Canal entupido de lixo não é problema para "apoio internacional"!! É falta de educação, de higiene, de princípios primários de convivência em coletividade.
Pensei que era só no Brasil que havia esse tipo de gente sem iniciativa para fazer alguma coisa útil, sempre esperando que "ozotro" façam. Como se o resto do mundo tivesse obrigação de fazer até a faxina para esses folgados.

Anônimo disse...

Quanto dinheiro se gastou nesta missão? valiosos recursos que poderiam ser empregados no nosso pais, nas nossas unidades, em PNR, melhorias nos cassinos, nos banheiros, e muitas outras relativas a caserna. Na segurança pública então...mas para ajudar nossa própria nação não estamos preparados,não e nossa missão...o soldo e em reais (veja a reportagem sobre os gastos das FAFÁ no ES) imaginem lá no Haiti e por mais de 10 anos. Restou histórias de uma missão que fracassou. Antes de me atirarem pedras,digo, Eu fui, e a única coisa boa foi fora, nos EUA.

Anônimo disse...

Montedo, olha essa ótima notícia.
Aumento de quase 1.000 vagas de QAO e menos vagas de STen.

Mais Subão sairá QAO!!!!!

Ótima notícia para os descrentes!

http://www.sociedademilitar.com.br/wp/2017/03/decreto-do-presidente-michel-temer-diminui-numero-de-oficiais-de-armas-e-material-belico-e-aumenta-numero-de-militares-temporarios.html

2° Sgt 2002

Rafael Martins disse...

Nao fui. Mas os que foram, especialmente nos primeiros anos, cumpriram sua missão. Agora eh com os haitianos. Kdakxorroqlamba...

Anônimo disse...

acho que tem que acabar mesmo. Essa missão do Haiti, é um verdadeiro teatro, se qualquer um observar o efetivo que vai para missão, aparece miltar de Comandos diversos e diretorias,
mas todos trabalham para Generais, então vamos lá: o que tem de Cel, Ten Cel, Maj, Cap, Ten de Aman, Ten QAO, Subten a rodo,e tb QE e boia, mas Cb e Sd para realmente patrulhar e fazer presente no País, fica por conta do Adeus, é uma brincadeira, todos brigando por uma vaga no avião, fora que há militares indo pela terceira e se brincar quarta vez, aí eu pergunto, por que há militares que jamais terão a oportunidade de participar de uma missão de paz,
enquanto há militares que participam por várias vezes, da vontade de denunciar essas peixadas ao Ministério Público Federal,para as "autoridades militares" explicar favorecimento dessas pessoas, será por que conhecem militares de alto escalão e com isso outras nunca terão essa oportunidade, e eu e vc somos tão incompetentes assim que não podemos ao menos pelo menos nos voluntariar? e mais a maioria dos "Super Militares" (PARASITAS)irão ficar aquartelados, parte na Adm, isto é só ficarão na Base, mais uma injustiça Verde Oliva.

- NÃO QUER0 QUE PENSEM QUE ESTOU REVOLTADO, NUNCA FUI VOLUNTÁRIO, PORÉM TENHO QUE MOSTRAR A MINHA INDIGNAÇÃO, DESSE CRITÉRIO QUE NÃO É TRANSPARENTE E COM ISSO BENEFICIA ALGUNS GRUPOS, E TALVEZ VC NUNCA TENHA A OPORTUNIDADE DE PARTICIPAR DE UMA MISSÃO DE PAZ, ENQUANTO OUTROS QUE TRABALHAM EM DIRETORIAS VÃO SEMPRE, POIS E SÓ O CHEFE INTERVIR NO PROCESSO E FAZER AQUELA INDICAÇÃO IMPOSITIVA.

Anônimo disse...

anonimo de 9 de março de 2017 18:48. Falou tudo meu camarada. Com certeza não teríamos PNR como este do vídeo.

https://www.youtube.com/watch?v=YBrHWkVobLo

Anônimo disse...

Fracassou???? Vc só pode estar de brincadeira! Deve ter ido movido por motivos financeiros e passou em brancas nuvens o tempo que passou por lá.A MINUSTAH é considerada um caso de sucesso na ONU.
Dizer que o dinheiro gasto lá poderia ser gasto aqui é de uma ignorância imensurável. Os recursos (pa maior parte deles) são repassados pela ONU ao Brasil e esta verba não pode ser usada em outra atividade que em missões de paz.Sugiro que se informe melhor.

Anônimo disse...

QUE ANÔNIMO FRACO.

Anônimo disse...

Parece que o amigo não convive bem com o fracasso...Se informe melhor e veja que o Brasil DEVE as Nações Unidas, não ao contrário. Como disse o anônimo acima, "lugar para mandar os peixes ganhar uma grana e passear".Não fique bravo companheiro, e apenas uma opinião realista, e os reflexos logo serão sentidos com a entrada de milhares da haitianos no Brasil. Se você tem o coração maior que o bolso, pegue um que perambula pelas cidades, aqui em SP está cheio, leve-o para sua casa, de casa, comida e roupa lavada, tire fotos, poste aqui no blog e eu mudo de opinião.

Anônimo disse...

Comentário nada haver com a matéria, em todas as pautas postadas, alguém aparece pra comentar sobre Prom de QAO, papo chato,no mínimo inconveniente, queremos ver opiniões das matérias abordadas!

Anônimo disse...

Haiti é enchugar gelo. Vamos sair e vcs vão ver o q vai acontecer.

Anônimo disse...

Tadinho!! Quer piscina no PNR é?
Fala de gastos, mas não larga a teta!

Anônimo disse...

Boa tarde! Lamento por discordar mas acredito que você não está bem certo quanto às colocações feitas sobre o processo seletivo. Existem vagas preenchidas por seleção do Cmdo do Ex e outras pelo Cmdo Militar de Área responsável pelo contingente. Em ambos os casos, critérios são estabelecidos. Se o seu IPL não é o exigido, seu conceito não está dentro do previsto ou não possui a especialização necessária, não tem muito o que fazer. Eu fui e vi muitos militares de diretorias e outros órgãos desenvolvendo perfeitamente suas funções. Assim como a tropa de 3 Sgt, Cb e Sd. Algumas seleções fora dá curva acontecem mas como fato isolado, não como regra. No fim, compartilho a opinião de que a missão está muito bem realizada mas que talvez seja hora do povo haitiano tentar andar sozinho. Embora eu, pessoalmente, acredite que será bem difícil. Mas pra ter uma opinião bem formada, só estando lá, de capacete, colete e "Tiazinha" pra sentir a dificuldade.

Demétrio Xavier disse...

Garivaldino Ferraz, teu comentário foi perfeito, penso exatamente da mesma forma! O "PINO" lá é um sentimento gradativo e muito real, quem foi sabe. A grande maioria dos haitianos são relaxados ao extremo, querem tudo nas mãos e se acostumaram assim, por isso não têm a capacidade e a ombridade de limparem seu próprio lixo. Esse ajudante de restaurante que fez essa colocação é um exemplo prático de um haitiano lixo, que pensa que só em trabalhar já está fazendo grande coisa! Conheci muitos haitianos bons mesmo, trabalhadores e pessoas de fundamento, mas conheci muito lixo também, diria até que a maioria!

Anônimo disse...

Cara como vc é ignorante. Os recursos passados pela ONU somente poderão ser usados em missão de paz. Utilizar esse dinheiro para o Brasil??? Vai se informar melhor. E ainda dizer que a missão fracassou?? Negativo, certamente vc não foi pra essa missão.

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