17 de fevereiro de 2017

Corda Tronco

Histórias de Quartel
Corda Tronco
Ruben Barcellos de Mello
Há um ritual na caserna: os mais modernos são escalados pra apresentar felicitações ou saudações a quem chega na Unidade. Mas as piores "missões" são as que incluem as partidas. Fui escalado, uma vez, pra uma dessas, para meu amigo Dourado:
Poucas coisas são mais doloridas do que uma despedida – achar o cargueiro pastando tranquilamente nas baias, com os arreios pendurados na barriga, talvez.
Mas servir na Cavalaria, tem suas vantagens - os cavalarianos sabem que podem encostar a cabeça num monte de alfafa e dormir como um beiçudo com cólica – em pé!
Quando o clarim tocar amanhã cedo, teus olhos vão procurar o relógio que te despertou tantas vezes, para pagar a forragem. Mas a forragem não será paga por ti - não precisas mais entrar na baia com receio de um coice, nem chamar o cavalariça que sumiu bem na hora do milho. E estas obrigações que foram o teu praguejar, meu amigo, serão tua saudade.
Quando alguém te pedir teu equipamento de volta, vão te pedir um pedaço da tua alma e vais ter que entregar.
Quando alguém te disser “boa viagem”, tu verás a estrada se estreitando e apertando teu coração. Porque tuas melhores lembranças ficarão cobertas pela poeira do tempo que nunca se repete. Vais sentir a boca seca e as mãos molhadas. Vais querer ficar um pouco mais, reter o dia, retardar a hora.
Sem tempo para ficar e sem forças pra resistir, Deus não te dará a certeza da vitória, Ele só te diz – que são horas de ir!
O dia D te encontrará mais fragilizado, porque tu já entregaste tua sela, os estribos e a barbela cheirando a Brasso. A manta de pano alvadio, entremeada de pelos, perdeu o negrume da mocidade, como teus cabelos. O nobre amigo vem quando lhe dizes “olá”, conhecendo tua voz. Tu chegas, acaricia suas ganachas, ele arregaça as ventas e vocês dois – que foram um só na hora do pega – serão saudade que não passa.
Se lembra? dizes, decorei o número do teu casco enquanto memorizavas meu cheiro e o som dos meus passos.
Eis que chega o dia de cruzar os loros e polir esporas.
É hora de limpar as ranilhas e ripar a cola. Parece que o tempo voou, maluqueceu de vez e enferrujou nossas lanças.
Chegou a hora de desamarrar a corda tronco e libertar nossos corcéis.

11 comentários:

Anônimo disse...

https://www.facebook.com/groups/381353905233836/

1º Sgt OSMIR disse...

Isto sim vem da alma de um CAVALARIANO, de quem realmente sabe o que é a cavalaria e o que o NOBRE AMIGO significa para um beiçudo...
Parabéns pelo texto NOBRE CAVALARIANO, belíssimas palavras...

Sempre haverá uma cavalaria!

Anônimo disse...

Meia volta e segue em frente kkkkk os infantes olham a cor dos olhos do inimigos he he he he vcs não olham.

Anônimo disse...

O problema da Cavalaria são as oportunidades. Com 29 anos de serviço nunca consegui servir na Amazônia. Enquanto colegas de Infantaria tem mais de 4 movimentações para amazônia. Curso nem se fala e agora que os Cursos de PE (Perito, Investigador, Policia, Motociclista e Segurança de Autoridades) são exclusivo para Infantes agravou mais. O cavalariano faz pqdt vai para o RJ, faz equitação vai para Escola ou RCG). Guerra na Selva só faz quem esta na Amazônia o que é muito difícil para Cavalaria. Nas opções de movimentação só aparece Quarai, Itaqui, Uruguaiana, Bagelo, Jaguarão. O filé da Cavalaria São Miguel do Oeste e não aber vaga, falta rodizio na Guarnição, muitos miliares muito tempo lá, não abre vaga para outros. Um ST cavalaria conseguiu ir para Tucurui-PA com 25 anos de Guarnição e um ST Infante com 4 anos foi para Itaituba-PA e já era a 3ª vez que voltava para selva. O problema é que isto nunca vai mudar, a Selva é binômio: homem x fuzil (infante), não tem espaço para blindados rodar e nem artilheiro colocar o obuseiro em posição. Não adianta a "Rainha das Armas" esta em todo o lugar. Ex Cabo de Infantaria compulsado (majorado) para o CFS do 3º R C Mec, conhecida ESBA - Escola de Bagé . (Cavalariano Triste!)

Anônimo disse...

Parabéns Ten Barcelos, pelo excelente texto, lendo este viajei no tempo e lembrei-me do companheiro, QAO velho de guerra S1 da OM, quando cheguei da ESA, que jogava aquelas peladas após o TFM junto com os praças sempre com os pés descalços ali no nosso saudoso 3º R C Mec em Bagé-RS. UM FORTE ABRAÇO.

S Ten Cav Rodolfo

Luis Fernando Smidt disse...

Primeiramente gostaria de parabenizar ao autor do texto. Somente quem é oriundo da Hipo sabe o que significa. Mas gostaria de esclarecer ao Anônimo de 17 de fevereiro de 2017 18:17, que na Amazônia há duas OM de Cavalaria Mecanizada, uma em Roraima, o 12º Esqd C Mec e outra no Pará, o 23º Esqd C Mec. Cavalariano quando vem para a Amazônia, se não peruar essas duas, acaba caindo em QG de Bda, RM ou Comando de Área.E digo mais, há cavalarianos na Amazônia que permanecem por vários anos, principalmente 1º sgt e ST, que ao ir para a RR ainda assim, aqui permanecem.Falo por experiência própria.

Anônimo disse...

A Cavalaria consegue servir na Amazônia porém são poucas vagas e não aquele destaque como a Infantaria. Tem vaga mas são poucas e muito peruadas. As vagas são na administração. O forte da Cavalaria é o Sul. Para quem é da Região é excelente.

Anônimo disse...

Quando o cara é jovem quer voltar para casa. Muitos escolhem Cavalaria para voltar para o Sul, depois no futuro se arrependem. É uma excelente arma e de tradição, porém as opções para carreira são restritas. Também tem aqueles que não gostam de cavalo e vão para Arma depois se arrependem. Existem vagas na Amazônia mas são quartéis pequenos. Lembro que em 1994 o critério (preferência) para fazer o Guerra era ser infante estar servindo em Batalhão de Selva. O meu primo era Artilheiro, cara alto nível, mas estava no QG. Até hoje ele tem este "trauma". Uma que ele era Infante, Sgt temporário de PELOPES e naquele ano pegou suplência na ESA. Chamaram ele para o 20º GAC - Barueri-SP e formou Sgt Artilheiro. Até 1998 as vagas do concurso da ESA eram 50% para militar e 50% para civil. As vezes o civil com média 8,0 não era chamado e o militar com média 4.5 (reprovado) era suplente. Hoje é tudo igual terminou a divisão de vagas. Este primo saiu qao e foi para o BIS onde vibrou muito. Quem quer vibrar, fazer cursos, ter opções de selva, ter várias movimentações, vai para Infantaria. Esta é minha opinião.

Anônimo disse...

a cavalaria tem compulsado na ESA. pelo que falam mais de 10 anos compulsa.

Anônimo disse...

o Regimento de Dom Pedrito é muito bom, meu Vô trabalhou lá no 14º.

Anônimo disse...

Eu acho os oficiais de infantaria mais unidos com as praças do que os de cavalaria. Eu acho é porque eles ralam mais, tem cursos operacionais e isto aumenta o espirito de corpo. Conheci uma Asp Of cav, hoje já ten Cel, ele era filho de praça e mesmo assim "queimava" os pracinhas. lembro que afundou o subão que nem conseguiu sair qao.

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